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Museus preservam história e identidade de Campinas

Publicado em 18 dezembro 2018

Por Mariana Luiza, Pedro Benvenuti, Vinicius Abarca e Vitor Nunes

Normalmente, quando é falado sobre museu no estado de São Paulo, os mais conhecidos são os que ficam na capital, sendo eles o Museu do Ipiranga, Museu da Língua Portuguesa e o Museu de Arte de São Paulo. Os dois primeiros são inclusive destinos adorados pelos professores do ensino fundamental, época da escola que há mais preocupação em levar crianças para esse tipo de passeio, para criar vínculo. E essa é a chave para fazer com que as pessoas se importem em conhecer essas instituições e a própria história, segundo o chefe do Museu de Imagem e do Som, Alexandre Sônego, que diz que “não se ama aquilo que não se conhece”.

Porém, apesar da escola ser o ambiente ideal para que esse vínculo seja estabelecido, a família também tem responsabilidade em fazer passeios com seus filhos para que eles possam aprender e conhecer sobre os museus, assim o laço entre a instituição com a população fica mais estreito. “Essa construção [de vínculo] é uma necessidade da instituição, mas não é um ato que se constrói através do gestor da instituição e sim da própria pessoa”, diz Sônego. O vínculo para com qualquer coisa seja para conhecer museus, entender novas narrativas pensar história, é algo que tem que partir da pessoa, pois o grande responsável deve ser o amor e não a força.

Outro fato apontado pelo chefe do MIS – Campinas é a naturalização do olhar para com o mundo como ferramenta da falta de interesse e vínculo entre a sociedade e museus. Ele conta que “o olhar se naturalizou tanto que não há a percepção de arquitetura, não se percebe os prédios antigos ou a desigualdade social, o olhar humano foi tornando tão corriqueiro que já não faz diferença”.

Além disso, a imprensa também carrega uma culpa. Alexandre Sônego relata que muitas vezes o museu foi procurado para que fosse feita uma comparação com o que está errado em relação às coisas que já deram errado em outros lugares. Para ele, a imprensa vive de notícias novas e em grande maioria da catástrofe.O Museu Nacional, instalado do Rio de Janeiro, pegou fogo no começo de setembro de 2018 e comoveu pessoas no mundo todo. “Apesar de ter ocorrido a comoção foi possível notar que algumas pessoas agiram com descaso para com o incêndio”, diz Alexandre, para quem as pessoas poderiam ter ficado frustradas, por não terem conhecido o museu e o acervo. Além disso, a relação museu e população também conta. “Claro que algumas pessoas desconheciam a grandiosidade que aquela instituição tinha, mas teve comoção sim, não vejo outras situações relacionadas à cultura tendo uma mobilização dessa forma”.

É importante ressaltar que alguns museus da capital ou até mesmo os de Campinas, fazem exposições fora de suas instalações, como foi o caso do Museu de Ciências Catavento, que fez uma amostra no Shopping D. Pedro, instalada na alameda em frente às lojas, era interativa e guiada. A exposição contava com o gerador de ernergia Van de Graff, simulador de peso corporal no espaço, bicicleta geradora de energia e permitia fazer um percurso da balada para casa com óculos que simulava embriaguez. A exposição tinha como público-alvo adolescentes, mas não foi restringida a entrada de crianças. Também existem eventos anuais como o Primavera dos Museus que é uma iniciativa adotada pelo Governo Federal em parceria com o Instituto Brasileiros de Museus, vinculado ao Ministério da Cultura, com duração de quatro dias e uma programação variada. Esse ano, a edição de Campinas teve em suas atividades uma caminhada histórica pelo centro da cidade, sarau de poesia, oficina de artes e palestras. A programação é gratuita e divulgada pelo site da Prefeitura de Campinas.

A oficina de autorretrato foi ministrada por Silvia Matos, a artista quando questionada do porque a sociedade brasileira não valorizar artes e museus, respondeu acreditar que a maioria não tem instruções na escola. “Na Europa as escolas levam as crianças para exposições e ficam desenhando copiando os trabalhos dos artistas. Aqui poucas crianças são levadas para museus pelas escolas. Então é uma questão de não ser valorizado, as pessoas acham que é passatempo”.

A Secretaria de Educação Municipal informou haver 30 escolas municipais que fazem parte do programa Museu vai à Escola, realizado com o apoio da Faculdade de História da PUC-Campinas. O projeto é uma troca, pois a Universidade fornece cursos de formação para os professores municipais que promovem oficinas nas escolas e o programa busca discutir a importância dos museus com os alunos. A parceria segundo à Secretaria Municipal de Educação está em fase de renovação.

