Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Namoro pode prejudicar peixes nativos

Publicado em 22 setembro 2005

Por Roberta Mathias

Ao paquerar uma fêmea pura, macho híbrido pode atrapalhar reprodução de espécies naturais

Resultado do cruzamento de espécies de peixes diferentes, os híbridos são mais fortes, às vezes mais coloridos, velozes e - por que não? - mais atraentes que os naturais. Esse perigoso encontro pode prejudicar muito a fauna aquática de rios e lagos, pois mesmo que eles não se reproduzam, o que ainda não é comprovado por pesquisadores, seu comportamento de corte pode atrapalhar o "namoro" entre os naturais e aí provocar a redução das espécies nativas.
O tema é bastante detalhado em pesquisa realizada no Laboratório de Genética de Peixes (LaGenPe), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, coordenado pelos pesquisadores Fábio Porto-Foresti e Jehud Bortolozzi. Cachapira (cachara com pirarara), cachapinta (cachara com pintado), piaupara (piau com piapara) e outros híbridos que estão surgindo como resultado de atividades em pesqueiros no Brasil podem causar forte impacto ambiental se chegarem a rios e lagos.
"Hoje, pessoas que têm piscicultura e o mínimo de técnica de reprodução conseguem criar esses híbridos. Isso começou com a sobra de machos de uma espécie e fêmeas de outra, o que resultou em cachapiras, piauparas entre outros", conta o pesquisador Porto-Foresti. Ele explica que a união de duas espécies sempre gera dois híbridos e o primeiro nome é daquele que contribuiu com a linhagem feminina.
"Por exemplo, se você pega a fêmea do pacu e o macho do tambaqui, nasce o híbrido paqui, mas o contrário também ocorre, nascendo o tambacu." O problema, reforça Porto-Foresti, é esses animais caírem no meio ambiente. "Eles são mais fortes, mais bem preparados e é muito difícil controlar a contaminação genética. Mesmo que sejam estéreis, o que ainda não sabemos, se o peixe faz um comportamento de corte ameaça a reprodução de espécies nativas."
O trabalho de pesquisa de Porto-Foresti e Bortolozzi, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), promoveu a implantação do Laboratório de Genética de Peixes do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp de Bauru em 2003, o que ampliou o número de projetos em genética de peixe. Atualmente, além de 14 trabalhos em andamento, o laboratório conta com parcerias de outras entidades, como o Centro de Pesquisas de Peixes Tropicais (Cepta) de Pirassununga, Unesp de Botucatu, Universidade Federal do Paraná e Secretaria do Estado do Meio Ambiente de São Paulo.
Aquários e pesqueiros
Não é difícil pesquisar na Internet e encontrar híbridos em toda parte. Aquariófilos exibem orgulhosos suas cachapiras, pintacharas e outras "curiosidades", enquanto pesque-pagues aproveitam-se dos híbridos para atrair os pescadores.
"Minha monstrinha está com seus 29 centímetros e crescendo. Este híbrido foi desenvolvido para corte (alimentação humana), mas ficou muito lindo para passar despercebido por nós, não acha?", diz um apaixonado por aquários em um blog na Internet.
Alguns pescadores se preocupam com a introdução desses peixes, principalmente pelo risco ambiental que oferecem. O pescador Fernando Lessa tem acompanhado o tema. Em tom de brincadeira no site www. pescacommosca.com.br, ele chega a comentar: "Como seria um híbrido de tucunaré com dourado, o tucunarado ou uma trutanaré (truta com tucunaré). Nossa que horror!"
Estudante de biologia, Lessa também preocupa-se com a introdução de peixes exóticos, como tilápia, saint peter e trutas. "Eu nunca tive o desprazer de pescar uma cachapira, pois somente pesco com iscas artificiais e raramente em pesque-pagues. Mas um detalhe que imagino deve ser levado em conta, a produção de gametas: seria possível que um híbrido tentasse se reproduzir? Pois apesar de ser estéril outros peixes férteis poderiam 'perder' seus gametas ao tentar se reproduzir com esse animal."
O professor Jehud Bortolozzi, da Unesp de Bauru, alerta aqueles que adquirem alevinos para o perigo de se comprar "gato por lebre". "Como essa diferenciação é percebida apenas em uma pesquisa dos cromossomos, pode acontecer de pessoas comprarem, por exemplo, alevinos de cachapira como sendo de cachara. É preciso que haja um certificado que comprove essas características genéticas." Quando pequenos, é impossível diferenciar os peixes, somente com pesquisa genética.

Hibridismo
O professor Jehud Bortolozzi, do Laboratório de Genética de Peixes (LaGenPe), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, conta que o primeiro híbrido (cruzamento de duas raças diferentes) foi criado há mais de 100 anos, pelo geneticista russo Karpechenko, que cruzou o rabanete com a couve. "Eles buscavam uma planta que tivesse a raiz do rabanete com as folhas da couve, uma Raphanobrassica, mas não deu certo. Sempre nascia ao contrário", conta.
De acordo com suas informações, o "boom" do hibridismo se deu na época de Darwin e Mendell (1860-1890). "Naquela época, tudo era feito em busca de espécies diferentes." O gado canchim, primeiro bovino híbrido brasileiro, foi criado em 1936 com o cruzamento das raças zebu e charolês a partir de pesquisas científicas, que acompanham a genética dessas raças até hoje.
Atualmente, a preocupação com a introdução de híbridos na natureza tem exigido maior controle, inclusive governamental. No que se refere a peixes, a legislação é voltada à introdução de espécies exóticas, como a lei número 9.605/98, que em seu artigo 31 proíbe a introdução de espécime exótica (indivíduo) no País, com pena de detenção e multa, e o decreto 3179/99, que no artigo 23 proíbe a "importação ou exportação de quaisquer espécies aquáticas, em qualquer estágio de evolução, bem como a introdução de espécie nativas ou exóticas em águas jurisdicionais brasileiras, sem autorização do órgão ambiental competente", que no caso seria o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
De acordo com engenheira agrônoma Lélia Lourenço Pinto, chefe do escritório regional do Ibama em Bauru, que atua em parceria com o Centro de Pesquisas de Peixes Tropicais (Cepta) em Pirassununga, a questão dos híbridos é preocupante. "Falei com o Laerte (Batista Alves, gerente do Cepta) e acreditamos que uma medida, em nível de legislação, deve ser adotada. O assunto está sendo discutido, peixes híbridos são muito impactantes para o meio ambiente", afirma.