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Gazeta do Povo

Mutação favorece o tumor de próstata

Publicado em 03 novembro 2001

Por Rafael Garcia
A doença é a segunda mais freqüente entre os homens no Brasil São Paulo, (AF) - A MUTAÇÃO EM UMA única base nitrogenada - as letras químicas do código genético - entre as mais de 3 bilhões do genoma humano pode multiplicar por 2,5 as chances de um homem desenvolver câncer de próstata. A descoberta de um grupo de pesquisadores brasileiros pode servir no futuro para um teste que indique o risco da doença em cada pessoa. A base nitrogenada em questão tem até endereço. Está no nucleotídeo número 4.349 do gene COL18A1, no cromossomo 21. Normalmente, a base é composta peja substância guanina (G), usadas quatro letras possíveis em fada nucleotídeo, ou posição. Os cientistas identificaram, entretanto, que algumas pessoas apresentam em seu lugar a base adenina (A). Quando isso ocorre, o organismo produz versão defeituosa da endostatina, proteína responsável por coibir a formação de novos vasos sangüíneos que alimentam os tumores. A mutação está presente em 12% da população normal e em 25% dos pacientes com câncer de próstata, afirma a pesquisadora Maria Rita Passos-Bueno, do Instituto de Biociências da USP, coordenadora do estudo. "É importante dizer que essa mutação não é a causa o câncer. É um dos fatores de risco", diz. Isso, porém, não reduz a importância da descoberta. O câncer de próstata é o segundo mais freqüente entre homens no Brasil, perdendo apenas para os tumores de pele não-melanomas. A cada ano, são registrados cerca de 20 mil casos. Em 1998, a doença matou 7.140 pacientes no país. Uma das razões para um índice de mortalidade tão alto é que, em grande parte das vezes, a doença é diagnosticada tardiamente. Saber de antemão quais pessoas têm mais propensão a desenvolver o tumor seria uma ferramenta importante de saúde pública. Quando os pesquisadores brasileiros acharam a mutação no gene C0L18A1, na verdade estavam estudando outra doença, a síndrome de Nobloch, mal hereditário raro que causa problemas graves de visão. Procurando o defeito genético relacionado com a doença, os pesquisadores se depararam com a letra trocada que adultera a produção da endostatina. O estudo de Passos-Bueno analisou amostras de DNA de 180 pacientes com câncer de próstata e as comparou com informações do banco de dados do Projeto Genoma Humano. O trabalho foi feito em cooperação com o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, além da Faculdade de Medicina e do Instituto de Química de São Carlos, ambos da Universidade de São Paulo (USP). A descoberta, que já ganhou desdobramentos, saiu na capa da revista Câncer Research (cancerres. Aacrjournals.org), da Associação Americana de Pesquisa sobre o Câncer. Também é capa da revista Pesquisa Fapesp, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Em breve, o Instituto de Biociências deve começar a analisar amostras de DNA de outros pacientes, para descobrir se a mutação também poderia influir na incidência de câncer no fígado e no estômago. A mutação descoberta pela equipe de Passos-Bueno tem relação com a angiogênese, a formação de novos vasos sangüíneos que alimenta o crescimento de tumores. Esse processo é um dos principais alvos na pesquisa de novas drogas contra a doença. Cientistas já estão tentando criar remédios com base na endostatina para inibir a expansão dos vasos e matar de fome os tumores.