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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Na trilha da sustentabilidade

Publicado em 06 março 2017

Por Manuel Alves Filho

Antes mesmo de o termo sustentabilidade ser incorporado ao repertório geral, a Unicamp já demonstrava preocupação com o tema. Data de 2003, por exemplo, a resolução que criou o Grupo Gestor de Resíduos da Universidade, composto por profissionais que vinham trabalhando pontualmente, vários anos antes, em diferentes unidades e órgãos, para garantir a destinação adequada tanto do resíduo urbano quanto do resíduo perigoso gerado na instituição. Com o passar do tempo, o compromisso com a adoção de ações e programas nesta área foi ganhando amplitude, até ser consolidado, em setembro de 2015, com a criação do Grupo Gestor Universidade Sustentável (GGUS), cuja atribuição é planejar, desenvolver, viabilizar e gerenciar iniciativas voltadas à construção de uma Universidade sustentável sob o ponto de vista socioambiental.

Desde a entrada em operação do GGUS, a Unicamp registrou importantes avanços em direção a este objetivo, como destaca o coordenador-geral da Universidade, professor Alvaro Crósta. “Estamos trilhando o caminho da sustentabilidade ambiental com muita determinação. Ainda temos uma boa estrada pela frente, mas é importante destacar que já obtivemos conquistas muito importantes, em diferentes setores da Universidade”, afirma o dirigente. Um desses avanços foi a busca pela regulamentação do Licenciamento Ambiental para o campus de Barão Geraldo, junto à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

A medida beneficiou diretamente unidades e órgãos que, por força da legislação, precisam de licença ambiental, como Hospital de Clínicas (HC), Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism), Centro de Diagnóstico de Doenças do Aparelho Digestivo (Gastrocentro), Centro de Hematologia e Hemoterapia da Unicamp (Hemocentro), Centro de Saúde da Comunidade (Cecom), Faculdade de Ciências Médicas (Laboratórios de Pesquisa em Doença) e Instituto de Biologia (Laboratórios de Pesquisa em Doença).

A ausência da documentação, lembra o coordenador executivo do GGUS, Juliano H. D. Finelli, estava trazendo problemas para alguns setores. “O Hemocentro, por exemplo, chegou a ter recursos federais retidos até a regularização da situação”, exemplifica. A coordenadora associada do Hemocentro, confirma o episódio, que afetou também instituições parceiras. “Como o Hemocentro estava participando de um projeto colaborativo, os recursos previstos no edital não foram liberados para nenhum dos participantes até que regularizássemos a nossa situação”, relata.

Segundo a professora Sara, o apoio do GGUS foi fundamental para que o Hemocentro avançasse em relação a diversos procedimentos e obtivesse, consequentemente, o licenciamento ambiental. “Um ponto que merece destaque foi o progresso que obtivemos em relação à gestão dos resíduos químicos, radioativos e biológicos, trabalho que havíamos iniciado há 15 anos. Além disso, também aprimoramos nossas ações em relação à prevenção de incêndios e estamos ampliando nossas instalações, levando em consideração aspectos como nível de insolação e incidência de vento, de modo a reduzir o consumo de energia elétrica e conferir maior conforto térmico aos profissionais e usuários do Hemocentro”, elenca a docente.

O engenheiro Ronald Giarola, do GGUS, explica que inicialmente a Unicamp ingressou com um pedido de Licença Prévia (LP) junto à Cetesb, em outubro de 2014, que foi deferido. Na sequência, foi submetida à companhia solicitação da Licença de Instalação (LI), que neste momento está em análise. Em breve, as unidades e órgãos envolvidos iniciarão a elaboração dos documentos necessários para compor a próxima etapa - obtenção de Licença de Operação (LO) -, que corresponde à última fase do processo de licenciamento ambiental. “Para obter esse documento, a Unicamp terá que cumprir novas exigências e ter unidades e órgãos vistoriados pela Cetesb, sem aviso prévio”, detalha.