Museu da Imagem e do Som

O Museu da Imagem e do Som, também conhecido como MIS, foi fundado em 1975, com entrada gratuita. Foi idealizado por cineastas, fotógrafos e cineclubistas da região, para difundir e preservar a história de Campinas por meio da imagem. Em um primeiro momento, foi instalado no Subsolo do Palácio dos Jequitibás, onde ficou por um ano.

Em 1976, o museu se dividiu em duas partes: o cinema foi para o Cine Teatro Castro Mendes e as fotos e imagens televisivos para o Centro de Convivência Cultural de Campinas, onde permaneceu até 1991, e em 1996 foi instalado no Palácio dos Azulejos, lugar em que permanece até hoje. O MIS preserva a sua essência de reunir e preservar a memória audiovisual de Campinas e região. O acervo revela a evolução tecnológica para gravação e edição de imagem e som. Com as exposições de vários modelos de aparelhos de televisão, rádios e gravadores. Os painéis de fotos contam a história de Campinas e de seus personagens.

Mas para além desse acervo, o MIS oferece exposição de cinema com temas variados em cada mês. A programação pode ser conferida na página do facebook do museu https://www.facebook.com/campinasMIS/. As seções de cinema são gratuitas e após o filme acontece um debate sobre as opiniões dos visitantes, já que a proposta é tornar o ambiente propicio para vários modos de ver e perceber o filme.

O MIS está localizado na Rua Regente Feijó, 859 – Centro, Campinas – SP, 13013-051 funciona de Terça a Sábado, das 10h às 12h, 14h às 20h.

Museu de Arte Contemporânea de Campinas

Fundado em 1º de setembro de 1965, o Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC) representa uma antiga reivindicação de intelectuais e artistas plásticos da cidade. O local funcionava, inicialmente, em um prédio que pertencia à Companhia Paulista de Forca e Luz, na Avenida da Saudade, e o museu foi transferido, em 1976, para o edifício atual, localizado na avenida Benjamin Constant, no centro da cidade.

Hoje, o MACC é uma instituição pública municipal, subordinada à Secretaria da Cultura, Esporte e Lazer, com a finalidade de reunir, documentar, estudar, conservar, expor e divulgar a arte.

O museu conta com um acervo de aproximadamente 660 obras – entre pinturas, instalações, desenhos, esculturas e gravuras – formado por doações e aquisições feitas em salões e prêmios atribuídos pela Prefeitura, Câmara Municipal e, eventualmente, por outras instituições públicas e privadas. Com um programa de exposições temporárias, o MACC oferece um panorama das obras contemporâneas combinado com produções do acervo em que figuram nomes como José Roberto Aguilar, Mira Schendel, Candido Portinari, Lasar Segall, Roberto Burle Marx, Cildo Meireles, Waltércio Caldas e o Grupo Vanguarda. E também, conta com uma parceria com as escolas da cidade e com grupos especiais, para desenvolver atividades artes educativas.

E nesse formato de exposições temporárias, o MACC recebe de 21 de setembro a 27 de outubro o projeto O olho e o rio, do artista Ernesto Bonato. A mostra reúne cerca de 100 obras, entre pinturas, desenhos e gravuras, realizadas nos anos de 2008 a 2018. O projeto tem apoio da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e consiste em retratos, divididas em grupos, a fim de estabelecer um diálogo entre a imagem e a real identidade do ser. “Ninguém consegue se ver realmente, mas sim o seu reflexo”, afirma Bonato.

Segundo ele, as mudanças de tempo e local, fazem com que o olhar do outro e do artista revelem uma imagem que era desconhecida. “Nesse processo, o convívio e a observação são fundamentais para a construção da obra, que vai além da pintura em si, mas engloba o próprio ato de sentar-se diante do outro, os depoimentos e silêncios envolvidos”.

A exposição oferece interatividade com o público, que podem serem retratados de forma voluntária pelo assistente e fotógrafo Vinicius Cruz. “Desenvolvemos um aplicativo que utilizando códigos QR e as pessoas podem assistir pelo celular, vídeos e áudios gravados durante as criações das obras”, explica. E, também, é exibido continuamente um vídeo de 11 minutos abordando os encontros entre o artista e os modelos.

