Notícia

Revista DBO

Muito a se fazer no manejo de esterco

Publicado em 12 agosto 2012

Sensível à questão da sustentabilidade, que inclui a mitigação dos efeitos da emissão de gases que contribuem para o aumento do efeito estufa na atmosfera, a pecuária brasileira tem como desafio ampliar a aplicação de tecnologias que contribuam para esse fim. No que diz respeito à emissão de gases, a criação de bovinos a campo pode ter como contrapartida um maior seqüestro de carbono, via adequado manejo de pastagens. E quando o assunto é terminação em confinamento, há uma forma importante de contribuição: a remoção e o subseqüente processamento de esterco e urina excretados pelos animais. Pesquisa realizada em 2010 pelo Cena – Centro de Energia Nuclear na Agricultura, da Universidade de São Paulo, com patrocínio da Fapesp –Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e apoio da Assocon – Associação Nacional dos Confinadores, revelou que há um enorme campo para se trabalhar nessa área, já que apenas 16% dos animais confinados têm seu esterco adequadamente destinado para o objetivo de menor emissão de gases. A pesquisa foi feita em 73 confinamentos brasileiros dos Estados de SP, GO, MT, MS, MG e RO, com um contingente de 830 mil animais, 30% do total de animais confinados no Brasil em 2010. O trabalho concluiu, num cálculo aproximado, que num confinamento de 90 dias um bovino emite 154 kg de gás carbônico equivalente (C02 eq), que é a medida padrão para unificar as diferentes potências de emissão dos dois principais gases emitidos pelos bovinos – o gás metano, através da eructação e da flatulência, e o óxido nitroso, liberado pela urina e pelas fezes dos animais. Entre 5 e 10% dessa emissão corresponde aos dejetos excretados pelos animais, fiquem eles no curral ou no campo. Se for feita limpeza do curral, a emissão por cabeça cai para 132 kg; com a compostagem, para 116 kg, e com o biodigestor, para apenas 70 kg de CO2 eq. Isto porque esses procedimentos fazem com que se retenha nitrogênio no sistema, reduzindo as emissões para a atmosfera.

PESO DO BRASIL – E por que esses dados são importantes? Primeiro, porque o Brasil é o segundo maior produtor de carne bovina do mundo, respondendo, em 2011, por quase 17% da produção mundial; segundo, porque, numa estimativa até conservadora, projeta-se, até 2030, um crescimento de 30% tanto no número de cabeças abatidas quanto no de confinadas. Isso significaria, respectivamente, 53 milhões e 4 milhões de cabeças (para números atuais de 41 milhões e 3 milhões, respectivamente). “Para neutralizar os efeitos que esse crescimento terá na emissão de gases por parte do Brasil, será preciso mudar o quadro atual de manejo de dejetos”, diz o químico Ciniro Costa Júnior, que tem nessa pesquisa sua tese de doutorado pelo Cena/USP. Numa simulação feita pelo centro da ( USP, se todos os confinadores brasileiros adotassem a técnica da compostagem, por exemplo, aqueles quatro milhões de cabeças seriam responsáveis por uma emissão de gases 24% menor do que se nada for feito até lá; com limpeza do curral,com posterior amontoamento do esterco, a emissão seria 14% menor, e com a utilização de biodigestores, a redução aumentaria para 45%. Segundo Ciniro Costa, se for feita compostagem em todos os confinamentos brasileiros será possível aumentar em 1 milhão o número de cabeças confinadas, mantendo-se o mesmo nível de emissão de gases dos 4 milhões de animais confinados com o quadro atual de remoção de resíduos. Por outro lado, aqueles que se dispuserem a trabalhar nessa questão poderão usufruir de benefícios hoje prometido pelo chamado mercado de créditos de carbono. Segundo Ciniro, uma conta aproximada aponta que uma tonelada de CO2 equivalente deixada de ser emitida na atmosfera valha US$ 15. Assim, no cenário de utilização da compostagem como técnica de aproveitamento de esterco, os confinamentos brasileiros poderiam auferir urna renda de aproximadamente R$ 4 bilhões, valor que pode ser dobrado se a técnica adotada for a dos biodigestores. Ciniro informa que ainda faltam pesquisas mostrando a viabilidade econômica da introdução dessas diferentes tecnologias, algo de fundamental importância para que os produtores adotem com efetividade práticas de manejo de dejetos com poder de mitigação dos gases de efeito estufa. “Isso permitiria estimular o produtor a adaptar a melhor alternativa à sua propriedade, de forma a associar sua necessidade (economia com fertilizantes e energia elétrica) e interesse pela tecnologia, já que no caso da introdução de biodigestores, além de o pecuarista ser um produtor de carne, pode ser também fornecedor de energia”, diz ele. Compostagem e biodigestão são as técnicas mais apropriadas quando o assunto é redução na emissão de gases do efeito estufa.