Outro ponto que experimentou uma significativa evolução na Universidade foi o processo que envolve o corte de árvores nos campi. Foram adotados procedimentos que objetivam preservar ao máximo as espécies, principalmente as nativas. “Há situações em que alteramos o projeto para preservar uma árvore”, informa a engenheira civil Patrícia Ferrari Schedenffeldt, responsável pela Coordenadoria de Projetos e Obras (CPO) da Unicamp. Ocorre que isso nem sempre é possível.

Quando o corte é inevitável, continua Patrícia, é aberto um processo, do qual participam a Divisão de Meio Ambiente (DMA) da Prefeitura Universitária e o GGUS. Estes órgãos cuidam respectivamente da identificação da espécie e do pedido de licença para remoção junto à Cetesb. “Nesse caso, é emitido um Termo de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRA), por meio do qual a Universidade se compromete a fazer a compensação, plantando um número superior de mudas em outro ponto do campus”, informa Hosana de Barros, responsável pela DMA. A proporção normalmente é a seguinte, variando um pouco conforme a espécie: para cada árvore cortada, 25 mudas são plantadas.

Ainda em relação ao corte de árvores, a DMA também realiza um trabalho de remoção de espécies exóticas invasoras. A iniciativa, observa Jorge Luiz Florêncio, do GGUS, faz parte da conservação da biodiversidade no campus. “Essas espécies, entre elas a leucena, são prejudiciais porque competem por recursos com as espécies nativas originais”, detalha Florêncio. As invasões biológicas são atualmente a segunda maior causa de perda de biodiversidade no mundo, ficando atrás apenas da destruição dos habitats pela ação humana.

Energia elétrica

A Unicamp é, por causa da sua dimensão e da complexidade das suas atividades, uma grande consumidora de energia elétrica. Atualmente, a “conta de luz” da Universidade é da ordem de R$ 25 milhões ao ano. Diante da necessidade de ampliar a conservação de energia, a instituição tem adotado uma série de medidas com este objetivo. Uma ação prática foi a substituição, em junho de 2016, de 1.056 lâmpadas fluorescentes pelas de LED na Biblioteca Central Cesar Lattes (BC-CL). Os equipamentos, muito mais econômicos que os convencionais, foram doados por um grupo de investidores chineses.

Regiane Alcantara Eliel, coordenadora da BC-CL, considera que a troca de lâmpadas não somente contribuiu para reduzir o consumo de energia elétrica do órgão, como conferiu mais conforto aos servidores e usuários. “Fiz uma consulta informal junto aos funcionários e todos aprovaram a mudança”, assinala. Paralelamente a essa iniciativa, a Universidade também tem empregado o conhecimento gerado na própria instituição para avançar em relação à conservação da energia elétrica, como pontua Juliano Finelli, coordenador executivo do GGUS.

O professor José Tomaz Vieira Pereira, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) e coordenador da Câmara Técnica de Gestão de Energia (CTGE), uma das sete que compõem o GGUS, observa que a conservação da energia depende de duas condições especialmente: uso de tecnologia e mudança de hábito. “Todos devemos ser gestores responsáveis nessa área”, defende.

Conforme os cálculos do docente, os aparelhos de ar-condicionado espalhados pelo campus de Barão Geraldo respondem por 40% do consumo de energia da Universidade, enquanto a iluminação é responsável por outros 20%. Como reduzir esse consumo? O coordenador da CTGE considera que uma das maneiras é elaborar um programa de educação energética que contemple, entre outras medidas, a criação de comissões internas de conservação de energia nas unidades e órgãos da Unicamp. “Um aspecto positivo dessa iniciativa é que ela praticamente não tem custos”, diz.

A ideia, nesse caso, é transmitir conceitos e informações que levem à adoção de hábitos que concorram para a redução do consumo de energia, como apagar as luzes e desligar o ar-condicionado ao final do expediente. “A esse tipo de iniciativa podemos somar o uso da tecnologia. Atualmente, já estão disponíveis no mercado sensores baratos, que podem ser instalados em cada sala ou sistema de climatização. Esses dispositivos fornecem dados online do consumo para o gestor”, pormenoriza.

