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O Tempo

Muito mais que festa

Publicado em 21 julho 2007

Por Wilton Garcia

Com certeza, o desejo da comunidade GBLT belo-horizontina há dez anos, quando foi realizada a 1ª Parada do Orgulho GLBT de Belo Horizonte, era conseguir encher a avenida Afonso Pena de gente a fim de celebrar a diversidade e de ser feliz sem preconceito. Mas apenas 50 pessoas compareceram ao primeiro evento público GLBT da capital mineira. "Se hoje ainda sofremos, imagina dez anos atrás o tamanho do preconceito", lembra Carlos Magno, presidente do Centro de Luta pela Livre Expressão Sexual de Minas Gerais (Cellos- MG), ONG responsável pelo evento.

"Tinha muita gente que ia fantasiado com aquelas roupas de personagem da Disney, para esconder a cara. Poucas pessoas já tinham a coragem de se colocar na rua, assumindo a homossexualidade", continua Carlos Magno. Mas amanhã, quando a 10ª Parada do Orgulho GLBT de Belo Horizonte sair da praça Sete para subir a Afonso Pena, em direção à rua Professor Moraes, na Savassi, a cena deve ser bem diferente daquela de uma década atrás.

"Ficamos até emocionados quando fazemos uma retrospectiva desses dez anos de Parada GLBT em Belo Horizonte. Acho que o movimento gay no Brasil, especialmente aqui na cidade, tem conseguido muitas conquistas em um curto espaço de tempo, ainda mais se comparado a outros movimentos sociais", afirma Carlos Magno. Temos hoje um centro de referência para a comunidade GLBT municipal e outro estadual, temos leis locais que criminalizam a homofobia, dia do Orgulho Gay.

E, principalmente, hoje não só contamos com o apoio da militância, mas também de órgãos da sociedade e do governo, além de pessoas que, mesmo não sendo homossexuais, querem uma vida melhor e sabem que isso só é possível se a diversidade for respeitada", comemora ele. Neste décimo ano, a Parada belo-horizontina vai além da criminalização da homofobia, luta constate da comunidade GLBT em todos os cantos.

"Precisamos viver numa sociedade onde se respeita o diferente, não importa quem ele seja. Por isso, escolhemos o tema 'Por um Mundo sem Racismo, Machismo e Homofobia' para unificar a luta das mulheres, dos negros e dos homossexuais, três grupos historicamente excluídos pela maioria", explica Carlos Magno, ressaltando que o mote do evento vai ao encontro do momento em que o Senado estuda uma emenda para o projeto de lei nº 122, acrescentando na lei que pune o racismo também os casos de desrespeito a gênero e orientação sexual.

"Como a palavra 'homossexual' estava causando muita resistência entre a parte mais radical do Senado, que inclui as bancadas evangélica e católica, resolvemos fazer da Parada um momento de colocar o assunto em debate na sociedade, para chamar as pessoas a se manifestarem, com o objetivo de fazer com que a emenda saia do papel", conta o presidente do Cellos- MG.

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Mesmo depois de tantos anos panfletando a favor da livre expressão sexual e dos avanços conquistados, muita gente que não está ligada à batalha dos homossexuais ainda acha que as paradas que acontecem Brasil afora são apenas festas nas quais a comunidade GLBT extravasa os sentimentos, através das cores, das bandeiras do arco-íris e das músicas. "A Parada é um evento bonito, alegre, como é característica da nossa comunidade. Mas é apenas um momento de visibilidade, no qual ocupamos a rua, colocamos nossas caras na avenida. A luta contra o preconceito é o ano todo", garante Carlos Magno.

Inclusive, a 10ª Parada do Orgulho GLBT começou muito antes do desfile de amanhã. Desde o último dia 12 estão sendo realizadas atividades diversas que mesclam cultura e reflexão - incluem-se aí debates, seminários e a Mostra Mix Brasil de filmes sobre a diversidade sexual, além de muitas festas de aquecimento. Hoje, outro evento pré-Parada ainda promete agitar a comunidade: 3ª Caminhada do Orgulho Lésbico, uma realização da Associação Lésbica de Minas (Alem-MG), presidida por Soraya Menezes, militante que esteve na fundação da parada gay daqui, aquela de dez anos atrás.

Todos esses eventos - e, principalmente, a adesão da sociedade a eles - representam para Carlos Magno o caminho para a solução de um grande problema entre os homossexuais. "Na minha adolescência, não havia ONG, nem nenhum outro evento que mostrasse que a única coisa diferente em ser gay é a orientação sexual, nada mais que isso. A gente paga nossos impostos, trabalha, estuda como qualquer heterossexual. Mas naquela época, eu me achava o cocô do cavalo do bandido, o único gay do mundo, o ridículo por gostar de pessoas do mesmo sexo. Isso tudo leva à invisibilidade, que gera violência nessa sociedade tão cruel. Com todas as paradas, ONGs e projetos que temos hoje no Brasil, percebemos que os jovens já não se sentem envergonhados de sua orientação. Estamos conseguindo sair do armário mais facilmente", comemora Carlos Magno.

Agenda - Programação da 10ª Parada do Orgulho GLBT de Belo Horizonte, amanhã: concentração às 11h, na praça Sete (entre ruas São Paulo e Carijós); ato sóciopolítico- cultural, das 11h às 16h (entre São Paulo e Carijós); saída da Parada às 16h; chegada da Parada às 19h, na Afonso Pena com Professor Moraes. Hoje, festa pré-Parada a partir das 22h na boate Gis Club (rua Barbacena, 33, Barro Preto).


A diversidade para todos

Há quem possa falar de diversidade ao pensar na estratificação de estados múltiplos, plurais do sujeito contemporâneo, sobretudo no Brasil. A 10ª Parada GLBT de Belo Horizonte representa um avanço da sociedade mineira que, em sintonia com o mundo, abre as portas para esta conquista. Aqui, a Parada registra uma trama contundente, a qual se reitera deslocamentos, flexibilidades e subjetividades. Essas manifestações não podem ser vistas/lidas apenas como espaço de luta e reivindicação identitária.

Busquemos ampliar o olhar e relacioná-las a partir de uma política afirmativa da diferença. Portanto, deve-se trocar o termo tolerar para algo mais complexo e efetivo — Respeitar. Uma Parada Gay ultrapassa o contingente do debate sexual para dialogar com questões de etnia, gênero, desejo. É uma estratégia pública de dar adeus para racismo, machismo e homofobia. Agora, alternativas socioculturais tentam equiparar democraticamente as desigualdades no país e no mundo. Ou seja, elabora-se um desafio agudo: uma voz de felicidade!

O amor que ousa dizer seu nome é um amor entre iguais que promove um exercício de cidadania. Trata-se da diversidade celebrada pela dinâmica de um evento elétrico, dançante e a agitação dos participantes faz explodir uma energia ativa. Disso tudo, fica a mensagem para refletirmos melhor sobre o respeito ao Outro no cotidiano.


Wilton Garcia é doutor em comunicação pela USP, autor do livro "Homoerotismo & Imagem no Brasil" (Nojosa/ Fapesp)