Notícia

Jornal da Tarde

Na cocaína, o rastro dos traficantes

Publicado em 14 julho 2002

Por LUIZ GUEDES JR. - Jornal da Tarde
As apreensões de cocaína realizadas na Grande São Paulo têm um novo significado para a polícia. Um grama de cada amostra da droga interceptada está sendo destinado a uma pesquisa realizada pelo Instituto de Criminalística (IC) que, por meio do estudo do grau de pureza dos entorpecentes, identifica a área de atuação e o itinerário das principais quadrilhas. "Analisamos cerca de 300 amostras até o momento, e os resultados parciais tabularam os primeiros gráficos que ilustram a rota do tráfico na capital", comemora o diretor dos laboratórios do IC Oswaldo Negrini Neto, um dos coordenadores do projeto. Ele acredita, no entanto, que a pesquisa estará completa apenas após o IC atingir a marca de mil amostras analisadas. "É importante destacar que esse projeto é permanente e tende a se aprimorar cada vez mais." De acordo com Negrini, cada quadrilha possui uma fórmula própria para misturar a cocaína pura com outras substâncias químicas, o que possibilita a identificação de vários grupos do tráfico. "Mas não adianta analisar apenas a pureza das drogas interceptadas. Para estabelecer elementos relevantes às investigações, é preciso associar esse dado aos locais das apreensões e aos tipos de quadrilhas que manipularam o material", ressalta. A pesquisa revelou ainda que 83% da cocaína que chega ao viciado é adulterada. Em geral, as amostras examinadas pela toxicologia do instituto indicam a lidocaína (anestésico conhecido popularmente como xilocaína) e a cafeína (estimulante) como principais substâncias utilizadas para a adulteração. "A lidocaína e a cafeína equilibram o efeito da cocaína. O problema é quando encontramos elementos nocivos à saúde, sais insolúveis que não são digeridos e provocam lesões no organismo", alerta Negrini. MAPEAMENTO REVELADOR Mesmo tendo sido desenvolvido com os resultados parciais do projeto, o primeiro mapeamento do tráfico na Capital já revelou importantes dados para a polícia. O mapa acima mostra como a droga, de acordo com o seu grau de adulteração, está dividida na cidade de São Paulo. Outros gráficos, mais detalhados, registram apreensões de amostras de cocaína com fórmulas idênticas em diferentes áreas, o que permite à polícia traçar a rota do entorpecente numa determinada região. Segundo Negrini, a projeção desses dados possibilita à polícia identificar os diversos locais de atuação de uma quadrilha. "A identificação de drogas apreendidas em diferentes áreas com as mesmas características permitem duas conclusões: ou a mesma quadrilha atua nas diversas áreas ou os distribuidores possuem algum tipo de vínculo. Além disso, o mapa é o melhor referencial para desenvolver o policiamento preventivo para cada tipo de tráfico identificado." É possível verificar, por exemplo, que as apreensões de amostras com mais de 80% de cocaína (destacadas na cor azul no mapa) concentram-se especificamente na zona norte da cidade. "A região conta com um aeroporto internacional e com rodovias que dão acesso a todos os Estados do norte do Brasil, sendo a principal porta de entrada da droga em São Paulo", observa Negrini. "Não por coincidência é também a área onde encontramos as amostras com porcentagens próximas de zero (em vermelho no mapa). Nesses casos, trata-se das substâncias que serão misturadas à cocaína, e não de um produto que visa o viciado." Já nas regiões periféricas, são comuns as apreensões de amostras que registram de 10% a 25% de cocaína (que aparece em amarelo no mapa). Para Negrini, esse fenômeno é facilmente explicável: "São as áreas mais pobres da cidade, por isso a porcentagem da droga em sua forma pura é pequena. O grama da cocaína é cotado internacionalmente junto com o grama do ouro. O viciado de menor poder aquisitivo não acompanha o preço de mercado, principalmente com as constantes altas do dólar. Então, para segurar o freguês, o traficante é obrigado a exagerar na mistura." Nas outras regiões, que englobam os bairros das classes média e alta (destacadas em verde e branco no mapa), concentra-se a chamada "mistura tradicional da cocaína", com porcentagens