Estas e outras ações estão sendo discutidas na CTGE, para que posteriormente sejam apresentadas à Alta Administração da Unicamp. “Por enquanto, algumas unidades e órgãos têm adotado medidas isoladas no sentido de promover a conservação de energia elétrica”, observa o docente. Ainda em relação a este tema, o professor Sebastião de Amorim, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC), está elaborando um estudo para localizar, caracterizar e eliminar as perdas evitáveis de energia elétrica no campus de Barão Geraldo. Segundo o docente, experiências recentes em empresas e domicílios indicam que é possível reduzir o consumo de energia elétrica entre 10% e 30% a partir dessas medidas, sem que haja comprometimento da produtividade ou do nível de conforto das pessoas.

Em uma avaliação preliminar do campus, o professor Amorim e sua equipe identificaram algumas situações que comprovam a existência de desperdício de energia elétrica. “Nós verificamos a existência de maus hábitos de consumo, como salas de aula fechadas, mas com todas as lâmpadas acesas. Também identificamos a existência de instalações inadequadas e equipamentos obsoletos. Outro aspecto importante é a ausência de sistemas inteligentes de controle automático, que permitam, por exemplo, o desligamento de lâmpadas quando o dia ainda está claro [espaços externos] ou quando não há presença de pessoas no ambiente [espaços internos]”, elenca.

O principal problema para o desenvolvimento de um programa mais efetivo para a racionalização do consumo de energia elétrica na Unicamp, conforme o professor Amorim, é a presença de somente um medidor, que registra o consumo total do campus de Barão Geraldo. “A inexistência de medidores setoriais compromete o diagnóstico das áreas críticas e a localização de eventuais pontos de perdas”, assinala.

A solução para este problema, acrescenta o docente, é instalar no campus uma malha metrológica que permita registrar o consumo por setores. “Nós listamos 274 núcleos independentes de consumo de energia elétrica e inspecionamos os locais de eventual instalação de equipamentos metrológicos independentes. Como a conexão física entre os dispositivos representaria um investimento proibitivo, nossa proposta é que esta conexão seja feita por meio de radiofrequência, que tem custo muito menor”, sugere o professor Amorim. Ele e sua equipe estão trabalhando agora na formulação de um projeto. A ideia é implantar um projeto piloto no Ciclo Básico, para depois extrapolar a experiência para o restante da Universidade.

Água

Além da energia elétrica, o consumo de água também tem merecido atenção por parte da Universidade. A experiência em relação ao uso racional desse recurso remonta ao ano de 1999, quando a Unicamp instituiu o Programa Pró-Água, que executou ações de conscientização e combate às perdas. A iniciativa foi tão bem-sucedida que, atualmente, o nível de consumo da instituição, de 55 mil m³ ao mês, é significativamente inferior ao de 15 anos atrás, que era de 90 mil m³ mensais, a despeito de a sua estrutura física ter registrado um crescimento de aproximadamente 40% no período.

Em fevereiro de 2015, por força da crise hídrica que afetou o Estado de São Paulo, a Universidade incrementou iniciativas para estimular o consumo racional de água ao lançar o seu Plano de Contingência, que é orientado por três vetores: conscientização, racionalização e prevenção. “Decorridos dois anos, é possível dizer que o plano proporcionou inúmeros ganhos para a Unicamp, não somente no âmbito financeiro”, analisa o professor Orlando Fontes Lima Júnior, assessor da Coordenadoria Geral da Universidade (CGU).

Nos últimos dois anos, afirma o docente, foram realizadas campanhas de esclarecimento voltadas à comunidade universitária, que incluíram, entre outras medidas, a distribuição de folhetos explicativos e a adesivagem das louças e metais sanitários. “Nós também promovemos uma série de seminários e workshops, nos quais especialistas da Universidade e de outras instituições, inclusive estrangeiras, discutiram a problemática da escassez de água”, complementa Maria Gineusa de Medeiros e Souza, secretária executiva da Câmara Técnica de Educação Ambiental do GGUS.

