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Correio Popular (Campinas, SP)

Na guerra contra o invisível inimigo

Publicado em 05 abril 2020

Rafaela da Rosa Ribeiro trabalha em Milão: cientista alerta que por enquanto o isolamento social é a única forma de combater a pandemia

A cientista brasileira Rafaela da Rosa Ribeiro faz parte da equipe do Departamento de Ciências Infecciosas e Neurociência do Ospedalle San Rafaelle, em Milão, na Itália, que pesquisa o comportamento do coronavírus. Graduada em Biologia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 2008, Rafaela fez mestrado e doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e há quase um ano foi para a Itália desenvolver seu projeto de pós-doutorado pelo Instituto Israelita Albert Einstein como bolsista da Fapesp. Inicialmente, seu estudo se concentrava no zica vírus, mas sua supervisora na Itália, Elisa Vicenzi, especialista em coronavírus, a convidou para integrar a equipe de pesquisa criada para estudar o novo coronavírus, formada por biólogos, biomédicos e virologistas. Rafaela então se viu no epicentro da pandemia no aspecto da pesquisa e da disseminação.

Em entrevista ao Correio Popular esta semana, via ligação de vídeo pelo aplicativo Whatsapp, a bióloga falou sobre as certezas que a ciência já tem sobre a pandemia que se espalha pelo mundo, entre elas que o isolamento é uma das mais eficientes formas de conter o desconhecido e mutável vírus. Alertou também que ele não é da família dos conhecidos vírus de gripe e nem se trata de uma gripezinha.

“Os sintomas são parecidos com a gripe por acometerem o sistema respiratório, mas são mais perigosos. Nós não sabemos se há outros fatores associados, como uma co-infecção ou alguma bactéria que a pessoa já tenha no sistema respiratório e que o vírus agrava”, afirma a cientista.

A previsão seria retornar em agosto para o Brasil, mas Rafaela recebeu proposta de permanecer na Itália e, depois que tudo isso passar, diz ela, deve ficar somente um mês no Brasil, no segundo semestre, para em seguida voltar à Itália. “Vamos ver como vai estar a situação no mundo.” A família de Rafaela está em isolamento no Brasil. Sua irmã faz as compras de mercado para os pais porque seu pai é diabético e está no grupo de risco. “Eles moram com minha avó, de 94 anos. É muito risco. Fico preocupada, mas falo sempre com eles, estão bem.” A virologista diz ainda que se sente feliz de poder falar sobre sua pesquisa: “Acho que é meu papel poder devolver à sociedade aquilo que eu faço.”

Correio Popular - O que a ciência já concluiu sobre a origem do coronavírus?

Rafaela da Rosa Ribeiro - Esse coronavírus atual nunca existiu na humanidade, mas já conhecíamos a família dele. Sabemos que os morcegos são os maiores reservatórios da família do coronavírus. O SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome), que ocorreu em 2002 e 2003, também é desta família. E veio também de um morcego para um gatinho, e desse animal saltou para o homem. Outro coronavírus é o MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), que ainda circula na região do oriente, saltou do morcego para o camelo, e do camelo para o homem. Sempre tem um animal que faz o transporte de vírus para o humano, como no caso do ebola. Esse coronavírus agora tem relação com o morcego, mas não sabemos se ele saltou do morcego para algum animal intermediário e depois para o homem, ou se veio diretamente do morcego para o homem. Estão investigando um tipo de tatuzinho, do qual usam a escama para fazer porções médicas artesanais na China. Este vírus tem mutações específicas que deram a ele a capacidade de infectar os humanos. Não foi necessariamente por ingestão. Nestes mercados há muita manipulação de animais: cortam a carne, mexem na carne crua, no sangue, urina, fezes, e os animais ficam todos juntos. Para o vírus saltar da urina de um animal para outro animal é muito rápido, tem este potencial. Os vírus mutam, uns com taxa maior e outros menor. Em algum momento uma mutação dessa dá a ele a capacidade de infectar outra espécie.

Qual a diferença entre o vírus de uma gripe e o coronavírus, que tem inicialmente sintomas parecidos?

