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Museu do Ipiranga ganha contornos em meio à pandemia

Publicado em 28 junho 2020

Por Edison Veiga

Instituição, cujo nome oficial é Museu Paulista, deve reabrir em 2022 após 9 anos fechado, com 12 mostras

 

Quando finalmente reabrir ao público, em setembro de 2022, depois de mais de nove anos de portas fechadas, o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, em São Paulo, oferecerá uma experiência completamente diferente ao público. A julgar pelos trabalhos em andamento, um passeio pelo mais tradicional museu da cidade será uma viagem ao passado de forma imersiva, contemporânea e fluida.

O Estadão teve acesso ao conteúdo das 12 exposições que estão sendo montadas para a reinauguração do espaço - 11 delas de longa duração e uma mais pontual. Divididas em dois eixos, "para entender a sociedade" e "para entender o museu", as exposições se baseiam no farto acervo da instituição com uma apresentação mais cativante e interessante. Para deixar tudo pronto em tempo, um esquadrão de pesquisadores está debruçado sobre essa enorme coleção - o Museu Paulista tem 30.942 objetos, 80 mil imagens, 700 metros lineares de acervo textual, 114.763 livros e fascículos de periódicos.

"Estamos terminando a seleção de acervos para cada uma das exposições, o que significa que terminamos as etapas de definição de conceitos, temas e núcleos expositivos, sendo a seleção dos acervos a última etapa desse trabalho. Também o anteprojeto expográfico já está concluído e nele foram definidos os sistemas de equipamentos e mobiliário, o partido visual e a compatibilização da proposta geral com as demandas da curadoria", conta a historiadora Vânia Carneiro de Carvalho, coordenadora das Exposições do Novo Museu do Ipiranga 2022. "Com os acervos selecionados, será possível começar o projeto básico que já é um nível maior de detalhamento. No final de novembro, já teremos o projeto executivo, com todo o detalhamento e orçamentos necessários para começarmos a fase de produção física das exposições."

No total, 25 profissionais da instituição, associados a dez pesquisadores acadêmicos com projetos relacionados aos temas, compõem a força-tarefa. E há ainda equipes contratadas: 20 assistentes de pesquisa, um gerente de produção e três empresas, de arquitetura, design e tecnologia, com 11 pessoas envolvidas. "Quando iniciarmos os trabalhos de produção e implantação das exposições, essas equipes serão ainda maiores", aposta a historiadora.

Um exemplo de como esse processo vem ocorrendo é a preparação da mostra Casas e Coisas. Três pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP), financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), organizam uma sala sobre o espaço da cozinha para essa exposição. "É na interação dos objetos culinários com os sujeitos que mais estiveram associados a esse espaço - as mulheres - que buscamos apresentar ao público questionamentos não só sobre hábitos alimentares, mas também sobre a própria construção das identidades de gênero, das relações entre empregadas e donas de casa. De discursos identitários e mesmo da indústria de alimentos e eletrodomésticos que muitas vezes tomamos como verdades inquestionáveis", diz a jornalista Viviane Soares Aguiar, doutoranda em História Social.

O contexto da pandemia exigiu uma adaptação da rotina - o acesso ao acervo tem sido remoto. "Nosso grupo de pesquisa já estava bastante ativo nos trabalhos que têm contribuído para a elaboração da sala, antes mesmo do surto da covid-19. Havíamos feito um extenso levantamento de fontes textuais e tridimensionais, consultado manuais de puericultura, cadernos de receita, prospectos e objetos de colecionadores e museus. Além disso, a professora Vânia (Carneiro de Carvalho) havia recém adquirido objetos para ajudar a compor o acervo preexistente", explica a historiadora Maria Eugênia Ferreira Gomes. "Desde o início da quarentena, temos consultado a versão digitalizada dos documentos e o acervo online do museu."