ECONOMIA DE CUSTOS – De maneirageral, a aplicação de alguma técnicapara aproveitamento do esterco deum confinamento tem como objetivoprincipal a economia de recursos comfertilizantes, sejam eles aplicados napastagem ou em outras culturas. Mashá casos onde a preocupação maior éa questão ambiental. Esse é o caso doConfinamento Estiva, de Novo Horizonte,cidade situada na região centraldo Estado de São Paulo. Pertencente aoGrupo W.J. de Biasi e localizado dentroda área da usina de cana de açúcar SãoJosé da Estiva, o confinamento terminaanualmente entre 18 e 19 mil cabeçasde gado, em dois turnos, o que gera umvolume aproximado de 8.500 toneladasde esterco (4,5 kg/animal/dia x 100 diasde confinamento). Desde 2007 o grupo vem utilizando esse material na forma de com postagem, que é produzida a partir do recolhimento, uma vez por ano, ao final do segundo turno de engorda, do esterco dos currais. “É uma região de concentração de usinas e a destinação dos resíduos para um fim não agressivo ao meio ambiente é uma preocupação constante”, diz o zootecnista Thiago Quadros Maluf Pereira, supervisor de confinamento da São José da Estiva. Segundo ele, o simples amontoamento do esterco poderia ocasionar infiltração de chorume no lençol freático e contaminá-lo. Por isso, após processado na forma de com postagem, o material é utilizado como fertilizante em 30% da área de lavoura da usina, que também lança mão da vinhaça para adubar a área de milho para silagem (grão úmido) dos animais do confinamento. Pereira informa que o esterco é primeiramente acumulado no centro de cada curral, onde cabem lotes entre 150 e 170 animais, com o auxílio de um trator com lâmina traseira. Depois, esses montes são removidos por pás- -carregadeiras e despejados em caminhões, que os transportam ao pátio de com postagem. Ali o esterco é acrescido de resíduos da indústria açucareira, como torta de filtro e cinzas, esterco de galinhas poedeiras (adquirido de terceiros) e cloreto de potássio e passa por um período de descanso que pode variar de 40 dias (quando adicionados microorganismos aceleradores do processo de fermentação) a 60 dias. “O principal beneficio para a indústria é a redução de custos, justamente pela redução do fertilizante comprado. E o custo operacional da remoção de esterco dos currais – basicamente o valor da hora-máquina dos equipamentos (16 horas em média) – é nulo, pois entregamos o esterco para o setor agrícola em troca da mão-de-obra de limpeza dos currais. Mas para o Grupo W.J. de Biasi também é fundamental contribuir, com seu exemplo, para a formação de uma legislação específica que garanta o compromisso ambiental com a sociedade”, diz o supervisor da São José da Estiva, que também dá destinação adequada à urina dos animais do confinamento, captada por caixas de contenção e usada, através de sistemas de irrigação e motobombas, como fertilizante líquido nas áreas de pastagem próximas ao confinamento.

No caminho certo

A pesquisa sobre manejo de dejetos em confinamentos brasileiros foi apresentada por Ciniro Costa Jr. durante o Workshop BeefPoint de Pecuária Sustentável, realizado em São Paulo nos dias 11 e 12 de julho. Seguindo o formato desse tipo de encontro (foi o sexto evento promovido pelo BeefPoint), foram realizadas 20 apresentações, envolvendo em sua maioria pecuaristas, mas também especialistas, ambientalistas e representantes de governo. Entre as manifestações dos presentes destaca-se a de que o Brasil – que já conta com 10 experimentos de campo para mensurar a emissão de gases de efeito estufa por parte da agropecuária – está no caminho certo ao aumentar a produtividade (mais carne, de animais mais jovens, por unidade emitida), uma vez que a emissão de gases como o metano faz parte da biologia do bovino e não pode ser simplesmente suprimida. Outra conclusão é que mais importante que a emissão é o balanço positivo do sistema, ou seja, promover práticas que aumentem o seqüestro de carbono no ambiente. Nesse sentido, segundo Davi Teixeira dos Santos, diretor executivo do Serviço de Inteligência em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ainda há um desequilíbrio entre a quantidade de dados sobre emissão (muitos) e sequestro (poucos).