Notícia

Correio da Paraíba

Mutações da fome

Publicado em 05 agosto 2007

Desnutrição nos primeiros anos de vida causa hipertensão

São Paulo (Pesquisa Fapesp) - Com um 1 ano e 3 meses, Lia mal conseguia manter-se sentada enquanto a maior parte das crianças da mesma idade já começa a andar. O motivo do atraso no desenvolvimento era a carência de nutrientes desde a gestação, que, além de ser a principal causa de mortalidade infantil nos países em desenvolvimento, pode causar danos permanentes à saúde. Após quase duas décadas em que investiga os efeitos da desnutrição infantil, a bióloga Ana Lydia Sawaya, do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), hoje consegue explicar por que a alimentação insuficiente tem efeitos duradouros e produz adultos obesos, diabéticos e com problemas cardiovasculares. E, mais do que destrinchar a fisiologia da desnutrição, ela investiu em recuperar crianças como Lia e mostrou que tratá-las até os 6 anos de idade pode evitar boa parte desses problemas.

Lia mora numa favela da Zona Sul da cidade de São Paulo, onde Ana Lydia faz boa parte de sua pesquisa. Ela escolheu trabalhar com essa população não só porque é a que mais sofre as conseqüências da pobreza. "São pessoas excluídas, fora do mercado de trabalho e do alcance das políticas públicas que poderiam ajudá-las", explica. Ao investigar a saúde de habitantes de favelas em São Paulo e em Maceió, onde cerca de 50% da população vive em situação de miséria, o grupo de Ana Lydia verificou que adolescentes desnutridos durante a infância apresentam taxas de obesidade e hipertensão muito mais altas do que o resto da sociedade brasileira, e maior risco de desenvolver diabetes quando adultos.

Deficiências

A desnutrição no início da infância provoca ainda deficiências no metabolismo do açúcar, comandado pelo hormônio insulina cuja carência é a principal causa do diabetes — doença que em 2000 atingia quase 5 milhões de adultos no Brasil, proporção que deve subir para mais de 11 milhões até 2030.

Em artigo publicado em 2006 no British Journal of Nutrition, Ana Lydia e sua ex-aluna Paula Martins, agora professora no campus da Unifesp na Baixada Santista, mostraram que a produção de insulina é deficiente em crianças que sofreram de desnutrição no início da vida.

Isso ocorre porque a escassez de alimento nas primeiras fases do crescimento leva o organismo a produzir menos células beta no pâncreas, que fabricam a insulina. Para compensar, o organismo dessas crianças é mais sensível à pouca insulina produzida. Em famílias pobres que consomem uma dieta moderna carregada de açúcar esse desequilíbrio fica ainda mais sério.

Elasticidade dos vasos

O grupo da Unifesp descobriu que a alteração na pressão arterial surge por causa de lesões que reduzem a elasticidade dos vasos sangüíneos e da má-formação dos rins. Maria do Carmo Franco, bióloga especializada em hipertensão que integra a equipe de Ana Lydia, é uma das responsáveis por explicar o que acontece nas veias e artérias.

Ela mergulhou a fundo no vínculo entre desnutrição e metabolismo. Examinou crianças entre 10 e 13 anos que já nasceram com baixo peso, indício de desnutrição intra-uterina, e viu que nessas crianças o colesterol do tipo LDL — que integra a membrana das células — reage mais do que deveria com radicais livres, moléculas de oxigênio altamente reativas.

É o que se chama de estresse oxidativo, que dá origem a espécies ainda mais reativas de oxigênio que por sua vez danificam as células que revestem os vasos sangüíneos: um passo para desenvolver placas de gordura que alteram a pressão sangüínea e reduz a elasticidade dos vasos, como sugerem resultados publicados este ano na revista Pediatric Research.

Constituição dos órgãos

Vasos sangüíneos danificados, com menos capacidade de se expandir para a passagem do sangue, são apenas parte do problema. A dificuldade maior parece estar na constituição dos rins, órgãos com a função de depurar o sangue de toxinas. A má nutrição do feto pode levar a uma formação inadequada dos rins, que acabam por conter menos unidades funcionais — os néfrons — do que o normal. A equipe de Ana Lydia usa formas indiretas — como a medição do teor de toxinas no sangue — para avaliar o número de néfrons. "O ideal seria uma biópsia, mas não vou tirar um pedaço do rim de uma criança que já está debilitada", conta.