Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Mulher prioriza estudos a maternidade

Publicado em 11 março 2003

Menos filhos e mais estudos. A luta por um espaço no mercado de trabalho leva um número cada vez maior de mulheres a prorrogar a maternidade e investir no conhecimento. Na Região Metropolitana da Baixada Santista, as faixas etárias de 20 aos 24 anos e dos 25 aos 29 anos apresentaram queda de cerca de 11% na fecundidade. A taxa de analfabetismo a partir dos 15 anos caiu de 9,83% em 1991 para 6,55% em 2000. Os dados são da Fundação Seade e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que este ano, juntamente com o Conselho Estadual da Condição Feminina (CECF), lançaram o projeto Perfil Sociodemográfico da Mulher Paulista, disponível na Internet. Pela primeira vez, um banco de dados sobre a mulher apresenta informações colhidas nos 645 municípios do Estado, baseadas no último censo do IBGE, de 2000, e nos números dos cerca de 800 cartórios do Estado. A redução do número de mulheres que tiveram filhos em 2000, nas faixas etárias dos 20 aos 24 anos e dos 25 aos 29 anos, confirma as mudanças de comportamento do sexo feminino. As mulheres priorizam cada vez mais o trabalho e os estudos e prorrogam a maternidade. Na Região Metropolitana da Baixada Santista, 138,06 entre mil mulheres tiveram filhos em 1990. Em 2000, a quantidade já era 11% menor: 122,61 mulheres entre mil foram mães. Redução semelhante ocorreu no grupo dos 25 aos 29 anos. Em 1990, 124,76 mulheres entre mil tiveram filhos, enquanto que em 2000 a proporção caiu para 111,97. Já na faixa etária entre 30 e 34 anos, o número de mulheres que tiveram filhos em 2000 foi maior do que o de 1990. Naquele ano, 73,88 mulheres entre mil foram mães. Em 2000, o número subiu cerca de 6%: 78,14. "A mulher está atrasando cada vez mais a maternidade. A mudança do papel feminino inclui menos filhos em idades mais avançadas", afirmou a pesquisadora da Fundação Seade, Cecília Polidoro Mameri. A média de filhos por mulher na região da Baixada Santista era de 2,37 em 1990, caindo para 2,12 em 1995. Em 2000, segundo Cecília, a taxa ficou em torno dos 2,22, praticamente estável. "Dentro de alguns anos, o número tende a se estabilizar nos dois filhos por mulher". No grupo de jovens entre 15 a 19 anos, a quantidade das que tiveram filhos subiu 19% desde 1990, quando 69,24 jovens entre mil foram mães. Em 2000, o número aumentou para 82,47. Na opinião da presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Commulher), Marlene Zamariolli, o aumento da fecundidade das adolescentes é fruto da banalização do sexo. "Elas estão sendo metralhadas pela vulgaridade. A mídia, por exemplo, contribui para isso". ANALFABETISMO Seguindo a tendência nacional, as mulheres da região vêm se dedicando cada vez mais aos estudos. O índice de analfabetismo a partir dos 15 anos caiu de 9,83% para 6,55% e os melhores resultados desde 1991 podem ser verificados nas faixas etárias mais avançadas. Entre mulheres dos 30 aos 39 anos, por exemplo, a taxa caiu 42%: de 7,22% em 1991 para 4,18% em 2000. Dos 40 aos 49 anos, o índice reduziu de 12,17% em 1991 para 6,82% em 2000, o que representa diminuição de cerca de 46%. Para a demógrafa Catarina Silvério, da Fundação Seade, a redução dos índices é reflexo da universalização do ensino fundamental. "Vários estudos apontam que a trajetória escolar feminina é mais regular. As mulheres são mais cumpridoras de regras que os homens". Segundo a pesquisadora, o próximo levantamento da Fundação Seade, que será divulgado em setembro, levará em conta o tempo de estudo das mulheres. POPULAÇÃO FEMININA TEM CADA VEZ MAIS PROBLEMAS DE SAÚDE Se, por um lado a população feminina ganhou o reconhecimento da sociedade, por outro apresenta problemas cada vez maiores de saúde. As doenças cardiovasculares são as que mais matam as mulheres e, em 2001, foram responsáveis por 36% dos óbitos femininos no Estado. Na Baixada Santista, a média de mortes entre os anos de 1999 e 2001 foi de 166,6 entre 100 mil mulheres. As enfermidades com maior participação do levantamento de mortalidade por doenças do aparelho circulatório, segundo a Fundação Seade, foram as cerebrovasculares. Entre 1999 e 2001, a incidência foi de 62,2 entre 100 mil na região. As mortes por doenças cardiovasculares, de acordo com a pesquisadora Cecília Mameri, reduziram 43% ao longo dos últimos 20 anos mas, mesmo assim, continuam preocupando as autoridades de saúde. Entre as mais comuns, estão o enfarto, o derrame, angina e tromboses. "Elas se sentem cada vez mais pressionadas. Ficam mais tempo em pé, fumam mais e se sentem mais estressadas. Isso compromete o aparelho cardiovascular", afirmou o cirurgião cardiovascular Carlos Eduardo Martins Carvalho. De acordo com a cardiologista Tânia Martinez, do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia e diretora da unidade de Lípides do Incor, a concentração de faixas etárias mais avançadas na região contribui para uma incidência maior de problemas cardiovasculares. "Além disso, a dupla e tripla jornadas podem causar sérios problemas. Hoje, a cobrança é muito grande". Rodolfo Leite Arantes, cardiologista clínico, ressaltou, que o tabagismo e a falta de atividade física contribuem para um número cada vez maior de óbitos por doenças cardiovasculares entre as mulheres. Na visão de Carlos Alberto Martins Carvalho, médico vascular, o estresse das mulheres que agora conciliam as atividades profissionais com domésticas contribui para o surgimento de problemas vasculares, incluindo a região cardíaca.