Notícia

Gazeta Mercantil

Na ciência aplicada, País derrapa feio

Publicado em 09 julho 2008

Por Leonardo Trevisan

A notícia de que a produção científica brasileira, medida em número de artigos publicados em revistas internacionais, avançou 133% entre 1997 e 2007, crescimento inferior só ao da China, pode gerar ímpetos de comemorações. É melhor ir devagar. Por esse critério, o Brasil publicou 26.369 textos no ano passado. Parece espetacular, mas não é: os EUA, óbvio topo da lista, publicaram 344.375 artigos. E a China, segundo lugar, 180.970. Alemanha, Japão e Inglaterra estão na faixa das cem mil publicações. Nossos concorrentes diretos, tipo Espanha ou Coréia do Sul, conquistaram quase o dobro dos artigos do Brasil. Esses números revelam só aspectos quantitativos, sem vínculo de análise com o potencial multiplicador desses papers, o que significa emprego e renda gerados a partir da pesquisa publicada. Aliás, até mesmo no quantitativo, o Brasil não foi bem: no ano passado emplacou menos textos do que em 2006, quando publicou 26.661 artigos. Sem contar, como mostrou a Folha de S.Paulo (4/7), a grande concentração em certas áreas: 20% desses artigos foram em medicina. O restante da produção de "papers" concentrou-se em ciências biológicas, bioquímica, genética, biologia molecular, física e astronomia, óbvio predomínio em investigações em ciência pura, não aplicada. A única área que destoou dessa tendência foi agricultura. Se na produção de "papers" o País avançou, apesar dos solavancos, na aplicação de conhecimento derrapou feio. O número de patentes registradas pelo Brasil no Departamento de Comércio dos EUA ( o USPTO) despencou 13% entre 2005 e 2007. O Brasil também caiu no número de pedidos de patentes do relatório de 2007 da Organização Mundial de Propriedade Industrial, de Genebra, com redução de 5,4%, isto é 280 pedidos em 2005, e 265 em 2006. A Coréia avançou 26%, de 4.688 para 5.935 pedidos, enquanto a China saltou 56% na mesma comparação. Reclamar, por outro lado, que o Brasil produz muito papel e pouca pesquisa é só repetir o conhecido. Pesquisa aplicada significa novos processos industriais e novos produtos, o melhor sinônimo para competitividade e conquista de mercado. Agora, esperar que a universidade mude e passe a investir, como num passe de mágica, esforços e dinheiro em ciência aplicada é ingenuidade. Aliás, esse fato é mundial: custo de pesquisa acadêmica é sustentado pelo estado, inclusive nos EUA. Porém, no mundo desenvolvido, a empresa investe pesado em ciência aplicada. No Brasil, ao contrário, o envolvimento da empresa com o esforço de pesquisa e desenvolvimento (P&D) é baixo. Estudo do IBGE, chamado Pesquisa de Inovação Técnica (coordenado por Mariana Rebouças), divulgado em agosto de 2007, mostrou que apenas 2,8% do faturamento líquido do setor industrial eram destinados à inovação, um pouco menos da metade dos 5,1% alocados para esse fim pelas indústrias alemãs. Resultado: a parcela das empresas que inovam alcançou 35,6% do setor industrial brasileiro, enquanto na Alemanha esse índice foi de 73,6%. A saída para esse atraso brasileiro é fazer a universidade e a empresa conversarem no laboratório comum. Quem acha isso impossível deveria conhecer a pesquisa Mobilização Brasileira para a Inovação (Mobit), que comparou políticas industriais e de inovação de sete países industrializados, dos EUA até a Finlândia. O que se discute nesses países é a relevância da pauta de pesquisa e não a autonomia universitária, que é intocável. Um bom resumo desse estudo está na Revista Fapesp, edição de maio, com a diretoria científica da fundação de amparo à pesquisa discutindo como é possível "respeitar os diferentes papéis que as instituições devem ter num sistema de inovação". Por enquanto, no Brasil, empresa e universidade continuam desconfiadas uma da outra e gente muito boa em pesquisa continua escrevendo só paper. É uma pena.