Segundo ela, as atividades realizadas durante as edições da Semana do Meio Ambiente, como exposições, debates, oficinas etc, também contribuíram para o esclarecimento da comunidade interna. Para 2017, adianta Gineusa, a proposta é desenvolver essas atividades ao longo de todo o ano, e não somente numa semana. “Entendemos que, desta maneira, reforçaremos a ideia de que o compromisso com o ambiente não deve ser manifestado ou exercido somente em um período, mas no nosso dia a dia”, diz.

Uma medida importante adotada após a instituição do Plano de Contingência, assinala Demércios Bueno Baú, da Divisão de Sistemas da Prefeitura Universitária, foi a instalação de arejadores nas torneiras do campus de Barão Geraldo (3.850 unidades). A iniciativa reduziu o consumo de água, sem comprometer o conforto das pessoas. “Nós também investimos na compra de bacias sanitárias modernas, que consomem somente seis litros de água a cada descarga, contra 25 litros dos modelos mais antigos”, pontua Baú.

O vice-prefeito universitário, Moacyr Trindade de Oliveira Andrade, destaca igualmente o trabalho realizado pelo órgão no sentido de reduzir as perdas de água, como a operação caça-vazamentos e a execução dos serviços de manutenção nos prédios da Universidade. “A conjugação de todos esses esforços, vale lembrar, não é importante somente para a Unicamp. Também é relevante para a sociedade, visto que, ao economizarmos água, estamos disponibilizando um volume maior desse recurso para o consumo da população”, analisa o vice-prefeito Universitário.

Nessa linha, a Unicamp contratou uma empresa para realizar um levantamento hidrogeológico na Área de Expansão, contígua ao campus de Barão Geraldo, adquirida pela Universidade em março de 2014. O objetivo é identificar a viabilidade da perfuração de novos poços artesianos no local, de modo a suprir as necessidades da instituição ao longo dos próximos anos, diante de uma perspectiva de crescimento das suas atividades e instalações.

Gênese

Como mencionado no início deste texto, a preocupação da Unicamp com questões relativas à sustentabilidade socioambiental não é recente. As primeiras iniciativas nessa área remontam à década de 1990, com trabalhos pontuais realizados por servidores técnico-administrativos e docentes, notadamente em relação à gestão de resíduos. No início dos anos 2000, medidas isoladas ganharam um caráter institucional, a partir de um edital na área de infraestrutura lançado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que previa a liberação de recursos destinados ao tratamento de resíduos químicos, como lembra o professor Fernando Coelho, docente do Instituto de Química (IQ) e assessor da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP).

Na ocasião, alguns docentes que já estavam envolvidos com o tema procuraram o então coordenador-geral da Universidade, professor Fernando Galembeck, para discutir a formulação de um programa de gestão de resíduos. “Foi formado um Grupo de Trabalho, constituído por especialistas de diferentes áreas, para propor à Unicamp uma política de gestão voltada para o que classificamos na ocasião de ‘resíduos perigosos’”, relata o professor Fernando Coelho.

O desafio, à época, era encontrar soluções baratas para os processos de identificação, remoção e tratamento dos resíduos. “Quanto aos produtos químicos, a opção recaiu sobre a incineração, enquanto os biológicos passaram a ser retirados por uma empresa contratada. O montante atingiu mais ou menos 50 toneladas, o que zerou todo o passivo da Universidade entre os anos de 2006 e 2007”, resgata o docente. Esse trabalho, sublinha o professor Edson Tomaz, coordenador da Câmara Técnica de Gestão de Resíduos (CTGR), criou as bases para o atual programa de gestão de resíduos da instituição.

Atualmente, conforme Tomaz, que também participou das primeiras ações nessa área, o modelo de gestão da Universidade é muito bom. “No início, havia poucas referências de ações de instituições públicas relacionadas a esse tema. Hoje em dia a situação é muito diferente. Para a Unicamp, a política de gestão de resíduos é uma questão estratégica. Prova disso é que ela está vinculada à Alta Administração. Nós contamos com uma equipe técnica do GGUS altamente preparada, que é capaz de atender a todas as demandas da Universidade. Também contamos com a Câmara Técnica de Gestão de Resíduos que responde pelas questões táticas e que também é responsável por fazer toda a engrenagem funcionar”, analisa o professor Tomaz.

