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Silvani Notícias (G1 Notícias)

Mulheres cientistas superam os desafios da área e se destacam na Embrapa Pecuária em São Carlos

Publicado em 11 fevereiro 2020

Por Fabiana Assis/G1

No Dia das Mulheres na Ciência, comemorado nesta terça (11), profissionais falaram sobre trajetória e experiências ao G1. Mulheres são apenas 28% dos pesquisadores do mundo. Pesquisadoras da Embrapa são exemplos de mulheres bem-sucedidas na ciência

Quando ainda fazia doutorado em Piracicaba (SP), em 1991, a química de São Carlos Ana Rita de Araújo, deixou as filhas de um ano e meio e de apenas um mês de idade com a babá dentro do carro no estacionamento da Unesp de Araraquara, enquanto fazia uma apresentação em um congresso científico.

Na época, ela já era pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste – a primeira mulher a assumir esse cargo na unidade – e lidava com os desafios de ser uma mulher com carreira científica. Hoje, ela comemora ao ver pesquisadoras com seus filhos nos auditórios dos congressos.

“Jamais, naquela época, eu imaginaria entrar com as minhas filhas dentro de um congresso científico. No ano passado, teve esse mesmo congresso em Caldas Novas e vi muitas alunas minhas, que hoje são professoras, com filhos na apresentação”, contou.

Representatividade

As cientistas enfrentam os mesmos desafios que as mulheres de outros setores profissionais na busca por representatividade, voz e liderança.

Para combater a desigualdade de gênero que afeta o meio científico, em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 11 de fevereiro como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, com o objetivo de celebrar os feitos de mulheres na área e encorajar gerações mais novas a buscarem carreira científica.

Formada e doutorada em química pela Universidade de São Paulo (USP), Ana Rita é uma das pesquisadoras mais respeitadas da Embrapa Pecuária. Tem 149 artigos publicados, além de dois livros e participação em outras 11 publicações. É orientadora credenciada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e USP, tendo orientado 23 doutores e 30 mestres.

Ela atua com o melhoramento de processos laboratoriais, como análises e, além de abrir o caminho para novas pesquisadoras, Ana Rita abriu espaço para a química na pesquisa agropecuária.

“Quando eu entrei aqui, o laboratório era só a pontinha do estábulo. Foi preciso mostrar a importância, mas sem bater de frente, conversando”, conta.

Ocupação dos espaços

Primeira mulher a assumir um cargo na pesquisa na Embrapa Pecuária Sudeste, em 1984, Ana Rita assumiu um cargo de chefia somente em 2008.

Atualmente, 43% dos pesquisadores da unidade são mulheres, mas não há uma mulher entre os quatro cargos de chefia. Em anos anteriores, a divisão chegou a ser igualitária, com duas mulheres e dois homens.

A quantidade de mulheres na Embrapa é maior que a média mundial. Segundo dados da Unesco de 2019, apenas 28% dos pesquisadores do mundo são mulheres. E, de acordo com o Fórum Econômico Mundial, as elas ganham um emprego na área das ciências para cada 20 perdidos, enquanto os homens ganham um a cada quatro.

A representatividade feminina nas ciências tem aumentado pelo mesmo caminho que em outros setores: pela educação. As mulheres têm ocupado, cada vez mais, os bancos nas salas de aula das universidades.

Dados do Censo da Educação Superior, de 2018, coletados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que o número de matrículas de mulheres no ensino superior representa 71,3% do total.

A bióloga Bianca Baccili Zanotto Vigna defendeu o doutorado com 27 anos e no mesmo ano começou a trabalhar na Embrapa, sendo a pesquisadora mais nova a entrar na unidade de São Carlos.

Formada em biologia, com doutorado em Genética e Biologia Molecular, ambos pela Unicamp, ela percebe que houve melhoria, mas ressalta que ainda um caminho a ser percorrido.

“Está melhorando, mas ainda é um ambiente muito machista. O que a gente percebe é que nos cargos de liderança geralmente estão homens, não só aqui, mas todas as outras instâncias da ciência, como no CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] e universidades. Na teoria a oportunidade é igual, mas, nas relações e no que não está no papel, tem uma diferença”, afirmou.

Bianca desenvolve pesquisas com biotecnologia para o melhoramento genético de plantas para alimentação animal, principalmente forrageira e, aos poucos tem conquistado o seu espaço. Em 2017, ela recebeu o Prêmio Ciência e Tecnologia de São Carlos (SP), na categoria Jovem Pesquisador, oferecido pela prefeitura.

“No dia a dia a gente vai tentando vencer essas questões, no sentido prático mesmo, tentando conversar de novo, mas a mulher tem que provar por A mais B duas, três vezes que aquilo está certo que é verdadeiro. É um exercício, um custo energético que não entra em lugar nenhum, o custo de convencer as pessoas”, afirmou.

Por conta dessa perseverança, ao longo dos anos as cientistas conseguiram algumas conquistas. Uma delas, a licença maternidade para as mulheres com bolsas científicas, começou a existir há menos de 10 anos. Primeiro com as bolsistas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e depois se tornou prática no CNPq e Capes até se tornar lei sancionada pelo Senado, em 2017.

Além de Ana Rita e Bianca, a Embrapa Pecuária tem entre seus pesquisadores sete veterinárias, seis agrônomas, mais uma bióloga, uma zootecnista e uma engenheira de alimentos, que seguem abrindo caminho e dando exemplo para outras mulheres que querem entrar na carreira científica.

No caso de Ana Rita, o exemplo foi dado além das dezenas de orientandas que ela teve e seguiram a carreira acadêmica, também dentro de casa. Uma das menininhas que ficaram no estacionamento da Unesp enquanto sua mãe apresentava seu trabalho, também se tornou pesquisadora e hoje trabalha no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da USP, em São Paulo.

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