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Mudou o café para sempre: nova técnica descoberta por cientista transforma bebida ruim em gourmet (30 notícias)

Publicado em 15 de julho de 2025

Novo estudo mostra transformação na qualidade da bebida após processo simples No universo dos cafés especiais, apenas os grãos de altíssima qualidade têm vez.

Para conquistar esse selo, é necessário atingir no mínimo 80 pontos nas avaliações sensoriais feitas por especialistas — qualquer sinal de defeito, como mofo, quebra, picadas de insetos ou imaturidade, costuma ser motivo de descarte.

Tradicionalmente, o grão verde — fruto ainda não maduro — é considerado um dos principais vilões da qualidade, responsável por sabores ásperos, secos e desagradáveis. No entanto, uma nova pesquisa brasileira pode mudar essa percepção de forma radical.

Cientistas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no campus de Patos de Minas (MG), comprovaram que é possível produzir café especial mesmo com a presença de grãos verdes. A descoberta veio por meio da aplicação de um processo de fermentação específico, testado com a variedade Arara, uma cultivar de café arábica.

O estudo, publicado na renomada revista Food and Bioprocess Technology, revela que a fermentação controlada é capaz de transformar a bebida, mascarando os efeitos negativos dos grãos verdes e, em alguns casos, até superando os sabores dos cafés tradicionais.

Fermentação que valoriza o produto

A técnica utilizada pelos pesquisadores é chamada de fermentação anaeróbica autoinduzida (SIAF). Nela, os frutos do café — maduros e verdes — são armazenados em barris fechados, sem entrada de oxigênio, por até 96 horas logo após a colheita.

Durante esse período, os microrganismos naturais do próprio fruto atuam no processo, modificando a composição interna dos grãos. Essa transformação tem impacto direto no sabor e no aroma da bebida final.

Segundo Luiza Braga, principal autora do estudo, “a técnica ajuda a disfarçar os efeitos negativos dos grãos verdes e ainda adiciona complexidade ao perfil sensorial”. Ela ressalta que a simplicidade do método permite que ele seja feito na própria fazenda, elevando o valor agregado do café antes mesmo da torra.

Grãos verdes, notas altas

Os cafés produzidos com a técnica foram submetidos a avaliações feitas por profissionais certificados, conhecidos como Q-graders. Mesmo com a inclusão de até 30% de grãos verdes nas amostras, algumas obtiveram pontuação superior a 80 pontos — o mínimo exigido pela Specialty Coffee Association (SCA) para serem classificados como especiais.

A coordenadora da pesquisa, professora Líbia Diniz Santos, explica que a prática ainda é pouco comum, mas desperta interesse entre os produtores. “Tem muita gente querendo aprender mais sobre a fermentação porque ela melhora o sabor e pode aumentar o valor final do café”, disse à Agência FAPESP.

Tecnologia e inteligência artificial no processo

Além da técnica fermentativa, os pesquisadores desenvolveram um sistema eletrônico para monitorar o processo em tempo real. Com sensores que medem pH e temperatura, é possível acompanhar a fermentação sem abrir os barris. Quando mantida a temperatura ambiente em 27?°C, os cafés fermentados apresentaram desempenho superior, mesmo em comparação com lotes feitos apenas com grãos maduros.

Outro dado revelado pelo estudo, com auxílio de inteligência artificial, mostra que cerca de 70% dos frutos colhidos estavam verdes. Ainda assim, após a seleção rigorosa, as amostras continham entre 13% e 30% de grãos imaturos — o que ainda permitiu alcançar notas elevadas. Acima disso, os defeitos sensoriais voltam a se destacar, mesmo com a fermentação.

Agora, o próximo passo dos pesquisadores é entender quais compostos químicos formados durante a fermentação são responsáveis pela melhoria do sabor. A equipe também pretende aplicar a técnica em outras variedades além da Arara, que já é conhecida pela resistência a doenças e por seu perfil com notas cítricas e corpo denso.

A conclusão do estudo é clara: com técnica e ciência, até mesmo grãos antes considerados defeituosos podem dar origem a cafés de excelência.