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Mulheres boas de briga fazem a história da ferrovia brasileira

Publicado em 18 fevereiro 2002

Por Célia Moreira
Atrevidas, desbocadas, boas de briga. Assim eram as mulheres pioneiras no trabalho em ferrovias no Brasil. A pesquisadora Lídia Maria Vianna Possas, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), na sua tese de doutorado desvendou o universo dessas pioneiras com o trabalho intitulado "Mulheres, trens e trilhos, beirando a história do impossível". Foram quatro anos de pesquisa, ao final do qual, ela levantou fichas de mais de 250 mulheres que trabalharam na Ferrovia Noroeste, principalmente como telegrafistas, secretárias, telefonistas, lavadeiras. "Foi em 1918 que a Noroeste, a pioneira e mais importante das estradas de ferro a cortar a cidade de Bauru, contrata a primeira funcionária do sexo feminino: Flordaliza Meira Monte, de 16 anos, nascida em Capivari, admitida como temporária, como prática de telégrafo". Até então, "das estações e oficinas aos escritórios, passando pelos vagões das composições, a companhia era um ambiente de trabalho masculino. Saias por ali só eram vistas nas passageiras de algum comboio vindo da capital. Ou ainda nos cabarés e bordéis, próximos à estação de trem, onde predominava, para usar o linguajar corrente da época, o protótipo de mulher pública de então, dançarinas e prostitutas, vulgarmente chamadas de "vagabundas". O recrutamento da escriturária, que arrumara o emprego de sua vida (se aposentou por invalidez em 1942), inaugura uma nova fase na estrada de ferro: a era das ferroviárias de Bauru", solteiras, de 15 a 30 anos de idade". Algumas eram registradas com o nome de homens, " um parente que trabalhara na ferrovia". As ferroviárias tinham de provar que eram competentes em seus afazeres. "Sempre existia aquela onda (...) de que mulher é fraca. Mulher não pode isto e aquilo", recorda Hermínia Malheiros de Oliveira, que trabalhou como telefonista, num depoimento de 1997, quando tinha 81 anos, O estudo da história das primeiras ferroviárias se encerra em 1945, quando o acesso aos concursos da Noroeste foi praticamente negado às mulheres. Elas deixaram a ferrovia e ganharam outros rumos no mercado de trabalho.