Notícia

Boletim do Acadêmico

Nanotec Expo 2006

Publicado em 17 novembro 2006

A falta de uma regulamentação específica para a nanociência pode, a médio e longo prazo, ocasionar graves conseqüências para o setor, com o uso desordenado dos resultados de pesquisas. Ao mesmo tempo, o excesso de normas põe em risco o avanço do conhecimento na área.
As opiniões são do Acadêmico Fernando Galembeck, professor do Instituto de Química da Unicamp, que participou da conferência Laboratório, protótipo e mercado: os caminhos da nanotecnologia , no dia 8/11, último dia da Nanotec Expo 2006 , em São Paulo. "Temos, no Brasil, uma excelente capacidade técnica instalada, recursos disponíveis e cientistas qualificados para o avanço da nanotecnologia. Mas o maior risco que hoje se corre no setor é o excesso de leis", disse o Acadêmico.
Galembeck afirmou temer que a nanotecnologia siga o mesmo caminho da biotecnologia. "Um país como o Brasil, com enormes fontes de conhecimento e riqueza que podem ser extraídos de seus recursos naturais, tem dificuldade em realizar pesquisas na área não só pelo excesso de normas, mas especialmente pela maneira como elas estão sendo aplicadas", afirmou."Não podemos esquecer que muitos pesquisadores e empresários não se preocupam com as proibições e continuam trabalhando de maneira ilegal no campo da biodiversidade. Com isso, leis bem intencionadas acabam, na prática, servindo como reserva de mercado aos infratores."
Para Galembeck, é evidente que o setor de nanotecnologia precisa de regulamentação e essa é uma discussão que deve ser tratada com muita seriedade. "O grande desafio, no entanto, será formular leis que, além de considerarem o conjunto de interesses dos pesquisadores brasileiros, não criem paralisias científicas", apontou.
Por se tratar de uma ciência multidisciplinar, atualmente é necessário seguir as normas específicas de cada área do conhecimento pesquisada na nanotecnologia. Se um laboratório deseja testar a viabilidade de novos medicamentos a partir de estudos com nanofármacos, por exemplo, os experimentos devem ser supervisionados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Segundo Galembeck, propostas de criação de um comitê especializado que fiscalize a aprove as pesquisas em nanotecnologia no país já estão em curso, apesar de ainda não se saber quais entidades formarão esse comitê ou mesmo se ele realmente existirá. "Como o assunto ainda está vago, pode soar como um jogo de interesses de empresas estrangeiras, de modo a barrar a produção nanotecnológica no Brasil para a inserção de produtos externos no país", alerta Galembeck. "Essa é uma discussão que está começando a fluir e nossos cientistas precisam se mobilizar nesse sentido. Não podemos ignorar as possíveis ameaças à pesquisa nacional."
Modificar propriedades de materiais convencionais é um dos segredos da nanotecnologia para agregar valor a produtos. Uma garrafa de leite comum conserva o produto por dois dias, mas um revestimento de nanopartículas, que obstrui os minúsculos poros da garrafa, é capaz de bloquear completamente a entrada de ar e conservar o leite por três meses.
"A tecnologia na escala nanométrica tem infinitas possibilidades. É questão de se ter imaginação: pode-se agregar valor a uma gama imensa de produtos a partir do emprego de nanotubos, nanoporos, nanofios ou nanofilmes", disse o Acadêmico Henrique Toma, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP).
Toma afirma esperar que os empresários tomem consciência das múltiplas possibilidades da nanotecnologia para agregar valores a produtos. "É preciso haver uma mudança de mentalidade nos empresários, de modo que percebam que é preciso atuar ao lado de outros setores, como as universidades e instituições de apoio à pesquisa", disse. Segundo ele, a nanotecnologia tem criado no Brasil diversos produtos inovadores, principalmente na área de engenharia de materiais, mas há muitas contribuições promissoras em outros setores. "Há um vasto campo, quase inexplorado, na área de ciências da vida e de energia e eletrônica, por exemplo", afirmou.
Luiz Gustavo Simões, presidente da Nanox, empresa que desenvolve produtos nanotecnológicos desde 2004, ressaltou na Nanotec Expo a necessidade da cooperação entre universidades e empresas no desenvolvimento da inovação. "Nanotecnologia se faz essencialmente com equipes multidisciplinares. A parceria com centros de pesquisa é fundamental e os recursos humanos são um fator crítico", opinou.
Fonte: Agência Fapesp, 9/11 e 13/11