A operacionalização das ações nas unidades e órgãos é coordenada pelos facilitadores, um conjunto de profissionais técnicos indicados pela direção destas instâncias, para servirem de vinculo junto ao GGUS. Esses facilitadores, acrescenta a doutora em química Regina Célia da Costa Mesquita Micaroni, funcionária do GGUS, garantem a capilaridade das iniciativas. “Esta estrutura tem feito com que tudo funcione de forma muito positiva. Tanto é assim, que nosso trabalho tem servido de referência para outras instituições”, informa.

O Coordenador Executivo do GGUS, Juliano Finelli, ressalta que dentro deste programa foi prevista a construção de um Transbordo para centralizar o armazenamento do resíduo de toda a Unicamp, já acondicionado e com destinação definida. A concepção arquitetônica das edificações do Transbordo foi elaborada pela Coordenadoria de Projetos (CPROJ) da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) e prevê uma área construída de cerca de 1.250m². Neste local, o resíduo permanecerá estocado apenas pelo tempo necessário para completar uma carga e seguir para a destinação final.

No caso de rejeito radioativo de meia-vida curta, o armazenamento ocorrerá até que atinja o limite estabelecido por normas para seu descarte definitivo, sendo que todo resíduo será acompanhado por um rígido sistema de identificação e registro, permitindo total rastreabilidade. Devido às especificidades dos rejeitos, serão construídas três subunidades: uma especializada em Resíduo Biológico, uma em Químico e uma terceira em Radioativo. Também será implantado um laboratório para desenvolvimento de novas técnicas de tratamento, impactando positivamente no custo final e em todas as instâncias da vida universitária.

GGUS

Com a criação do GGUS, a Unicamp assumiu a sustentabilidade como princípio, compromisso e prática. O órgão incorporou algumas atividades anteriormente existentes e instituiu outras. O GGUS tem como instâncias de planejamento e definição das diretrizes políticas o Conselho de Orientação Universidade Sustentável (COUS) e sete Câmaras Técnicas - Câmara Técnica de Gestão de Energia (CTGE); Câmara Técnica de Gestão da Qualidade do Ar (CTGQA), Câmara Técnica de Gestão de Recursos Hídricos (CTGRH), Câmara Técnica de Gestão de Fauna e Flora (CTGRN), Câmara Técnica de Gestão do Ambiente Urbano (CTGAU), Câmara Técnica de Gestão de Resíduos (CTGR) e Câmara Técnica de Educação Ambiental (CTEA).

Todas as normas, diretrizes políticas e procedimentos técnicos de sustentabilidade socioambiental propostas pelo órgão são posteriormente submetidos COUS, para a aprovação final. “O GGUS proporcionou um salto nas atividades da Unicamp, ao passar a tratar a sustentabilidade de uma forma transversal e multidisciplinar”, considera o coordenador-geral da Universidade, professor Alvaro Crósta, que também responde pela presidência do COUS, instância constituída por representantes da comunidade universitária.

Segundo ele, o compromisso da instituição foi firmado não somente em âmbito interno, mas também externo. Crósta lembra que a Unicamp é signatária, desde abril de 2015, da “Carta Campus Sustentável”, formulada pela International Sustainable Campus Network (ISCN). A instituição, que reúne algumas das melhores universidades do mundo, entende que as instituições de ensino e pesquisa exercem papel único no desenvolvimento de tecnologias, estratégias, cidadãos e líderes necessários para um futuro mais sustentável. No Brasil, além da Unicamp, apenas a USP e a UFRJ integram a ISCN.

Uma das ideias que estão na base das ações defendidas pelo ISCN, conforme o coordenador-geral da Unicamp, é o emprego das atividades de ensino, pesquisa e extensão da gestão da sustentabilidade. “É o que nós classificamos de laboratórios vivos, ou seja, usar os conhecimentos, recursos e competências da Universidade em favor da construção de um mundo sustentável, tendo os campi da Universidade como ponto de partida”, explica Crósta.