que vão de 25% a 40% de pureza. COMPRA DE NOVOS EQUIPAMENTOS A pesquisa que desvenda a composição da cocaína tem gerado tamanho entusiasmo que o governo do Estado autorizou uma verba de aproximadamente R$ 600 mil para que o que IC adquirisse 10 novos cromatógrafos (que identificam a presença e a quantidade da droga em qualquer material). Quatro desses aparelhos permanecerão no laboratório central do instituto (sendo que um deles está calibrado para identificar a composição química de explosivos), enquanto os seis restantes vão equipar as delegacias que mais enfrentam problemas com o tráfico na Grande São Paulo. "As máquinas mais modernas tornaram o projeto mais ágil. Agora somos capazes de verificar no ato a presença da cocaína, enquanto o grau de pureza da droga é obtido em menos de 25 minutos. Com os aparelhos antigos, esse processo chegava a demorar até duas horas", afirma o diretor dos laboratórios do IC. Parte das pesquisas também são realizadas no Ipen (Instituto de Pesquisa Energética e Nuclear), órgão conveniado ao IC, que conta ainda com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). "Nessa fase inicial, estabelecemos a cocaína como principal objeto de estudo. Mas já iniciamos as pesquisas sobre as outras drogas", diz Negrini. "No caso da maconha", garante o diretor do IC, "é possível localizar até a região onde a droga foi plantada." PESQUISA DO IC VAI AJUDAR AÇÃO DO DENARC Nenhuma outra divisão da polícia irá se beneficiar tanto com a pesquisa que estuda o grau de pureza dos entorpecentes quanto o Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc). Não por acaso, seu atual diretor, o delegado Ivaney Cayres de Souza, foi também um dos idealizadores do projeto. "A idéia nasceu de uma conversa que tive com o Negrini (diretor dos laboratórios do Instituto de Criminalística, órgão da Polícia Técnico-Científica onde as pesquisas são realizadas), em 1998, quando eu ainda era delegado divisionário do Denarc", conta o delegado. A princípio, o objetivo era o de estabelecer um maior controle sobre o "teor de qualidade" das drogas: "Mas, depois, percebemos que a apreensão de drogas com a mesma composição poderia nos indicar o fluxo dos fornecedores." De acordo com Souza, ainda é cedo para afirmar de que forma a pesquisa vai influenciar na ação da polícia, embora alguns resultados parciais já tenham proporcionado informações valiosas. "Conseguimos identificar uma área da cidade (mantida em sigilo para não atrapalhar as investigações) onde atuam os fornecedores primários. Isso foi possível porque a pesquisa revelou que nessa região concentram-se as únicas apreensões de cocaína pura", afirma o diretor do Denarc. "A pesquisa pode colaborar muito com as investigações do departamento, mas é necessário analisar cada resultado do trabalho científico, que caminha no campo hipotético, e interpretar para a visão policial." Todas as informações geradas pelos estudos laboratoriais são repassadas para a Divisão de Inteligência do Denarc, que processa esses dados com o objetivo de estabelecer relações com as linhas de investigações. "O trabalho é bastante técnico e tem ajudado a identificar alvos específicos. Ê importante conhecer o tipo de tráfico de uma área para tratá-la de forma diferenciada das demais", aponta Souza. ESTUDO REVELA OS NEGÓCIOS DO TRÁFICO Para o diretor do Denarc, a pesquisa ajuda ainda a polícia a enxergar a "visão empresarial" do tráfico. "O microtraficante faz todas "is misturas possíveis e imagináveis para ganhar no peso e reduzir o custo da droga. Por isso sabemos que, ao apreendermos amostras com um grau de pureza maior, estamos interceptando uma quadrilha que está mais próxima dos distribuidores primários. Quanto menor o traficante, maior a probabilidade de a droga estar batizada." Outro ponto destacado por Souza é a possibilidade que a polícia tem agora de analisar o ciclo das drogas: "O grau de pureza dos entorpecentes permite fazer uma leitura sazonal do tráfico, identificando mudanças de distribuidores e, conseqüentemente, da região de origem da droga. É importante conhecer o mês da entressafra, pois permite traçar um planejamento estratégico de combate às áreas de plantações."