Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Nanotecnologia: opção para suprir necessidades do País

Publicado em 11 julho 2005

Inovação - Projetos vão de fármacos a combustíveis

Não é necessário que ocorra o desenvolvimento de nenhuma molécula nova. Apenas com os compostos já existentes é possível, por meio das nanotecnologias disponíveis, em um caso específico, produzir um medicamento com 75% menos de princípio ativo. Isso, segundo Fernando Galembeck, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é perfeitamente factível.
"Esse resultado é possível apenas com um rearranjo das moléculas usadas no fármaco", disse o pesquisador, na quinta-feira, último dia do Congresso Internacional de Nanotecnologia, em São Paulo. Além de Galembeck, participaram Marcos Pimenta, professor da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), Henrique Toma, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e Ricardo Renzo Brentani. O médico e diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, falou sobre as novas tecnologias aplicadas ao estudo do câncer.
"Acredito que a nanotecnologia no Brasil deveria ser direcionada a três caminhos: atividades que podem dar competitividade e supremacia ao país, como o desenvolvimento de combustíveis de fontes renováveis; projetos que satisfaçam necessidades locais, como doenças tropicais e tratamento de efluentes; e para as áreas de fármaco e eletrônica", disse Galembeck. Segundo ele, nesse último caso existe uma grande dependência nacional por tecnologias estrangeiras.
No caso específico do desenvolvimento dos nanotubos de carbono, estrutura que pode ser usada em dezenas de aplicações tecnológicas, Pimenta, também listou os percursos nanotecnológicos que podem ser seguidos. "É fundamental, antes de mais nada, que se fortaleça a pesquisa básica", afirmou.
Para o professor da UFMG, aprender a produzir nanotubos em nanoescala e desenvolver melhores métodos de purificação são outros desafios que precisam ser enfrentados. "Sem falar na necessidade de se focar os estudos em sensores de gás e bio-sensores em geral, como também em eletrodos", disse.
Henrique Toma, que gosta de repetir que "o mundo nano não é uma ficção, mas uma grande realidade", completou afirmando que é preciso que o potencial verde-amarelo seja aproveitado ao máximo.

Dificuldade para encontrar investidores
Idéias e conhecimento científico, dois ingredientes básicos que devem entrar em qualquer receita para se fazer uma empresa de inovação tecnológica, não chegam a ser obstáculos intransponíveis no caso brasileiro. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, que também participou da conferência, o problema aparece com mais freqüência em uma outra etapa.
"As dificuldades aparecem quando os cientistas, que tiveram uma idéia e produziram artigos científicos, precisam encontrar investidores para o seu negócio", explicou Brito Cruz. Em sua fala, ele contou a história de uma empresa criada nos Estados Unidos, em 2001, na área de memórias moleculares.
"É interessante esse exemplo por mostrar, antes de mais nada, a dimensão do negócio", disse. Segundo os números apresentados por ele, em duas rodadas de capitalização da pequena empresa foram aportados no novo negócio US$ 22,5 milhões. "Se começar com muito pouco vão se passar dez anos e os resultados não vão surgir."
Ainda no exemplo americano, os cinco pesquisadores com boa experiência da área abandonaram por completo seus postos na Universidade da Califórnia em Riverside e na Universidade da Carolina do Norte. "A empresa também se preocupou com o registro do conhecimento gerado por ela. Ao todo, foram publicados em revistas importantes no cenário internacional 33 artigos científicos nesse período", disse Brito Cruz.

Agência Fapesp