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Multinacionais: Brasil tem pouca mão de obra qualificada

Publicado em 16 janeiro 2008

A mão-de-obra dos trabalhadores da indústria brasileira é comparável, em termos qualitativos, à de países desenvolvidos, como Estados Unidos e Alemanha. Por outro lado, o País apresenta forte escassez de mão-de-obra qualificada.

Isso pode ser um fator determinante para que as multinacionais estrangeiras instaladas no Brasil optem por transferir ou criar centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em outros países considerados emergentes, como Índia e China.

Essa é uma das conclusões do Projeto Políticas de Desenvolvimento de Atividades Tecnológicas em Filiais Brasileiras de Multinacionais, concluído no fim do ano passado e coordenado pelo Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O objetivo do trabalho, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no âmbito do Programa de Pesquisas em Políticas Públicas, realizado em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento do Estado, era identificar os principais entraves à atração de filiais de empresas multinacionais ao Brasil, principalmente no que diz respeito à realização de atividades de P&D em território nacional.

Durante dois anos, os pesquisadores entrevistaram, em duas etapas, representantes de dezenas de filiais de multinacionais instaladas no Brasil. No primeiro momento, foram consultadas 88 empresas, por meio de questionário respondido pela internet por seus presidentes. Dessas companhias, 81,7% consideram que a escassez de mão-de-obra qualificada será fator crítico nos próximos cinco anos no que diz respeito aos investimentos em P&D no País. Na segunda etapa da pesquisa, na qual foram entrevistados presencialmente dirigentes de 47 companhias, 58,7% destacaram o problema da escassez em quantidade de profissionais qualificados. A falta de mão-de-obra em qualidade foi apontada por 34,8% das empresas.

Entre as 47 empresas analisadas na segunda parte do trabalho, cerca de 80% disseram promover discussões com a matriz sobre a atração de investimento direto externo para a realização de P&D no Brasil. A mão-de-obra qualificada foi novamente o fator mais determinante para essa atração de recursos.

Flávia Consoni, pesquisadora do Departamento de Sociologia da USP e do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, conta que, entre os argumentos utilizados pela filial brasileira para atrair investimentos locais em P&D, os mais representativos foram mão-de-obra (21%), custo (17%), ambiente ou infra-estrutura para P&D (13%) e especificidade do ambiente e mercado (9%). "Quanto ao fator mão-de-obra, os argumentos estavam basicamente alinhados à característica e qualidade dos serviços prestados. As empresas informam que a mão-de-obra local é flexível, qualificada e competitiva em custo", declarou.

Apesar do projeto ter sido encerrado, outras filiais de multinacionais instaladas no Brasil estão sendo entrevistadas presencialmente, em trabalho com apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Essa pesquisa deverá ser encerrada até o fim deste ano. Em seguida, os autores deverão publicar um livro com os principais resultados.