Notícia

Jornal da Unicamp online

Mulheres no ensino superior ainda são minoria apenas na docência (1 notícias)

Publicado em 11 de abril de 2018

Por Luiz Sugimoto

As mulheres já formam há vários anos a maioria do corpo discente do ensino superior, tanto na graduação como na pós-graduação, atingindo também o maior número de títulos de doutorado. Mas ainda são minoria no quadro docente: em uma década, a participação feminina entre os professores cresceu somente 1%, de 44,5% para 45,5%. Os números, referentes ao período de 2006 a 2016, foram apresentados por Renato Pedrosa, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Educação Superior (LEES) e docente do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências da Unicamp. Ele conduziu o seminário “A participação feminina no Ensino Superior: tendências recentes”, realizado no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (Nepp).

Renato Pedrosa observa que a questão de gênero ganha cada vez mais importância em termos globais, aparecendo em todos os itens da agenda da ONU para o desenvolvimento sustentável. “A questão de gênero hoje se tornou muito mais complexa do que a declaração de sexo, que ainda vigora institucionalmente, e temos visto a sua gradativa inclusão como critério qualificador de políticas nas ciências, inclusive por agências de fomento. Nos conselhos nacionais europeus, a participação de gênero já aparece na análise de projetos de pesquisa – e muitas vezes se pede explicações em caso de não participação feminina. Isso ainda não chegou ao Brasil, mas a Fapesp, por exemplo, tem publicado informações sobre a participação feminina na liderança de projetos.”

O docente da Unicamp, que também coordena o Programa Especial de Indicadores da Fapesp, mostrou primeiramente dados gerais publicados pela Revista Pesquisa Fapesp nas edições de fevereiro e março deste ano, dando conta de que o número de professores e professoras em exercício no país subiu de 302 mil em 2006 para 384 mil em 2014 (27%). “O crescimento está concentrado no setor público, que passou de 101 mil para 170 mil docentes (68%) – aqui é preciso considerar o imenso impacto da expansão das federais, que dobrou o número de alunos e aumentou em 70% o quadro docente. O setor privado apresentou expansão de apenas 6,6%, de 202 mil para 215 mil professores, embora tenha dobrado o número de alunos de três para seis milhões.”

Prosseguindo com os dados gerais disponibilizados pelo Censo da Educação Superior (CES), agora referentes à titulação dos docentes, Pedrosa ressalta a mudança significativa daqueles que possuem apenas graduação, caindo de 12% em 2006 para apenas 2% do total em 2016. O grupo com especialização (lato sensu) também diminuiu de 30% para 20%, enquanto o grupo com mestrado subiu de 36% para 39% no mesmo período. “Já o grupo com doutorado cresce significativamente, passando de 22% para 39%, o que se dá nos dois setores: de 42% para 60%, no público, e de 13% para 22%, no privado. O total de docentes com pós-graduação subiu de forma correspondente, tanto no setor público (de 70% para 87%) como no privado (de 53% para 71%), atingindo 78% do total dos docentes do ES.”

Chama a atenção do pesquisador que o grupo de docentes que possuem apenas a graduação cai de 12% para 3% no setor público e, no setor privado, que era de 11%, ele simplesmente desaparece. “As pessoas fazem críticas ao setor privado, mas os números mostram que o esforço de qualificação vem tendo efeito: hoje, 71% dos docentes têm mestrado (49%) e doutorado (22%), e todos os outros possuem especialização.”

Participação feminina

Segundo Renato Pedrosa, a participação feminina no ensino superior estava em 45,5% em 2016 (175 mil dos 384 mil docentes), apenas um ponto percentual acima de 2006, estabilidade vista tanto no setor público (45%) como privado (46%). “Uma observação é que 51% dos títulos de doutorado obtidos no país entre 1996 e 2014 foram por mulheres. Vemos, então, que apesar de já haver uma maioria de mulheres qualificadas inclusive para atuar no sistema público (que em geral contrata mais doutores), a mudança no corpo docente por gênero não é diferente de dez anos atrás. Conferindo a titulação dos docentes do ensino superior, vemos igual percentual de homens e mulheres com doutorado (39%); pequena vantagem dos homens com graduação (1,5% e 1,3%); vantagem masculina na especialização (22% e 19%); e uma diferença a favor das mulheres no mestrado (41% e 38%). Somando mestrado e doutorado, temos 80% para as mulheres e 77% para os homens.”

Já um gráfico produzido a partir de dados de estudo do CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos do MCTI) sobre a pós-graduação, projetado na tela por Pedrosa, traz os percentuais de mulheres entre os recipientes de títulos de doutorado concedidos, que variou de 47% para 53% no período de 2000 a 2014. “Tivemos aumentos expressivos da presença feminina em áreas como de ciências da saúde, que saiu de 53% para quase 70%. A área de linguística, letras e artes (a denominação é da Capes) apresenta uma queda, mas continua em patamar elevado, em torno dos 65%, sendo a segunda no total de participação feminina. Vêm depois as ciências biológicas (60%) e ciências humanas (58%), que mantêm certa estabilidade.”

O coordenador do LEES também destaca o crescimento das mulheres na área multidisciplinar, com uma participação que já acompanha a média de 53%. “Outro crescimento está nas ciências agrárias, que tinha menos de 40% de mulheres, índice que hoje está acima dos 50%. Nas ciências sociais aplicadas (em que se incluem direito, economia, administração), a presença feminina chega aos 57%. As duas áreas que tradicionalmente têm menos mulheres – e continuam com menos – são das engenharias (mas houve um pequeno crescimento) e das ciências exatas e da terra. Um dado importante é que, se pegarmos o período mais curto de 2006 a 2014, temos 51% de mulheres com o título de doutor – e convém guardar esse dado, pois se trata do grupo mais qualificado para a docência no ensino superior.”

Mulheres na ciência

Renato Pedrosa finalizou a palestra apresentando dados publicados em setembro de 2017 pela Revista Pesquisa Fapesp, referentes à participação feminina em projetos submetidos à agência paulista de fomento. Uma ressalva é que as bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado são concedidas ao pesquisador responsável, que no caso é o orientador do aluno, com exceção do pós-doutorado. “De 2000 a 2016, a participação feminina subiu de 36% para 42% entre os responsáveis pelos projetos submetidos à Fapesp. Em 2016, mulheres lideraramm11.333 projetos submetidos, enquanto homens, 15.504”.

Considerando as áreas de conhecimento, o docente da Unicamp afirma que na maior delas, que é de ciências da saúde, a maioria já é feminina, com 3.262 projetos submetidos, frente a 2.592 pelos homens. As mulheres se mantêm perto dos 50% nas áreas de linguística, letras e artes, de ciências humanas e de ciências humanas, e depois começam a descer até os pouco mais de 20% em ciências exatas e da terra.

“Em relação às submissões aprovadas, notamos uma queda no percentual, em geral, nas últimas duas décadas. Esse índice, que já foi acima de 50%, está hoje em torno de 40%. Em 2016, houve uma pequena diferença a favor dos homens nessa taxa de sucesso – 41% contra 38% das mulheres, mas que não deve ser considerada significativa, pois em anos recentes esses índices sempre estiveram muito próximos”.