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Nanotecnologia: Pesquisas desvendam universo medido em milionésimos de milímetro

Publicado em 01 março 2002

Laura Knapp escreve para "O Estado de SP": Nanotecnologia, para muitos, é uma palavra que ainda soa estranha, indecifrável. Uma ciência nem nova nem velha, a nano trata de coisas minúsculas, submicroscópicas. Nano significa algo muito pequeno - nanico é um exemplo. Um nanômetro (nm) corresponde a um milionésimo de milímetro, uma dimensão praticamente inimaginável. Para dar uma idéia da ordem de grandeza, ou de pequenez disso, um objeto com diâmetro de 10 nm é mil vezes mais fino que um fio de cabelo. Nessa escala trabalham os nanocientistas. Lidam com uma tecnologia que pode ser considerada uma decorrência da microeletrônica, já que grande parte das pesquisas surgiu com a constante redução dos equipamentos. Mas em termos de conhecimento, é uma ciência jovem ainda. Pesquisadores ao redor do mundo preocupam-se com as mesmas questões básicas e procuram decifrar seu funcionamento. Trata-se de um campo altamente promissor, principalmente pelas possibilidades de aplicação prática da pesquisa. Há dois caminhos para se trabalhar com nanotecnologia. Um é de cima para baixo, onde o esforço é feito para reduzir tamanhos, e os pesquisadores tentam miniaturizar equipamentos e sistemas já existentes. O segundo é inverso, de baixo para cima. Aí, os cientistas unem átomos e, a partir de um encadeamento planejado, montam novas estruturas com organização molecular. Os estudos com nanocircuitos foram eleitos pela revista americana Science como o principal avanço científico de 2001. No Brasil, tanto o Ministério da C&T quanto o CNPq criaram programas para fomentar a pesquisa na área. Vários grupos brasileiros já trabalham com nanociência, tanto em termos de estudos práticos quanto teóricos. O Estado apresenta aqui três dessas linhas de pesquisa, duas delas desenvolvidas na USP e a terceira no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), de Campinas. Como se trata de um universo que começa a ser explorado no mundo inteiro, o Brasil tem chances de acompanhar o ritmo de desenvolvimento de outras nações e se manter na linha de ponta, dizem os pesquisadores. A única condição para isso é que se escolha com cuidado as áreas específicas nas quais o país deve investir. Será pouco produtivo, por exemplo, apostar na fabricação de chips, considerando-se que, por falta de indústrias instaladas aqui, também não há conhecimento ou experiência no assunto. As barreiras de entrada são enormes. Seriam necessários milhões e milhões de dólares em investimentos para que o Brasil conseguisse vencê-las. Esses recursos podem, segundo eles, ser aplicados com mais proveito em outras vertentes da nanotecnologia. (O Estado de SP, 10/2) JC Email Claudio Angelo escreve para a "Folha de SP": café será a primeira depois da cana a ter a parte fundamental de seu DNA decifrado no Brasil. Como no caso da cana, a meta é encontrar trechos específicos, que possam ser usados em melhoramento ou na criação de linhagens transgênicas. A corrida pelo genoma do café, um dos principais produtos agrícolas, responsável por 2,8% das exportações brasileiras em 2000, foi lançada nesta semana em reunião técnica de representantes da Embrapa, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de SP) e do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, responsáveis pelo projeto. Luiz Gonzaga Vieira, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), um dos coordenadores do trabalho, diz que a previsão inicial é que o genoma esteja concluído em até um ano, a partir do início do sequenciamento. O Brasil produz, hoje, cerca de 31 milhões de sacas de café beneficiado (cada saca tem 60 quilos) e ainda é o maior exportador mundial do grão. Entre 1997 e 1998, a produção nacional correspondia a 25% do total do mundo, mas países como Colômbia e Vietnã começam a abocanhar fatias cada vez maiores do mercado. "A concorrência está muito grande, e o genoma é importante para manter a competitividade da cafeicultura brasileira", disse Vieira à "Folha de SP". A transcrição do código genético do cafeeiro (Coffea arabica) será feita nos mesmos moldes que a da cana. A idéia é sequenciar não o genoma inteiro, mas os pedaços de informação genética que a planta de fato usa durante o metabolismo para produzir proteínas. Essas seqüências são codificadas em RNA mensageiro, que é "lido" pelos ribossomos (as fábricas de proteína da célula) durante a síntese protéica. Como para a agricultura o importante são justamente as características expressas -como resistência a insetos e a doenças como a ferrugem, tamanho do fruto e velocidade de crescimento da planta-, não tem sentido vasculhar o texto do DNA inteiro, gene por gene. Os cientistas podem simplesmente usar o RNA mensageiro como uma "cola" e ir direto às seqüências que interessam. Neste momento, o que estão fazendo é passar a "cola" a limpo: após isolar pedaços de RNA mensageiro (fita simples) de várias partes da planta, eles estão convertendo essas seqüências desconhecidas em DNA (fita dupla), que pode ser lido por máquinas seqüenciadores. Essas fatias de DNA, chamadas bibliotecas, serão distribuídas entre os mais de 40 centros de pesquisa que formam o consórcio. Apesar de funcionar do mesmo jeito, o genoma do café será bem mais barato que o da cana. O último custou R$ 8 milhões, enquanto o primeiro tem custo estimado em R$ 1,9 milhão, dividido entre a Fapesp e o Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café. "Estamos aproveitando a capacidade instalada em genômica no Brasil", afirmou Vieira. Os dados obtidos pelo projeto só serão abertos inicialmente para brasileiros. Espera-se que as seqüências possam ser usadas para dar precisão ao melhoramento tradicional ou para produzir cafeeiros geneticamente alterados com seqüências do próprio café, não de outras espécies. "O café tem um ciclo de vida longo, leva três anos para começar a desenvolver características de interesse", diz Mirian Maluf, do Instituto Agronômico, integrante do projeto. "Com a transgenia, poderíamos acelerar o melhoramento." (Folha de SP, 9/2) JC Email