Notícia

Gazeta Mercantil

Muito suor e pouco dinheiro

Publicado em 26 outubro 1997

Por Virgínia Silveira - São José dos Campos
Os 150 engenheiros, técnicos e pesquisadores envolvidos na operação de lançamento do Veículo Lançados de Satélites Brasileiro (VLS-1), em Alcântara, no Maranhão, passaram as últimas 15 horas de quarta para quinta-feira em claro, tentando acertar os detalhes finais para garantir o vôo do foguete, neste domingo, dia 26. Um dia antes, no sábado, a partir das 22h30 local, em Alcântara, está programado o início da terceira e última operação simulada de lançamento do veículo, com término previsto para às 9h do dia seguinte, momento em que será dada a partida do foguete rumo ao espaço. A Agência Espacial Brasileira (AEB) reservou uma "janela" para o lançamento, no horário de 9 horas até o meio-dia em Alcântara. A definição de uma data para a realização do evento mobilizou o deslocamento de mais um grupo de engenheiros e técnicos do CTA para a Base de Alcântara, ontem pela manhã. Por determinação da AEB somente o pessoal envolvido com a operação de lançamento estarão autorizado a acompanhar o vôo do foguete. Autoridades, imprensa e convidados poderão assistir ao evento através de telões que serão instalados em três cidades (São Luiz, Brasília e São José dos Campos). A transmissão será feita via satélite, pela Radiobrás. A partir de agora, segundo o gerente do VLS, coronel Antônio Hugo Pereira Chaves, só as condições meteorológicas desfavoráveis, como chuvas e ventos acima de 10 metros por segundo, poderão atrapalhar o lançamento do VLS. "Estamos trabalhando nos momentos finais de carregamento e descarregamento de bateria e pressurização geral do veículo, operação que deve durar mais umas 40 horas", informou. A proximidade do lançamento do VLS-1 aumentou a carga de trabalho daqueles que estão diretamente envolvidos na operação em si, em Alcântara, ao mesmo tempo em que gera uma expectativa cada vez maior para os que ficaram em São José dos Campos. Nas instalações do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), responsável pelo desenvolvimento do foguete desde o início, as salas estão quase todas vazias e o clima é de tranqüilidade. "Foi todo mundo pra lá", disse uma funcionária, referindo-se a Alcântara. Entre os poucos pesquisadores que ficaram, ainda foi possível resgatar o sentimento da maioria, no evento, considerado um marco na história tecnológica do País. "O VLS representa nada mais que trinta anos de pesquisas espaciais objetivando colocar o Brasil como emergente entre aqueles que decidiram ter seus próprios meios de lançamento", comenta o engenheiro aeronáutico Jayme Boscovi, que dedicou os últimos 35 anos de sua vida às pesquisas na área espacial. Para ele, qualquer que seja o resultado do vôo do VLS-1, ele será um marco da presença efetiva do Brasil na conquista do espaço. Isso, segundo Boscovi, porque o projeto nunca teve realmente um apoio como se fosse uma necessidade nacional, como foi encarado o programa nuclear brasileiro ou os programas das barragens hidrelétricas. "Itaipu foi feita em seis anos, da mesma forma que Carajás, com a Vale do Rio Doce. Não podemos dizer isso do programa espacial", comentou. A Índia, por exemplo, país com notórios problemas sociais, econômicos e ideológicos, infinitamente mais complexos que os do Brasil, está a quilômetros de distância do nosso País na corrida espacial. O detalhe é que eles começaram praticamente junto com o Brasil, por volta de 1967. Nessa época havia bastante motivação e recursos financeiros. As coisas começaram a mudar a partir do final da década de 70, quando o dinheiro ficou escasso, em função da explosão da dívida externa brasileira. Mas o programa do VLS teve fôlego até meados de 1985. "Dos anos 70 até os anos 80, conseguimos estabelecer todos os relacionamentos internacionais de cooperação e transferência de tecnologia para o programa. Os problemas só se agravaram com o início do embargo internacional", conta. O programa espacial brasileiro, segundo Boscovi, só sobreviveu graças a persistência de pesquisadores que fizeram dessa atividade uma opção de vida. "São eles que permanecem até hoje no programa, estão em Alcântara trabalhando mais de 12 horas por dia e recebendo salários líquidos de apenas R$ 1.400,00", desabafa. Sem esse pessoal, cerca de quinze pessoas no máximo, segundo o engenheiro, o foguete não sai do chão. Boscovi fala com a autoridade de quem foi responsável pela definição da configuração de um sistema viável como lançador de foguetes, pelo desenvolvimento estrutural do veículo e de ter ocupado, por quase quinze anos, a cadeira de gerente-geral do projeto até se aposentar em 1995. Um pouco desse descontentamento vivido pelos pesquisadores do projeto do VLS e de tantos outros na área de ciências e tecnologia foi mostrado rapidamente ao presidente Fernando Henrique Cardoso, durante sua visita à base de Alcântara, na última terça-feira. Um servidor de nível técnico do CTA, envolvido no lançamento do VLS, conseguiu furar o bloqueio da segurança do presidente para lhe mostrar seu holerite. Segundo o presidente do Sindicato da Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Francisco Conde, Fernando Henrique demonstrou espanto com os baixos valores, ao mesmo tempo em que o servidor ressaltava que aquele é o salário que está sendo pago ao pessoal que vem se desdobrando para o sucesso do lançamento do foguete. O custo de todo esse sacrifício, segundo o engenheiro Boscovi, é a dificuldade até de sobrevivência de pesquisadores com farta experiência internacional na área de tecnologia espacial. "Isso só serve para mostrar a face negra do País. O Brasil ainda não acordou para o fato de que a salvação do País, no contexto da globalização, está na alta tecnologia", afirmou. O governo, na sua opinião, precisa definir qual a melhor opção para atividade espacial no País: "É uma opção estratégica, sem a preocupação de custo-benefício? ou é a opção de o País decidir ter seu próprios meios de lançamento para explorar comercialmente o espaço, como fez a índia e o Japão?, completou. Segundo Boscovi, essa é uma problemática que o Brasil vai enfrentar após o vôo do VLS. "Se não der certo vai se tornar um fator de desmotivação porque ainda não se sabe o que está sendo planejado para o futuro. Para ter sucesso o programa espacial precisa estabelecer mecanismos que permaneçam ao longo dos anos, dentro do contexto de um programa nacional", Finalizou.