Coronavírus não é um vírus de uma gripe comum: não há tratamento específico, os sintomas são diferentes e as reações são diferentes nos infectados. As pessoas comparam ele à gripe porque ele ataca o sistema respiratório, mas é um outro vírus. Temos os vírus Influenza, que são da gripe, por exemplo, mas o coronavírus é outra família. Precisamos mapear tudo isso para poder combater. A gripe nós já conhecemos os sintomas, os tratamentos, como ela vem, como prevenir uma parte da população dando a vacina, que já inibe cerca de 50% dos casos. Portanto, para se preparar para períodos de gripe é mais fácil em termos de saúde pública. Já o corona é uma situação instável. Cada país está mostrando um perfil um pouco diferente do outro. A Itália veio com um susto pra todo mundo, agora França, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos e Brasil estão seguindo quase o mesmo caminho. É um panorama que a gente está montando ainda. Estamos tentando entender a diferença dos pacientes, os sintomas e quais os fatores associados para dar a severidade da doença. Pode parecer uma gripe no sentido de que 80% das pessoas vão ter os sintomas brandos, a tosse e a febre, mas vão espalhar, e as pessoas não têm sistema imunológico para este vírus, mas a uma gripe, potencialmente, alguém já foi exposto. Como a gripe, o coronavírus ataca o sistema respiratório, mas também ataca o sistema digestório e pode gerar um quadro de diarreia. Há fatores associados que a gente não sabe exatamente ainda quais são. Por enquanto, as doenças associadas são as cardiovasculares, hipertensão, diabetes, câncer (quem tem ou já teve), problemas respiratórios. Nos tempos atuais é raro encontrar alguém acima de 40 anos que não tenha algum destes problemas.

A pesquisa que você trabalha agora é para compreender o vírus e entender o comportamento dele?

Sim. Nossa pesquisa aqui é em laboratório. Eu uso testes In vitro. Num ambiente adequado, todos com luvas e máscara, em ambiente de vidro, conseguimos infectar células com o novo coronavírus e analisamos várias coisas: receptores, o que o vírus usa pra entrar dentro da célula, quais os mecanismos da célula que ele usa, como ele mata essa célula, como ele causa uma resposta inflamatória, que tipo de inflamação. Estamos tentando investigar. Tem muita coisa ainda para ver. Estamos tentando entender um pouco melhor esse cenário, vários grupos do mundo.

Por que o vírus tem vitimado mais idosos? É pela fragilidade da saúde ou há outra explicação pra isso?

A gente ainda não sabe os outros fatores que dão agressividade ao corona. A letalidade é muito alta em idosos porque eles já são mais debilitados, o sistema imunológico é mais frágil, a chance de o corpo reagir é menor. Mas temos casos aqui na Itália de pessoas muito novas, que precisam de atendimento médico por bom período. Antes de começar o boom de casos, a primeira pessoa nova a ser infectada foi um homem de 38 anos. Ele ficou um mês no hospital e faz poucos dias que ele saiu, ficou na Unidade de Terapia Intensiva entubado. Tinha histórico de saúde muito bom. Estamos mapeando outros fatores que levam este vírus a produzir sintomas tão diferentes, em diferentes pessoas. Precisamos de mais estudos. Por isso é importante também focar naquilo que a gente já sabe, que é a forma de prevenção contra este vírus: o isolamento social. Está mais que provado: nos países onde aconteceu muito cedo a decisão de isolamento, ele não se expandiu. Independente dos outros fatores que conhecemos, é muito arriscado pagar pra ver. A ciência fala hoje, e a ONU (Organização das Nações Unidas) fala também, que é muito importante o isolamento social.

O que poderia ter sido feito na Itália pra minimizar a situação?

Acho que a Itália foi pega de surpresa. Fora a Itália, só tínhamos o exemplo do Oriente. A China fechou bem fechado o epicentro da doença. Não fechou o país inteiro, mas a região onde tudo começou. Conseguiu controlar e não espalhar. Na Itália, não se sabia que estava tendo uma transmissão comunitária tão grande. Não se pensava que pessoas com sintomas brandos, como tosse, pudessem estar infectadas. Os sintomas brandos são perigosos, porque as pessoas espalham isso. Não se sabe a porcentagem de assintomáticos que é responsável por espalhar esse vírus, mas uma simulação indica 80%. Na Itália, quando chegaram os casos, chegaram todos juntos. Já tinha muita gente infectada, pessoas que estavam desenvolvendo sintomas mais severos, e aí sobrecarregou o sistema de saúde, especialmente no Norte.

No Brasil, qual sua opinião sobre retomar as aulas nas escolas, como sugere o presidente?