"É importante ressaltar o papel das pesquisas acadêmicas em um museu universitário, como é o caso do Museu Paulista", acrescenta a historiadora Laura Stocco Felicio. "Projetos como os desenvolvidos para a exposição de reabertura colocam em prática as funções indissociáveis da universidade pública: ensino, pesquisa e extensão. Na medida em que alimentamos a produção científica, também contribuímos para a formação da sociedade e dos saberes que ela terá acesso na visita aos museus."

Temas. "Os temas foram definidos a partir de nossas linhas de pesquisa em que atuam os docentes do museu", contextualiza Carvalho. Institucionalmente, o Museu Paulista segue três linhas de pesquisa: História do Imaginário, Universo do Trabalho e História do Cotidiano.

"No interior dessas linhas, desenvolvem-se pesquisas sobre as representações ligadas à formação da nação - memórias da independência, narrativas e personagens envolvidos em versões da História do Brasil, disputas de territórios -, sobre as formas de trabalho anônimo - ofícios urbanos, domésticos, trabalhos rurais, atividades de transporte fluvial, terrestre e aéreo - e processos de formação de identidades que ocorrem nos espaços domésticos", pontua a historiadora.

No total, as 12 doze mostras exibirão ao público cerca de 4 mil itens, 90% deles do acervo do Museu Paulista - o restante deverá ser obtido via empréstimo de outras instituições e coleções particulares.

De acordo com o cronograma, as exposições de longa duração deverão ficar em cartaz de três a cinco anos. Já a temporária não deve ultrapassar quatro meses. A primeira delas será sobre as memórias da Independência, tema escolhido por estar, conforme ressalta Carvalho, "diretamente relacionado ao ano de reabertura do Museu e ao bicentenário da Independência". "A exposição reúne uma grande quantidade de acervos relativos à diversas formas de rememorar a Independência, em diversos períodos da história do País", comenta. "Por ela, o público poderá entender como processo de ruptura foi também disputado por projetos celebrativos e festividades que ocorreram em São Paulo, no Rio de Janeiro - a antiga capital - e também em Salvador, onde o processo de Independência foi concluído, em 1823."

Sócia do escritório Metrópole Arquitetos, a arquiteta Ana Paula Pontes explica que a nova expografia deve ser uma "intervenção contemporânea em diálogo com a arquitetura eclética do edifício monumento, a principal peça do acervo do museu". "Focamos em soluções de apresentação dos objetos não como tesouros valiosos, mas como testemunhos da cultura material da época em que foram produzidos, articulando-os aos conteúdos complementares interativos, a partir das leituras críticas da curadoria", explica ela.

Um exemplo será a maneira como as telas deverão ser mostradas ao público. "Estamos desenvolvendo uma solução de expor as pinturas não de modo usual, mas descolando-as das paredes, criando um estranhamento que pretende auxiliar a compreensão de que são objetos produzidos por artistas que interpretaram a seu modo um tempo passado, e não retratos fiéis de fatos históricos", diz Pontes. "No centro das salas, haverá mesas com múltiplos recursos como textos, imagens, monitores audiovisuais e objetos táteis, que farão a mediação de modo interativo entre os conteúdos e o público diversificado, de crianças a pesquisadores, incluindo pessoas com deficiências."

Uma equipe tem ouvido constantemente grupos sociais diversos, um canal aberto para acompanhar o que o público pensa. "Esse processo é apenas o início de uma aproximação que pretendemos estabelecer", conta a educadora Isabela Ribeiro de Arruda, supervisora do Serviço de Atividades Educativas da instituição.

Mirante vai permitir acompanhar a obra

Em outubro, a direção do Museu Paulista pretende inaugurar o espaço Observatório da Obra, um mirante de dois andares que permitirá ao público ter uma visão privilegiada do canteiro de obras - será possível, por exemplo, ver as escavações para a ampliação e a construção da nova entrada do museu.

