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A Notícia (Joinville, SC)

Muito mais que dez anos

Publicado em 25 maio 2005

Vem cá, para que bolo e velinha em festa de criança se a rede brasileira já é uma adolescente?

Andam dizendo por aí que a internet no Brasil está fazendo dez anos. Nada disso. O que aconteceu em 1995, na verdade, foi que o governo brasileiro liberou o backbone para a oferta de acesso via provedores comerciais. Também naquele momento, a Embratel passou a oferecer conexão por atacado às teles regionais, estas aos provedores e estes aos usuários finais. Mas a internet tupiniquim, ora, é bem mais idosa. Começar mesmo, ela começou na década de 80, quando testes de envio e recebimento de mensagens já eram realizados no Brasil. Naquela época, estava claro que a tendência no exterior era uma rápida migração das redes BitNet para a internet. Várias universidades estrangeiras avisaram que iam migrar quando a Fapesp, em São Paulo, decidiu migrar também.
Já em 1989 estava se formando uma rede nacional que permitisse distribuir o tráfego entre os centros acadêmicos brasileiros. Ela acabou se transformando na Rede Nacional de Pesquisas (RNP), um dos principais elementos para o nascimento da internetBR. Em julho daquele ano, o projeto AlterNex, do IBase, no Rio, realizou uma chamada internacional DDI do Rio para São Francisco. Duas vezes por dia, as mensagens era transmitidas ou recebidas, via internet. Essa é a data-chave. "Foi quando a gente viabilizou esse serviço de troca de mensagens direta com a internet. Era uma conexão direta do Brasil, através de uma máquina Unix, com a internet nos EUA. A gente conseguia transmitir cerca de 600 caracteres por segundo, uma velocidade excepcional" conta Carlos Alberto Afonso, um dos fundadores do Ibase, ao lado de Herbert de Souza, o Betinho. Carlos Afonso é atualmente diretor de planejamento da ONG Rede de Informações do Terceiro Setor (Rits) e membro do comitê gestor da Internet Brasileira.

Histórias suculentas do início dos serviços
As histórias pessoais que levaram às ciberveredas são suculentas. Como a de Demi Getschko que, confessa, até hoje não consegue se acostumar com o que para nós é a mais trivial das ferramentas de internet: buscadores como o Google. "Até hoje eu me surpreendo com o Google. Se alguém, em 1989, me dissesse que dava para fazer um buscador, eu diria que não dava, porque não havia banda e não havia necessidade. Como futurólogo eu teria fracassado!", comenta.
Demi também viu como ameaça a chegada do Mosaic, primeiro browser que nasceu junto com a World Wide Web (www), pelas mãos do heróico Tim Berners-Lee, em 1993. "Com a entrada do Mosaic, achei que as coisas iam piorar por causa das imagens e o consumo cavalar de banda. Por sorte, as telecomunicações responderam ao chamado" diz, do alto de sua experiência de "abridor de picadas" na internet brasileira. "Em 1987, tive uma reunião com o pessoal do Rio, do LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), o Michael Stanton, o Alexandre Villas-Boas, o Tadao Takahashi, o pessoal da USP, para discutir esse negócio de rede. E todos chegamos à conclusão de que valia a pena fazer alguma espécie de conexão", lembra.

Antes da internet, usava-se a BitNet
No fim de 1988, a Fapesp dava os primeiros passos no uso da comunicação via BitNet, rede da moda na comunidade acadêmica. "Na época da BitNet, a grande coqueluche era o correio eletrônico. Uma das coisas mais atraentes era fazer listas de discussão baseadas em correio eletrônico", lembra Demi. "Uma das quentes era a Brasnet, de brasileiros no exterior. Esses caras existiam antes de a gente ter conexão. Eles passaram a discutir com os brasileiros locais. Tinha até uma rádio escrita em texto", continua.
Enquanto isso, no Rio uma turma também batalhava para criar o que, mais tarde, viria a ser a internetBR. Em 18 de julho de 1989, o Ibase ativou o primeiro servidor Unix conectado à internet nos EUA usando o protocolo UUCP, abrindo o acesso a esse servidor via linha discada para uso das entidades civis. "Esta, para mim, é a data simbólica de nascimento da internet no Brasil", diz Carlos Alberto Afonso, um dos fundadores do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e do projeto AlterNex, ao lado do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

Ibase e RNP, pai e mãe da rede verde-e-amarela
Não é de todo errado afirmar que foi nas mãos de Carlos Alberto Afonso e de seus companheiros do Ibase que o braço nacional da rede mundial de computadores levou as primeiras palmadas e os primeiros afagos. Foi no Ibase que nasceu o primeiro serviço brasileiro de internet não-acadêmica e não-governamental, o AlterNex. A hoje adolescente rede também é fruto dos esforços da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), lançada em 1989 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com a intenção de implantar o primeiro backbone nacional e difundir o uso da internet.
"Começamos com os projetos de uso de tecnologias em 1981. Em 1984, aparece o Interdoc, embrião desse consórcio de organizações que tem como missão buscar democratizar a informação usando as ferramentas mais modernas possíveis. Na época, era o email, usando redes eletrônicas que vieram a convergir para a internet, no final da década de 80", conta Carlos Afonso. Foi justamente no fim da década de 80 e no começo da de 90 que o jogo começou a mudar. Cabia agora aos desbravadores correr atrás de apoio do governo para a empreitada.