O que está bem comprovado até agora é que a redução da circulação de pessoas e o ato de lavar as mãos e cobrir o rosto quando espirrar são as únicas medidas de profilaxia. Questões ambientais estão sendo estudadas. Trabalhos mostram que realmente o vírus se espalha menos em países que têm temperatura acima de 18 a 20 graus. Se espalha menos no sentido de velocidade, mas ele se espalha. Mas não se sabe se é devido à temperatura, à umidade, ou devido ao comportamento humano, já que no inverno as coisas são mais fechadas e no verão as coisas são mais abertas. Independente disso, sabemos que uma pessoa infectada perto de outra pessoa não infectada transmite o vírus. Portanto, o isolamento tem se mostrado eficiente. A Coréia do Sul, por exemplo, foi rápida em fechar e lá houve pouquíssimos casos graves. As crianças têm taxa de letalidade baixíssima, mas elas pegam o vírus. Assim, podem passar para outra criança, isso vai para casa, para avó, o avô, mãe, pai. Por isso os cientistas pedem para as pessoas ficarem em casa. Acho arriscado pagar pra ver. O Reino Unido voltou atrás. Eles tinham uma proposta de deixar as pessoas circularem e fazer imunização comunitária: todos pegarem e criar imunidade. Estavam com esta ideia meio maluca. Mas fizeram as contas, viram que o sistema de saúde não daria e mudaram a estratégia.

As medidas do governo federal, no Brasil, têm sido conflituosas com as medidas dos estados. Como você avalia isso?

Minha opinião é realmente fechar tudo que não seja essencial. Dentro do que é essencial, que se faça um revezamento de funcionários. É importante não haver aglomerações. Aqui onde trabalho começamos o revezamento. Não acredito muito no uso de máscara, as pessoas não sabem usá-la. Vão infectar a máscara e depois ficar colocando a mão no olho. A medida principal é fazer o que o mundo está fazendo e o que a ONU está recomendando: afastamento social, manter distância entre as pessoas de pelo menos um metro no convívio, lavar as mãos e não se tocar (olho, boca, nariz), se espirrar, proteger. Só que isso implica numa decisão política, de saber as prioridades do país no momento. Acho muito arriscado não aderir ao isolamento social nem à diminuição na produtividade.

Quais os centros de pesquisa que estão focados nisso agora?

Praticamente todos no mundo, especialmente os mais famosos: NIH (National Institutes of Health), Oxford, Cambridge. Todos eles estão com algum projeto, alguma coisa. No Brasil, a Fapesp abriu um edital para todos os pesquisadores, inclusive os que tenham outros projetos. Se quiserem escrever um projeto relacionado ao corona, eles vão analisar e aprovar em tempo recorde. Há no Brasil grupos de pesquisa muito bons, tanto sobre drogas (medicamentos) e vacina, como para analisar simulações a fim de entender melhor o cenário. Na última segunda (31/3), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Brasil, incluiu o primeiro paciente no ensaio clínico Solidarity, lançado pela OMS, que vai ser implementado em 12 estados, ao todo 18 hospitais. Isso é muito importante. Vamos acompanhar os resultados.

O mundo da pesquisa está focado nisso. Alguém já conseguiu chegar a alguma contribuição?

Em termos de droga, tem várias que estão sendo testadas. Drogas usadas para o HIV, para hepatite, por exemplo. Tem um trabalho publicado que mostra várias drogas que já foram aprovadas e estão sendo usadas nos pacientes. O pessoal está dando a quem está precisando de atendimento. Mas isso é uma questão médica, de salvar a pessoa, tentar aquilo que tem na mão. Para a ciência é complicado. Para você dizer que uma droga combate de fato uma doença, tem que testar ela em algumas condições. Em grupo cego, por exemplo: nem paciente e nem médico sabem pra quem está sendo dada a droga. Isso evita erros humanos, porque afinal as pessoas têm atos falhos. Eu vi que tem a hidroxicloroquina. Mas aqui nem falam sobre esta droga. Eu mostrei para o meu grupo de pesquisa porque sei que está sendo falado aí no Brasil, mas aqui não se fala, nem sabiam. Acho que os hospitais paulistas vão fazer testes clínicos para esta droga. Vamos ver o que vai acontecer, porque por enquanto os trabalhos relacionados a esta droga são muito ruins. No geral, sobre coronavírus, existem muitas coisas ainda para serem entendidas.

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