Notícia

Gazeta Mercantil

Muita sociologia, pouca matemática

Publicado em 22 março 2006

Por Leonardo Trevisan
No ano passado, só 283 pedidos de registro de patentes foram feitos por brasileiros. Os empresários já perceberam bem o tamanho da encrenca: os números da presença brasileira entre os países que mais contam nos negócios internacionais não melhoraram em 2005. A questão não está na passageira felicidade do saldo comercial obtido, como já notaram até o ministro do Desenvolvimento e o da Agricultura. O problema é outro. E aparece quando o Brasil fica em 27 lugar no ranking de pedidos de patentes, atrás da África do Sul. Convém lembrar que ainda somos o 11 PIB no mundo. Segundo levantamento feito em 128 países pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI), só 283 pedidos de registro de patentes foram feitos por brasileiros, só 0,7% a mais que em 2004. A China, sempre ela, aumentou 43,7%, alcançando 2.452 pedidos, passando o Canadá e ficando em 10 lugar, longe ainda do 1, os EUA, com 45.111 pedidos. A revista Pesquisa FAPESP de março (nº 121) divulgou detalhes desse ranking, com o Japão em 2, 25,1 mil patentes, seguido da Alemanha, 15,8 mil, da França, 5,5 mil, e da Inglaterra, 5,1 mil. Coréia do Sul registrou 4,7 mil. Entre os emergentes, Cingapura tem quase o dobro de patentes do Brasil e a África do Sul fez 336 pedidos. Porém, o Brasil é mesmo a terra dos contrastes. Estudo do Iedi que avaliou exportações segundo a intensidade tecnológica e a qualificação da mão-de-obra revelou que a composição dos setores exportadores mudou no ano passado. O Iedi mostrou que setores com indústria intensiva em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) aumentaram em 10% sua contribuição para o crescimento das exportações em 2005, comparado a 2004. Os setores de baixa e média intensidade tecnológica, porém, perderam espaço na pauta, recuando de 78% para 70% entre 2004 e 2005. Como conciliar esses dois fatos: não registramos muitas patentes mas avançamos na exportação com maior valor agregado? Análise do Ipea (publicado na revista do instituto, Desafios, n 20) mostrou que em 2005 os produtos de alta tecnologia exportados totalizaram 7,41% da pauta, mas muito concentrados: aeronáutica, 3,11 do total, telecomunicações, 2,8%, farmacêutica, 0,6%, instrumento de ótica, 0,4%, material de informática, 0,4%, e acabou. O fato real: 29% dos produtos industriais exportados são de baixa tecnologia, segundo o Ipea. Patente mexe exatamente com isto: melhora a exportação de produto com pouca tecnologia. Aqui está o negócio e o emprego. Os chineses e os americanos sabem muito bem disso. Para aumentar exportações sem vender só produto primário precisamos de mais patentes. Qualquer um que é do ramo sabe que as melhores universidades brasileiras produzem muito "paper" e pouca patente, por muitas razões. A maior delas é nosso velho ranço bacharelesco, de muita sociologia, pouca matemática e nenhuma geração de tecnologia. O setor educacional privado reclama que agora falta aluno, mas não toca nesse assunto. As universidades públicas fogem disso mais que o diabo da cruz. O pior é que os políticos seguem na mesma rota de fuga. Inclusive os candidatos a presidente. O que é mais grave, porque sinaliza que pouco vai mudar nos próximos anos.

Leonardo Trevisan — Editorialista
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