Notícia

Observatório da Imprensa

Na briga pela ciência

Publicado em 23 julho 2013

Por Fabrício Marques

Helena Bonciani Nader, professora titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foi reeleita em junho presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a entidade mais representativa da comunidade científica do país, com cerca de 110 sociedades associadas e mais de 4 mil sócios ativos.

Depois de cumprir dois mandatos como vice-presidente e um como presidente, seguirá à frente da entidade até julho de 2015. Nos últimos anos, Nader foi uma voz importante na articulação de campanhas bem-sucedidas, como a que conseguiu derrubar um dispositivo da lei da carreira docente nas universidades federais que extinguia a exigência do título de doutor em concursos, e outras ainda não concluídas, como a que briga pela destinação de parte dos royalties do petróleo para a ciência e por mais recursos para a ciência e tecnologia.

Na entrevista a seguir, Nader, que também é coordenadora de área de biologia da FAPESP e professora honorária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, faz um balanço de sua carreira e de seu trabalho na SBPC, e fala dos planos da entidade.

Quais são os principais desafios da ciência brasileira na visão da SBPC?

Helena Nader – O Brasil está atravessando uma fase nova para a educação e para a ciência, uma fase de maior demanda e demanda qualificada. Na época em que a SBPC foi criada, 65 anos atrás, a ciência brasileira era muito pequena, restrita a algumas áreas do saber e a alguns pontos do país. Hoje a ciência está espalhada pelo Brasil e eu vejo isso como uma vitória de toda a comunidade científica. O panorama é muito bom, mas precisa de investimentos. Por isso lutamos por mais recursos para a ciência. Melhoraram os investimentos, mas estão aquém do necessário. A iniciativa privada investe, mas ainda aquém do que investe, por exemplo, o empresariado na China ou na Coreia.

E persiste uma assimetria entre os estados brasileiros?

H.N. – Tem diferenças. Aqui em São Paulo o panorama é um. O Rio de Janeiro também tem um panorama extremamente favorável. Minas Gerais agora está investindo proporcionalmente mais do que o Rio. Tenho um orgulho muito grande porque o Estado de São Paulo tem um papel muito importante no cenário científico brasileiro. Nós saímos na frente. A Constituição estadual de 1947 previu a criação de uma fundação de amparo à pesquisa, que cresceu com a confiança da comunidade científica e, importante, da comunidade política. A FAPESP conseguiu impor-se no cenário político, isso foi fundamental. E quando se faz a nova Constituição brasileira, em 1988, se coloca que todos os estados deveriam ter fundações e apoiar a ciência, a pesquisa e a tecnologia. A nossa FAPESP foi fundamental.

Recentemente, a SBPC liderou a campanha para reverter alguns dispositivos da lei da carreira docente das universidades federais. O resultado foi satisfatório?

H.N. – Quando vimos o projeto de lei, mandamos um documento assinado por mim e pelo Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências, em que colocamos claramente os prejuízos, mas infelizmente não fomos ouvidos. A lei foi aprovada no dia 28 de dezembro. Depois da aprovação, a SBPC foi, tenho orgulho de dizer, a peça-chave na medida provisória da presidente Dilma, voltando a exigir título de doutor para ser professor de universidade federal, porque isso tinha acabado. É um absurdo. O país tem uma pós-graduação que está sendo copiada lá fora e de repente faz-se uma lei que diz: olha, quer ser professor na federal, basta ter graduação. Foi revertido. Mas há um ponto importante que ainda não foi revertido: é preciso tornar a nova lei compatível com a Lei de Inovação, possibilitando ao professor com dedicação exclusiva desenvolver projeto em empresa, desde que sem prejuízo das atividades de ensino. Nas universidades públicas paulistas o professor em dedicação exclusiva pode destinar um dia por semana a esse tipo de trabalho.

Duas bandeiras de sua gestão foram a reação ao corte de orçamento em 2012 e os royalties do petróleo...

H.N. – Nós temos hoje uma parceria com a Academia Brasileira de Ciências. Somos complementares. Com isso você tem a representatividade de toda a comunidade científica. Na visão de alguns, a academia é restrita… nós acadêmicos estamos lá no trono e lá embaixo tem a massa, o que não é real. A academia representa a elite e, no Brasil, elite é uma palavra gasta. Mas a SBPC representa todas as sociedades científicas. São 110 sociedades científicas. Quando um documento é assinado pelo Jacob Palis e por mim, tem um peso importante. Uma bandeira que assumimos foi a recomposição do orçamento depois do corte em 2012. E este ano a presidente Dilma, palavras ditas pelo ministro Marco Antonio Raupp, disse que não se pode contingenciar o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação [MCTI], assim como o da Educação. A gente conseguiu mostrar para os dirigentes a importância da ciência e da educação.

Da Revista Pesquisa FAPESP

Reproduzido da Agência Fapesp, 19/7/2013; título original "Helena Nader briga pela ciência"