Na programação está previsto que o MACC receberá a exposição Pelo avesso, da artista Valeria Scornaienchi, que consiste em trazer o deslocamento de linguagens um corpo que acolhe a arquitetura e as relações entre dois lugares que fazem parte das discussões do trabalho da artista. O museu, seja na intenção de estar nele ou fora dele, e a biblioteca, considerando o livro enquanto objeto e/ou conteúdo, aparecem como ponto de partida, na chegada ou no meio do processo criativo do projeto. O livro O Corvo, de Edgar Allan Poe, aparece no meio do projeto e faz a artista dialogar com a literatura por associações e pensamentos.

Museu do Café de Campinas

O Museu do Café de Campinas apresenta documentos históricos, peças da antiga fazenda, recursos iconográficos e tem como função divulgar a história do café e sua influência no desenvolvimento socioeconômico e cultural do Brasil. Criado em 1996, o prédio é uma réplica da antiga sede da Fazenda Taquaral, quando ainda existia o Instituto Brasileiro do Café.

Márcio Cristian, gerente do museu, assume que os custos estão acima do orçamento da Prefeitura. “Não estamos conseguindo assegurar um museu acima da média para o público. Mas trabalhamos para melhorar o planejamento para 2019”. No museu é possível encontrar oficinas, seminários, saraus, apresentações de teatro, além de cursos, oficinas e seminários.

O museu fica na avenida Heitor Penteado, 2145, perto da lagoa do Taquaral, local de muita procura por lazer, exercícios físicos e passeios em família. O Museu do Café fica aberto das 10h às 16h.

Centro de Memória, Arquivo e Cultura

Instituído a partir do Programa de Gestão Documental, entre 2002 e 2003, o Centro de Memória, Arquivo e Cultura instalado no Tribunal Regional da 15ª Região de Campinas, tem por objetivo preservar a história do trabalho e do trabalhador. Seu acervo é focado na narrativa sobre como surgiu o trabalho e apresentar as leis trabalhistas de cada época. Existe em seu acervo está o primeiro processo contra o trabalho infantil, movido por um garotinho que ficou cego por causa do trabalho que realizava.

A narrativa das obras começa na época da escravidão até a mais recente história do homem, como a máquina de escrever, fotos e obras de artes que representam algum tipo de trabalho. O Centro de Memória é aberto para visitação de segunda a sexta, das 12h às 18h, localizado na avenida Francisco Glicério, 860 – 4º andar, Centro, com entrada é gratuita.

Confira a entrevista com a Cristina Pêra, coordenadora do Centro e a arquivista Taís Martins na íntegra.

Museu Exploratório de Ciências de Campinas

O Museu Exploratório de Ciências é localizado dentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e tem a missão de promover a disseminação da cultura científica. O museu está em funcionamento desde 2009 e apresenta itens como objetos populares, manômetros, painel de chuva, termômetro de Galileu, estudos sobre raios ultravioletas, entre outras coisas.

André Santanchè, diretor geral do MEC (Museu Exploratório de Ciências), explicou que a intenção era criar um museu que conseguisse promover uma interação com o público, por isso o nome dado de museu exploratório. Custeado pela Universidade Estadual de Campinas, a administração também recebe recursos de agências de fomento, como a Fapesp, para financiar exposições.

Para Santanchè, a população não dá a importância para os museus. “Isso é uma combinação de duas coisas, sobre como a comunidade brasileira enxerga os museus, totalmente diferente de como a população de outros países enxergam e dão valor, e a falta de recursos e de infraestrutura. Isso faz com que nós não tenhamos museus tão bons no Brasil para a comunidade se sentir incentivada a visitar”.

O museu fica localizado na avenida Alan Turing, 1500, bairro cidade universitária, na Unicamp e fica aberto ao público das 9h da manhã até as 19h.

Museu do Esporte

Localizado na Lagoa do Taquaral, o Museu do Esporte, é dedicado a exposições temáticas e periódicas relacionadas ao universo dos esportes e esportistas da cidade. O acervo conta com mais de 240 peças, que contam a história dos principais clubes da cidade Guarani e Ponte Preta, além da trajetória dos esportes olímpicos e de seus representantes.

O local recebe o nome de José Roberto Xidieh (atleta do Clube Campineiro de Regatas) a entrada é gratuita. O museu funciona de terças aos sábados, das 8:30h ao 12h e 14h às 16:30.

Confira a entrevista na íntegra com Fernando Pereira, diretor do museu.

Se interessou em algum dos museus e quer estreitar laços com as narrativas de cada um? Selecione no mapa o museu desejado.

Orientação de Cynthia Andretta

Edição por Victória Bolfe