ECO 92
Se não fosse a Eco 92... bem, se não se fosse a conferência mundial sobre meio ambiente no Rio, a história da internet no Brasil podia ter sido diferente. "A Eco 92 foi a primeira grande conferência da ONU que se abriu para a sociedade civil efetivamente. E é óbvio que a maioria das entidades ambientalistas não ia ter condições de vir para o Rio. Então, começamos a pensar em como usar a internet para isso. Fomos a Genebra, convencemos o secretário-geral do projeto da Eco 92, que hoje vem a ser o chairman do grupo de trabalho de governança na internet do Kofi Annan. Ele leu a nossa idéia, viu a nossa experiência e falou 'a gente tem que fazer isso'. Deu luz verde, contra o governo brasileiro", conta Carlos Afonso.
Foi quando a ONU decidiu comprar a briga, enviando ao governo brasileiro um pedido formal de inclusão, na Eco 92, do projeto internet do Ibase. "A ONU pediu que o projeto internet fosse incluído no acordo de sede. Significa que aquele espaço da conferência passou a ser um território internacional, onde só a ONU manda. E nós entramos com nosso projeto nesse ambiente. E as portas se abriram".
Depois da Eco 92, o primeiro grande marco da história da internet, não só da brasileira, foi a chegada da World Wide Web (www) e do Mosaic. De repente, a velocidade se tornou pequena, e a banda, menor ainda.
Entre 1994 e 1995, a internet brasileira tornou-se um grande híbrido entre iniciativas comerciais correndo em paralelo com a rede acadêmica. Até que no começo de 1995 começou a se formar a estrutura que ia gerar o mercado de provimento de acesso. A Embratel, que até então não tinha se dado conta do filão, passa a fornecer conexão por atacado e as teles locais a ofereciam aos provedores. Na ponta, os usuários finais, enfim, passaram a ter acesso à internet.
"A idéia era que a Embratel fosse um provedor para as teles locais, que o seriam para os provedores de usuários finais. Não era interessante que a Embratel desse acesso a usuário final porque ela destruiria toda uma cadeira de valores e uma estrutura hierárquica bastante elegante", conta Demi Getschko.
Felizmente, dizem os desbravadores, a demora da inserção das empresas de telecom na exploração da internet fez com que a sociedade civil e o meio acadêmico pudessem criar uma governança na rede. Assim, em 31 de maio de 1995, foi criado o Comitê Gestor da Internet Brasileira, visando a dar uma vestimenta um pouco mais organizada, mais oficial, a uma atividade voluntária e espontânea de atender ao DNS brasileiro e aos números IP.

London: livros e tecnologia
Nem todos os pioneiros da internet começaram lidando diretamente com bits e bytes. Jack London, lendário capitão da Booknet e hoje no Armazém Digital, conta que seu primeiro contato com a rede veio de um livro. "Em março de 1994, o Ibase lançou um dos primeiros livros escritos por um brasileiro registrando suas experiências com a internet. Era do jornalista Pedro Dória, então bem novinho, que acabara de chegar dos EUA. Eu cuidei do lançamento do livro", lembra.
No mesmo ano, ele foi aos Estados Unidos a serviço de uma editora comprando CD-ROMs, então uma grande novidade, e ouviu falar que já se vendiam livros via internet. "Fiquei curioso, perguntei a um conhecido onde isso acontecia e ele me mostrou o site da Amazon, que tinha três meses de vida. Peguei um avião, voei para Seattle, onde fica a empresa, bati na porta deles e pedi informações. Eles me mostraram tudo, com o maior prazer. Quando voltei para o Brasil, estava decidido a embarcar num projeto assim", revela.
E nasceu a Booknet, inaugurada em dezembro de 1995. "O primeiro e-mail que recebemos foi do então empresário do Chico Buarque, ele dizia: sou brasileiro, vi o site de vocês mas ainda não acredito que isto já exista no Brasil. Vou gastar R$ 12 (o livro mais barato) para ver se é verdade. Se não for, perdi a quantia. Bom dia". Mandamos o livro imediatamente e logo veio outro e-mail: "Não é possível! Existe mesmo!". A livraria virtual durou até setembro de 1999, quando Jack a vendeu para o grupo Garantia e ela se transformou na Submarino.com.

Uma bolha no meio do caminho
No meio da internet tinha uma bolha especulativa. Tinha uma bolha especulativa no meio da internet. Ela aconteceu entre 1998 e 2000, quando surgiram as idéias mais estapafúrdias sobre o lado comercial do ciberespaço e o mercado fez a festa em meio a muitos desastres. Para Aleksandar Mandic, dono do provedor Mandic, essa bolha teve até um lado saudável.
"A bolha foi como uma praga, mas purgou o mercado. Uma praga é ruim porque mata muita gente, mas os fortes sobrevivem. Com isso, saneou-se o mercado, porque havia muita porcaria. Quem tinha produto sem idéia morreu nessa hora", afirma o empresário.
Já para Jack London, o advento da bolha jamais deve ser associado com a tecnologia em si. "Havia naquele momento uma sobra de capital, o mundo vivia uma euforia econômica. Então se aproveitou-se a nova tecnologia para uma enorme injeção de capitais", diz. Para Jack, a bolha podia ter acontecido com qualquer outra coisa. Ele lembra que no século 18, na Holanda, isso aconteceu com as tulipas, que ganharam um valor agregado tal que uma braçada dessa flores passou a valer mais que uma casa em Veneza ou Florença. Foi uma enorme especulação, da mesma forma que ocorreu com a internet.