Resultado direto dessa visão é a elaboração do diagnóstico socioambiental dos campi da Universidade, cujos dados servirão de subsídios para a formulação do Plano Diretor da Unicamp. O objetivo da iniciativa é formular propostas que ampliem a qualidade de vida e o bem-estar da comunidade universitária. O trabalho vem sendo executado pela Câmara Técnica de Ambiente Urbano (CTAU) do GGUS, que é coordenada pela professora Emilia Rutkowski, da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC).

Segundo a docente, já foram realizadas reuniões nos campi de Barão Geraldo, Piracicaba e Limeira, para obter da comunidade informações e sugestões que contribuam para a construção do mapa socioambiental. “Embora a participação tenha ficado aquém do esperado, os resultados dos encontros foram muito interessantes. Nas reuniões, os participantes (docentes, funcionários e alunos) puderam apontar o que consideram pontos positivos e negativos relacionados aos campi. Assim, sugiram indicações de locais considerados ermos e/ou perigosos, mas também espaços tidos como agradáveis”, relaciona a professora Emília.

Em relação ao entorno da Universidade, continua a docente, algumas pessoas apontaram dificuldades de acesso aos campi. “Todas essas questões estão sendo analisadas e serão incluídas no mapa, que por sua vez servirá de ferramenta de planejamento e gestão para a Unicamp. O objetivo final é melhorarmos a qualidade de vida da comunidade universitária, tendo em vista os problemas e soluções apontados pela própria comunidade”, diz. Como metodologias para fazer este diagnóstico, a CTAU está empregando a Cartografia Social e o Green Maps (Mapas Verdes).

As informações fornecidas pelo mapa socioambiental, conforme o coordenador-geral da Universidade, serão somadas a muitas outras para a construção do que a Unicamp denominou de Plano Diretor Participativo, que já conta com uma proposta metodológica. Alvaro Crósta pontua que o propósito da Universidade é envolver a comunidade universitária nas discussões sobre o documento, que servirá para orientar, entre outros aspectos, questões como a ocupação territorial dos campi, incluída a Área de Expansão, e a mobilidade.

Durante dois anos, o Grupo Interdisciplinar de Suporte à elaboração do Plano Diretor do Campus-Sede da Unicamp (GIS), composto por 15 professores e funcionários da Universidade, estabeleceu as bases técnicas para a formulação do documento. Uma das iniciativas do GIS foi a realização, em novembro de 2016, do seminário intitulado “Plano Diretor Participativo da Unicamp: conhecendo as experiências de outras universidades”.

Na oportunidade, foram apresentadas diversas experiências de construção de planos diretores em universidades brasileiras. Participaram do encontro representantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade de São Paulo (USP/São Carlos) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Estas e outras iniciativas visam ao cumprimento de ações que estão em sintonia com o que é propugnado pela ONU. Queremos agir localmente, no sentido de criar um campus ecologicamente sustentável, com menos deslocamentos de veículos e mais cobertura vegetal, entre outros aspectos”, pontua Alvaro Crósta. O coordenador-geral observa, ainda, que todas as ações que estão sendo discutidas ou executadas também estão em acordo com o Planejamento Estratégico (Planes) da Unicamp, válido para o período 2015/2020.

Passivo ambiental

Retornando à criação do GGUS, quando o órgão foi constituído a Unicamp tinha um passivo ambiental importante. Um dos problemas remanescentes era a destinação do óleo lubrificante utilizado nos transformadores de energia elétrica presentes no campus de Barão Geraldo, especialmente no Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), Centro de Componentes Semicondutores (CCS) e Hospital de Clínicas (HC). “Em relação aos dois primeiros, o problema foi resolvido com a substituição dos equipamentos, o que exigiu investimentos da ordem de R$ 800 mil. No HC, a troca de tecnologia também será providenciada, com a alocação de R$ 2,3 milhões para essa finalidade. A licitação já está em andamento”, informa o coordenador executivo do GGUS, Juliano Finelli.

