Notícia

Jornal Cidade (Rio Claro, SP)

Mulheres educadoras, a missão de ensinar

Publicado em 01 junho 2008

Por Janyne de Godoy

Quem não se recorda dos momentos de infância quando a professora, ainda na Educação Infantil, ensinou a pegar o lápis e a fazer os primeiros contornos das letras do nome? Ou ainda a que mostrou que, mais que ler e escrever, o educador é acima de tudo a pessoa que abre as portas de muitos sonhos e conquistas futuras? Ser educador é uma escolha e uma opção de vida que lhe dá o poder de fazer com que os sonhos se realizem”, é assim que Maria da Graça Zucchi Moraes resume o papel do educador.

Supervisora de ensino da rede estadual, lotada na diretoria de ensino de Limeira, mas afastada para exercer o cargo de secretária municipal da Educação e Cultura em Itirapina, Maria da Graça dedicou mais de 25 anos de sua vida educando milhares de crianças.

Em 1997 assumiu como secretária municipal de Educação em ltirapina, onde exerceu o cargo por quatro anos. “Essa mudança foi muito difícil, pois saí da sala de aula para ocupar um cargo administrativo, porém minha vasta experiência como educadora me fez crescer, pois eu sabia exatamente onde estavam os pontos frágeis”, conta Graça, que assumiu novamente o cargo em 2004. E ela não parou por aí. Dedicada ao que faz, seguindo sua vocação de educadora e com o pensamento voltado à formação do aluno, a professora iniciou em 2007 o curso de Mestrado em Políticas Públicas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar): “é preciso sempre buscar alternativas para sair da mesmice e a Educação pode levar o cidadão a melhorar sua condição de vida, pois abre horizontes, muda a mentalidade. A educação é o caminho para a transformação”, acredita.

A educadora lembra ainda que é da época em que escola boa era a que reprovava, “mas o tempo me ensinou que a escola boa é a que acolhe, a que consegue ensinar e inserir o aluno. O papel da escola não é o de selecionar, e sim o de promover”, salienta.

E finaliza: “é preciso fazer três coisas na vida: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Eu já plantei minha árvore, já tive meu filho, só não escrevi um livro, porém ajudei a abrir quatro escolas durante as duas administrações e cada escola é mais que um livro, é um filho, e isso me dá muita satisfação”, conclui Graça.

Estudando a psicologia da Educação

Graduada em Pedagogia, com mestrado e doutorado na área de psicologia da Educação, Telma Vinha, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, teve a oportunidade de viajar por todo o país, ministrando assessorias, cursos e palestras de formação de professores em escolas e universidades públicas e particulares.

“Acredito que grande parte do nosso trabalho de docente universitário, que forma novos professores, deva contribuir para, de alguma forma, melhorar a educação tão precária de nosso país”, fala Telma. Ela explica que as pesquisas com que trabalha visam investigar como a escola pode contribuir para a construção da autonomia do educando, dentro das relações interpessoais e do desenvolvimento moral, a fim de solucionar as inseguranças com que os professores trabalham.

Sobre a educação nos tempos atuais, Telma apresenta tristes dados que revelam as deficiências nas diversas etapas do ensino no Brasil. “Temos uma das mais altas taxas de repetência e evasão no ensino fundamental”, revela.

Segundo o Inaf, apenas 28% da população brasileira de 19 a 64 anos é plenamente alfabetizada e 72% da nossa população não seria capaz de ler e compreender um texto mais complexo ou artigo maior de uma revista.

Dados do Inep revelam que ao todo são 5,8 milhões de alunos na 1ª série, porém somente 2,8 milhões concluem o fundamental e ainda apenas 1,9 milhão conclui o médio. Se contabilizarmos 1 milhão ingressando no superior, somente 466 mil o concluem. Com relação à formação de nossos educadores temos 47% dos professores até 4ª série sem diploma universitário.

“Esses dados indicam como a nossa população desconhece a má qualidade do ensino de nossas escolas. Constata-se um quadro de pré-falência na educação brasileira que vai contra aquilo que é apresentado pela propaganda oficial”, salienta.

Para obter o sucesso profissional, a educadora explica que é preciso encontrar na atividade em si satisfação, motivação e envolvimento. “Todavia, só o gostar e ter boas intenções não é suficiente. E preciso estudo contínuo em qualquer área, principalmente em educação”, diz e acrescenta: “é preciso fazer a diferença e aceitar desafios, mesmo que para isso seja necessário um esforço maior. Afinal, ter êxito é fazer bem aquilo que o faz feliz, que contribui para você e para a sociedade, que o torna uma pessoa melhor”, completa Telma.

Educação: um caminho para a transformação social

Influenciada pela tia, a professora alfabetizadora Eliana Calis, Claudia Cristina Fiorio Guilherme decidiu seguir a carreira de educadora. Batalhadora, iniciou sua atuação na antiga Escola Semente, passou pela Rede Estadual de Ensino, pela Delegacia de Ensino de Rio Claro e hoje é doutora em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, docente na Uniararas, coordenadora da Universidade da Melhor Idade da Uniararas, coordenadora do Curso de Pedagogia da Academia de Ensino Superior de Sorocaba e professora convidada da Unesp de Araraquara no Curso de Especialização em Docência na Educação Infantil.