O observatório estará aberto diariamente e vai ocupar o mezanino do Parque da Independência, próximo à rua Xavier de Almeida. O primeiro andar será dedicado às exposições (painéis irão abordar os marcos da obra e do processo construtivo) e o segundo será um mirante voltado para o Edifício Monumento.

Estátuas consideradas polêmicas serão contextualizadas

Em meio a um contexto social em que estátuas e monumentos públicos vêm sendo questionados, sobretudo aqueles que exaltam figuras racistas e xenófobas, a historiadora Vânia Carneiro de Carvalho, coordenadora das Exposições do Novo Museu do Ipiranga 2022, garante que as peças do tipo que integram a coleção da instituição receberão um tratamento mais adequado quando expostas.

"Temos várias esculturas do tipo, em mármore e bronze, bem como pinturas, retratos e cenas do gênero histórico, no saguão principal do edifício histórico, nas escadarias e salão nobre", afirma. "As mais conhecidas são as de Luigi Brizzolara representando (os bandeirantes) Raposo Tavares e Fernão Dias Paes Leme em dois blocos de mármore carrara de 4 metros de altura, cujos pedestais celebram a destruição de missões e populações indígenas. Outra obra polêmica é a pintura de Henrique Bernardelli, Ciclo da Caça ao Índio, uma denominação que mantemos, mas que abordaremos em sua dimensão hoje eticamente inaceitável."

A historiadora também lembra que telas como Fundação da Cidade de São Paulo e Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, ambas de Oscar Pereira da Silva, também precisam ser explicadas. "São polêmicas por hierarquizar fortemente populações brancas e indígenas", diz.

"Haverá um cuidado com estas obras, que devem ser tratadas como documentos históricos, portanto, como obras que nos informam sobre um modo de pensar de determinados grupos sociais em um determinado período de nossa história", pontua ela. "Nosso objetivo é dar ao visitante os elementos necessários para que ele possa compreender criticamente estas obras. Nesse sentido, devemos tratar essas representações do passado como um desafio, de modo a fomentar no público a disposição para enfrentar essa e outras imagens sempre como expressões subjetivas, contraditórias e polêmicas." / E.V.

Como serão as mostras

1) Eixo para entender a sociedade

Passados Imaginados: compreenderá as telas de grandes dimensões, como a famosa Independência ou Morte, de Pedro Américo, e a conhecida maquete de gesso que representa a cidade de São Paulo em 1841.

Territórios em Disputa: com objetos, cartas de sesmaria, mapas e outros documentos, a mostra vai contar como os europeus impuseram seu domínio ao território hoje brasileiro.

Mundos do Trabalho: Com ferramentas e imagens, a ideia é contar as atividades realizadas no País desde o período colonial, tendo por protagonistas indígenas, negros escravizados, homens livres, migrantes e imigrantes.

Casas e Coisas: Essa mostra vai mostrar as transformações dos espaços de moradia ao longo do tempo, de lugar multifuncional - onde se cultivava alimentos, se produziam coisas e as crianças recebiam a educação, para ambientes de abrigo e descanso.

A Cidade Vista de Cima: localizada no espaço que levará ao mirante, será uma mostra de imagens de São Paulo.

2) Eixo para entender o museu

Imagens e Objetos do Cotidiano: A ideia aqui não será agrupar peças interessantes do acervo do museu em um tema, mas sim contar como o Museu funciona.

Moedas e Medalhas: Por meio dessa coleção, a mostra vai exibir como o museu cataloga seus materiais.

Brinquedos: Com essa curiosa - e muitas vezes nostálgica - coleção, será contextualizado ao público os trabalhos de conservação, higienização e restauro dos itens do acervo.

Louça: Aqui a ideia será utilizar o acervo de louças para mostrar como se produz uma exposição dentro da instituição, ou seja, como ocorre a seleção e a interpretação dos objetos.

Memórias da Independência: será uma exposição temporária, que vai mostrar como foram as celebrações da Independência do Brasil em 1822, 1922 - e como serão em 2022.