Outro passivo importante relacionava-se à contaminação do solo por hidrocarbonetos em área do HC, causado pelo vazamento de combustível usado na caldeira daquela unidade hospitalar. “A Unicamp providenciou a troca da caldeira e iniciou o processo de descontaminação do solo, que está em curso. A Universidade investiu aproximadamente R$ 900 mil nessas medidas de descontaminação do solo e monitoramento das águas subterrâneas a realizar-se por dois anos, e a desmobilização e destinação dos equipamentos contaminados”, diz o coordenador executivo do GGUS. Por último, mas não menos importante, a Unicamp também adotou ações para resolver a questão do lançamento de esgoto no lago do Parque Ecológico “Professor Hermógenes de Freitas Leitão Filho”. O tema foi tratado em conjunto pelo GGUS e Prefeitura Universitária, que identificaram e estão eliminando os pontos de lançamento de esgoto junto às redes de água pluvial.

Dimensão humana

Um ponto fundamental das ações e programas relacionados à construção de uma universidade sustentável é o envolvimento das pessoas com os compromissos assumidos. Na Unicamp, esse tipo de participação vem sendo estimulado há muitos anos, de variadas maneiras. Uma ação que tem sido importante nesse aspecto é a Semana do Meio Ambiente. Em seu início, nos idos dos anos 2000, o evento era voltado especialmente às crianças atendidas pelas escolas e creches mantidas pela instituição.

A partir de 2010, a Semana ganhou corpo e passou a envolver outros segmentos da comunidade universitária, além de estabelecer parceria com a Prefeitura de Campinas, que também realiza evento semelhante. Graças a esse envolvimento e às contribuições oferecidas por diferentes atores, uma Carta de Intenções foi elaborada coletivamente, estabelecendo metas a serem alcançadas em 5, 10 e 15 anos. O documento foi encapsulado, para ser aberto somente em 2024. “Na carta, a comunidade universitária registrou suas expectativas quanto à Unicamp que ela espera ver no futuro”, relata Maria Gineusa de Medeiros e Souza, secretária executiva da Câmara Técnica de Educação Ambiental do GGUS.

Um dos compromissos presentes na Carta de Intenções é a revitalização dos pontos de ônibus do campus de Barão Geraldo, ação que já foi iniciada e que foi inserida, em 2015, nas atividades do Trote da Cidadania, organizado pelos estudantes para recepcionar os calouros. O Trote, registre-se, tem um forte compromisso com a questão ambiental. As palestras, oficinas, visitas e debates promovidos pelos estudantes sempre tocam em temas importantes, como preservação dos recursos naturais, reciclagem de resíduos, consumo consciente, entre outros.

O compromisso com a construção de uma universidade sustentável também está baseado em outras manifestações, como as de caráter artístico e cultural, sempre presentes na programação da Semana do Meio Ambiente. Ao longo das edições do evento foram realizadas, ainda, atividades como Biodanza e o Espaço Mandala, este último coordenado pelo professor Sandro Tonso (Faculdade de Tecnologia), em parceria com a Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura Universitária. A ação visa à revitalização do horto de plantas medicinais da Unicamp.

Na mesma linha, o Jardim Sensorial, projeto conduzido pelo funcionário Sebastião Martins Vital, conhecido na Universidade como “jardineiro poeta”, tem servido às ações de educação ambiental, notadamente das crianças atendidas pelas creches mantidas pela Unicamp. “As plantas mexem muito com a gente por possuírem cheiro e paladar. Temos que experimentar essas sensações”, explica o servidor, que se incumbiu de difundir os conceitos de sustentabilidade por onde passa, sempre de forma lírica.

Outro exemplo de envolvimento com as questões da sustentabilidade vem do Portal Crisálida (Crises Sócio-Ambientais. Labor Interdisciplinar Debate & Atualização), que nasceu de conversas entre docentes da Unicamp, preocupados com o curso das crises socioambientais. Instituído por portaria assinada em outubro de 2015 pelo reitor José Tadeu Jorge, o Crisálida é um espaço destinado ao debate “sobre as ameaças que nos confrontam, em especial a aceleração das mudanças climáticas e a degradação da biosfera”, como esclarece o professor Luiz Marques, do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), um dos criadores do Portal.

