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Tribuna da Imprensa

Na raiz de tudo, a pobreza do conhecimento

Publicado em 21 novembro 2005

Por Pedro Porfírio

"São palavras para serem levadas a sério num país onde se a média de leitura é de 1,8 livros por ano - só para provocar um pouquinho, na Argentina de Borges a média é de 8 livros por ano."

Há algum tempo, venho matutando sobre a mais trágica das pobrezas - a pobreza do conhecimento. Busco entender os desvios na política e sua gênese, através da compreensão desse símbolo de decadência da modernidade.
E estou firmemente convencido de que a pior forma de desfiguração da sociedade democrática é a que subtrai do povo o acesso à informação e ao conhecimento.
Não estou falando sobre a questão da pobreza da educação em si. Essa tragédia decorre exatamente da manipulação do conhecimento. Porque a consciência da realidade e dos direitos, da própria razão de viver, é premissa para se exigir uma política educacional séria, conseqüente e fundada no princípio constitucional de que o ensino é dever do Estado e seu investimento prioritário.

O obscurantismo foi a mais perversa herança dos anos de chumbo. Junto com o regime que vivia à sombra da censura, proliferou um novo tipo de mídia, a eletrônica, que se transformou numa espécie de pandemia cultural.
A televisão é hoje, mais do que nunca, uma ferramenta que causa mais danos à cidadania do que tudo o que existiu antes em matéria de comunicação social.
Ela cresceu sob a égide de um outro veneno, o marketing. Por seus custos e pela ambição dos seus donos, tornou-se uma escrava da audiência. Vai para o ar aquilo que dá Ibope, mesmo que seja um programa de conteúdo primário, mesmo que jogue com o lado imbecil do telespectador, mesmo que deixe passar "fatos consumados" sobre violência, ignorância e injustiças sociais, mesmo que destituído de qualquer compromisso com a formação da cidadania.

Com a TV por assinatura, o caráter colonizador da televisão consolidou-se. Em qualquer um dos sistemas de tevês fechadas há uma sufocante sujeição à produção dos Estados Unidos, de onde saem mais de 90% dos filmes exibidos e a grande maioria dos canais contratados.
Embora estejamos na América Latina, um continente que precisa se conhecer mais, até porque tem destino comum inevitável, você não tem acesso nem às estações da Argentina, Uruguai ou do Paraguai, aqui do lado. Vez por outra, passa um filme de um país latino-americano. E só.

Onde ninguém lê
Mas a cruzada de imbecilização do povo brasileiro se baseia principalmente na mais completa ausência de políticas públicas voltadas para a difusão da leitura. Aí, a situação do Brasil no contexto internacional é vexaminosa.
O obscurantismo conseguiu internalizar nas pessoas o mais trágico desprezo pelo hábito de ler. As gerações se sucedem e cada dia é menor o interesse pelo livro. Cada dia se lê menos, cada dia o livro é menos acessível e mais estranho aos cidadãos.
Os números sobre a leitura em nosso País são de nos deixar arrepiados. Antes da crise dos anos noventa, existiam mais livrarias na cidade do Buenos Aires do que em todo o Brasil. Ainda hoje, em cada quarteirão das ruas Flórida, Santa Fé ou Corrientes, na capital argentina, há de duas a três livrarias. Só nessa área há mais livros do que em toda a cidade do Rio de Janeiro, a nossa capital cultural.

Jefferson Assunção, da "Oficina da Leitura", demonstrou em excelente trabalho a relação entre os índices escolares e o desprezo total pelo incentivo ao hábito de ler, que significa hábito de conhecer com profundidade, de assimilar estilos e de familiarizar-se com nossa própria língua:
"Desde os jesuítas, até agora, a história da educação no Brasil pode ser dividida entre educação para a elite (de qualidade e cara) e educação para os pobres (de baixa qualidade e não para todos).
Os resultados desse processo são enfáticos: há um abismo entre o Brasil e nossos vizinhos tão parecidos em termos de (ou falta de) desenvolvimento econômico. Embora pobres como nós, nos anos 90, por exemplo, segundo o estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), "A situação do trabalho no Brasil" (2002), o Chile baixou sua taxa de analfabetismo de 5% para 4%, a Argentina, de 4% para 3%, e o Uruguai, de 3% para 2%.

O Brasil, no mesmo período, diminuiu seu número de analfabetos de 19% para 15%! Claro que esses índices e outros comparativos podem ajudar a explicar os vergonhosos números brasileiros em se tratando de leitura.
Num recente levantamento, a Associação Nacional de Livrarias afirma que cada brasileiro lê, em média, dois livros anualmente. Uruguaios, chilenos e argentinos lêem mais de quatro livros per capita/ano, conforme afirmou no ano passado o ex-presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Paulo Flávio Ledur. Em países desenvolvidos da Europa, no Canadá e nos Estados Unidos, a média é de 15 a 25 livros por ano.

Segundo o Anuário Editorial Brasileiro, do Grupo Editorial Cone Sul, o Brasil inteiro, onde vivem cerca de 170 milhões de pessoas, tem apenas 2008 livrarias, o que dá, em média, um estabelecimento para cada 84,4 mil brasileiros! Uma única cidade européia, Paris, tem duas mil livrarias".
Esse total de livrarias no Brasil é irreal. Prefiro ficar com a afirmação da diretora da revista da Fapesp, Mariluce Moura, quando diz que hoje existem em todo o país apenas 700 livrarias. Mas vale continuar lendo o professor Jefferson Assunção:
"No Brasil, muitas cidades, inclusive no Rio Grande do Sul, não possuem uma livraria sequer. A Câmara Rio-Grandense do Livro e o Clube dos Editores divulgaram há três meses que 75% das cidades gaúchas não têm pontos de venda de livros. A situação é ainda pior em estados do Norte e Centro-Oeste. Roraima, Tocantins e Amapá têm, cada um, apenas duas livrarias em seus vastos territórios. Na Região Norte do Brasil, há apenas uma livraria para cada 215,3 mil habitantes. Sul e Sudeste estão um pouco melhores. No Sudeste, a média é de uma livraria para cada 64,2 mil pessoas, enquanto que, na Sul, a média é de uma livraria para cada 56,7 mil habitantes".

Ainda tenho muito que falar sobre a pobreza do conhecimento, que está na raiz dessa baixaria política e de nossa indigência social, como observou muito bem o professor Muniz Sodré, agora diretor da Biblioteca Nacional, ao afirmar que "o livro ainda é uma tábua de salvação para as famílias mais pobres no Brasil".