No início da carreira, Claudia conta que adotou a arte de educar pelo carinho que nutria pela ação de ensinar, mas, ao longo do processo, afirma ter notado, pelo próprio crescimento profissional, que a ação educativa é uma ação política. “Não há neutralidade na ação do professor, ele atua de forma intencional e nenhum conteúdo é desprovido de valores, concepções e crenças. O professor tem o poder de mudar o destino social de um indivíduo. Nesse sentido, vale destacar que a educação não se faz apenas com amor, não basta gostar de crianças para ensinar”, explica. Professora, mãe e música, Claudia divide seus dias entre a arte de ensinar, educar e aprender. Optou pela carreira acadêmica por acreditar que investir diretamente em cursos de formação de professores é importante para que o processo de transformação social se dê a partir do educador. E afirma ser importante valorizar o profissional docente, tanto socialmente quanto financeiramente, para que ele possa continuar a se aperfeiçoar.

Claudia também tem a convicção de que o profissional da Educação tem um corpo de saberes específicos que merece respeito, e exemplifica: “ninguém vai ao pediatra e fica palpitando sobre qual remédio ministrar à criança, mas com o professor ocorre o oposto, todos palpitam sobre o quê e como ensinar”, conta.

“O professor é o profissional da esperança, não daquele que fica aguardando, mas aquele que vai à luta e trilha o caminho para a modificação social”, finaliza.

Educadora no outro continente

Formada em Ciências Sociais pela Unesp de Araraquara, com pós e mestrado em Ciências Sociais pela UFSCar e finalizando o doutorado em Sociologia pela Federal, Flávia Alessandra de Souza Pereira seguiu a outro continente para defender sua tese sobre o movimento negro local, da década de 30, e sua relação com o poder.

Com apoio da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) do Ministério da Educação, Flávia conseguiu um estágio em Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde se dedicou exclusivamente aos estudos.

A partir da necessidade de falta de livros específicos que tratam as raízes, a socióloga e cientista social passou a investir na busca de subsídios para reafirmar a identidade e oferecer à população pesquisas científicas sobre a comunidade negra, sempre com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financia as pesquisas e estudos.

‘Todo mundo tem uma história para contar e essas vivências e raízes são importantes para que o indivíduo ajude a construir sua trajetória”, destaca Flávia.

Flávia conta que, a partir dos estudos, passou a entender outras culturas e a diferença de comportamentos. “0 estudo é algo fascinante, é preciso mergulhar e dizer que nasceu para isso”, destaca.

Membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFSCar, Flávia atuou diretamente na capacitação de diversos educadores do interior paulista com o Programa Educando pela Desigualdade e para a Igualdade.

Flávia enfatiza que é importante reconhecer que ninguém faz nada sozinho. “Acredito muito em Deus e sei que o apoio da família e principalmente das minhas filhas é indispensável na luta diária que enfrento com as pesquisas, e isso para mim é o sucesso. O sucesso é a realização de um sonho”, conta.

Sobre os dias atuais, Flávia acredita que está havendo uma evolução na educação, principalmente quanto às diferenças e preconceitos contra as classes minoritárias. “Isso é uma conquista que aos poucos vem sendo inserida no cotidiano”, fala. “E preciso acreditar e investir na educação”, esclarece.

No mundo das universidades públicas

Andrea Aparecida Zacharias, graduada em Geografia, com mestrado em Geociências e Meio Ambiente e doutorado em Geografia, dedica-se exclusivamente ao Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária, na Unesp campus de Ourinhos, onde responde pela vice-coordenação executiva e coordenação do curso de Geografia do campus.

Orientadora, pesquisadora e educadora, Andrea Iniciou sua carreira como educadora no colégio COC, e não parou de estudar. Após a conclusão do mestrado, passou a atuar com o Ensino Superior no Centro Universitário Unifeg, em Guaxupé- MG.

A virada na sua vida de uma faculdade privada para o mundo universitário público aconteceu em 2003, quando passou em primeiro lugar no concurso público que garantia a ela uma cadeira no curso de Graduação em Geografia na Unesp de Ourinhos.

Apaixonada pelo Ensino Superior, especificamente pelas universidades públicas, Andrea explica que a tríade - Ensino, Pesquisa e Extensão - é o alicerce da produção acadêmico- científica no país. E mesmo enfrentando deficiências, a educação ainda apresenta resultados de pesquisas, conquistas e confrontos que dão retorno à sociedade.

Ao longo dos anos e com o amadurecimento profissional, Andrea diz: “descobri que, quando entrei no curso de Geografia em 1994, eu era apenas uma aluna de graduação. E hoje, 14 anos após, posso falar que começo a me tornar uma profissional. Primeiro pelo entendimento do princípio da Geografia enquanto ciência, que trabalha com a organização sócio-espacial, e compete a ela entender, analisar e explicar os efeitos da ação humana sobre os espaços naturais, os quais são construídos e reconstruídos ao longo do tempo, de acordo com os interesses históricos, políticos e sociais; a fim de indicar as ações que podem tornar melhor, social e economicamente, o espaço geográfico. E, segundo, por descobrir que a Educação Pública que devo e quero não é da transmissão de conhecimento, e sim aquela que desenvolve reais competências, habilidades e conhecimentos”, explica.

“Assim, com muita humildade, finalizo que os anos de atuação profissional foram importantes para este crescimento pessoal e, sobre a Geografia, tenho muito ainda a aprender, afinal estou apenas começando”, finaliza Andrea. .