De acordo com ele, o Crisálida pretende dialogar com o público em geral e está aberto à contribuição de todos os interessados, estejam eles dentro ou fora da Universidade. A participação pode se dar somente por meio da leitura das publicações ou, o que ele classifica como ideal, através do envio de conteúdos relevantes, propostas de temas para debate, resenhas de livros etc. “A ideia é estimular a informação e o debate. O Crisálida encontra-se em estado nascente e seu êxito depende do grau de comprometimento da comunidade interna e externa”, pondera. O Portal pode ser acessado neste endereço.

Laboratórios vivos

O conceito de Laboratórios Vivos de Sustentabilidade, já mencionado nesta matéria, pode ser compreendido com mais clareza por meio de alguns projetos desenvolvidos na Unicamp. A principal premissa, segundo o coordenador-geral da Universidade, professor Alvaro Crósta, é transformar os campi da instituição em locais onde o ensino e a aprendizagem possam ocorrer em todos os seus espaços, inclusive os físicos. A medida, observa o dirigente, é defendida pela International Sustainable Campus Network (ISCN), rede de universidades sustentáveis, da qual a Unicamp faz parte desde 2015.

Um tema que vem sendo trabalhado dentro dessa perspectiva é a internet das coisas. A sugestão, explica o professor Leandro Manera, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), nasceu durante a elaboração do Planejamento Estratégico da Prefeitura Universitária. A questão que foi colocada naquele momento era se esse tipo de tecnologia poderia ser aplicado em atividades sob a responsabilidade do órgão, como a iluminação do campus e o serviço de transporte coletivo interno, conhecido como Circular Interno.

O professor Manera explica o que é a internet das coisas. “Basicamente, é dotar os objetos de inteligência, como um relógio, uma peça de roupa ou um eletrodoméstico”, diz. No caso da Unicamp, docente está coordenando o desenvolvimento de uma tecnologia que permitirá aos usuários do Circular Interno acompanhar, pelo telefone celular, o local onde o veículo está e quantos minutos ele levará para chegar ao ponto de ônibus mais próximo.

Para isso, o usuário terá somente que baixar um aplicativo, que será disponibilizado gratuitamente. Os testes, conforme Manera, deverão começar em breve. Em tese, complementa o professor, a mesma solução poderá ser aplicada ao Restaurante Universitário. Também por meio de um aplicativo, o usuário terá como verificar qual o tamanho da fila antes de se dirigir ao local para fazer suas refeições.

Outra medida que está sendo estuda é a instalação de sensores nos postes de iluminação do campus de Barão Geraldo, de modo a estabelecer uma rede. O objetivo é identificar, por exemplo, luzes que estejam acesas durante o dia, para que possam ser desligadas. Um projeto piloto está sendo executado, ligando a FEEC à Prefeitura. A intenção é estender posteriormente a rede para o restante do campus. “Estas e alternativas estão sendo analisadas a partir de pesquisas desenvolvidas na FEEC. A ideia é aproveitar nossos conhecimentos e competências para ajudar a construir uma universidade sustentável, o que implica em ampliar o bem-estar da comunidade interna e de nossos visitantes”, sublinha Manera.

A Unicamp também está desenvolvendo, em parceria com a CPFL Energia, estudo dentro do Programa Emotive, mantido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que tem por meta constituir um laboratório real de mobilidade elétrica na Região Metropolitana de Campinas. No âmbito da Universidade, as pesquisas têm sido conduzidas na FEEC, Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) e Instituto de Geociências (IG). No IG, os trabalhos estão sob a responsabilidade de pesquisadores do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT), vinculados ao Laboratório de Estudos do Veículo Elétrico (LEVE).

Segundo a professora Flávia Consoni, coordenadora da pesquisa no IG, o trabalho está organizado em torno de três eixos: a) Políticas Públicas e Incentivos Governamentais para o Veículo Elétrico em países selecionados, b) Prospecção Tecnológica e Inteligência Competitiva para o Veículo Elétrico e c) Cadeia Produtiva e Sistema de Inovação do Veículo Elétrico no Brasil. “Nosso objetivo é gerar informações estratégicas que possam subsidiar e orientar investimentos em PD&I [Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação], haja vista os vários desafios à consolidação deste mercado no país”, explica Flávia Consoni.