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Mudar é mais fácil do que evoluir

Publicado em 13 novembro 2008

Por Fábio de Castro

Agência Fapesp

Em suas pesquisas, o professor Michael Donoghue, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade Yale, nos Estados Unidos, procura entender por que existem mais espécies em certas áreas do planeta e quais são os fatores ecológicos e evolutivos que explicam os padrões de distribuição dos organismos.

De acordo com o biólogo, unindo os estudos sobre biodiversidade e evolução será possível compreender melhor essa dinâmica e fazer previsões sobre os futuros impactos das mudanças climáticas na distribuição das espécies. Donoghue também é diretor do Museu Peabody, fundado em 1866, um dos mais antigos museus de história natural no mundo.

Os estudos do norte-americano indicam que, quando uma mudança climática ocorre em determinado ambiente, a evolução pode se encarregar da adaptação das espécies locais. Mas é mais provável, de acordo com ele, que a área vá receber novas espécies, já adaptadas ao novo clima em outros locais – contanto que existam corredores que permitam essa migração.

O problema, segundo ele, é que a ação humana causou uma fragmentação da paisagem sem precedentes, dificultando a comparação com períodos anteriores de mudanças climáticas. Esse problema, aliado à escassez de dados biológicos, torna as previsões extremamente difíceis.

Em visita ao Brasil para participar do simpósio “Biologia evolutiva e conservação da biodiversidade: aspectos científicos e sociais”, na sede da Fapesp, em São Paulo, Donoghue concedeu à Agência Fapesp a seguinte entrevista:

- Um dos focos centrais de seu trabalho é compreender por que existem mais espécies em algumas áreas do planeta do que em outras. Por que é tão difícil entender essa distribuição?

Há muitos anos estudamos a biodiversidade, mas ainda temos muito poucos elementos para responder a perguntas como essa. Por exemplo, não sabemos quantas espécies existem na Terra. Na realidade, não temos a menor idéia. Há cerca de 1,8 milhão de espécies descritas, mas estima-se que existam mais de 10 milhões ainda desconhecidas. Não conhecemos, provavelmente, mais que 10% ou 20% do total das espécies na Terra. Então é muito difícil responder a esse tipo de pergunta, porque nosso conhecimento é muito limitado.

- Também não há dados suficientes sobre a distribuição das espécies conhecidas?

Sabemos muito pouco sobre isso. Se eu apontar para um animal específico e perguntar onde aquela espécie está distribuída na Terra, a resposta mais freqüente será “não se sabe”. Não temos um inventário integrado que dê uma boa noção de onde os organismos vivem. Isso é especialmente verdadeiro para microrganismos. Temos realmente muito pouca noção de quantas espécies de microrganismos existem e onde elas estão distribuídas. Tentamos responder a essas questões muito amplas e temos que lidar com muitas lacunas de informação. Há muita informação básica que simplesmente não temos.

- Por que seria importante responder a esse tipo de questão?

Se pudermos determinar com mais precisão o número de espécies e onde elas vivem, talvez possamos ter melhores respostas sobre as mudanças que elas sofrerão no futuro. Esse tipo de informação nos colocará em posição muito melhor para fazer previsões sobre o futuro da biodiversidade.

- Que tipo de pesquisa precisa ser feita para compreender por que há mais espécies em determinados lugares do planeta?

Para explicar os padrões de biodiversidade é preciso conectar diversas áreas do conhecimento, unindo especialmente a biologia evolutiva e a ecologia. Precisaremos saber o máximo que pudermos sobre a ecologia desses organismos, mas também sobre sua história evolutiva, em que lugares suas linhagens tiveram origem e por quanto tempo ocuparam determinada área. Para construir essa biogeografia histórica, temos que unir muitos métodos diferentes – moleculares e ecológicos – que precisam ser integrados. A combinação dessas informações provavelmente dará as melhores respostas.

- Essa combinação nunca foi feita?

Até agora, ao observar a biodiversidade, os padrões de distribuição e por que há mais espécies nos trópicos, a ênfase tem sido dada principalmente nas características ecológicas. O que estamos tentando fazer é trazer essas informações para a história evolutiva. E acho que isso pode dar um quadro mais refinado.

- Além do inegável avanço científico, essa combinação de conhecimentos teria implicações importantes para a aplicação?

Tem imensas implicações, porque neste momento estamos enfrentando vários desafios ambientais. Temos a destruição dos hábitats, o desmatamento, espécies invasoras de diferentes áreas e as mudanças climáticas globais. Tudo isso terá efeito sobre a biodiversidade e sua distribuição. E isso é muito importante de entender. Gostaríamos de fazer previsões sobre o que acontecerá com a biodiversidade onde houver mudanças climáticas. Os organismos vão apenas se mudar, outras espécies vão se extinguir, outras vão se originar? É o tipo de questão que teremos que responder.

- O conhecimento sobre períodos anteriores de mudanças climáticas também pode contribuir para tornar essas previsões mais precisas?

É claro que no passado houve vários episódios de mudança climática e, portanto, esse conhecimento nos dará condições de começar a ter alguma idéia sobre as conseqüências que podem ocorrer. Mas a tarefa de fazer previsões atualmente é mais difícil do que nunca, porque estamos em um momento crítico. O ser humano construiu cidades e expandiu a agricultura, fragmentando a paisagem em um nível inédito. Isso dificulta qualquer analogia com o que ocorreu anteriormente. Mesmo melhorando o conhecimento do passado será mais difícil projetá-lo para o futuro.

- Seus estudos indicam que é mais fácil para as espécies mudar de lugar do que evoluir. Poderia explicar essa idéia?

Se isolarmos uma montanha, fechando suas bases, as espécies que vivem na parte baixa podem evoluir e criar habilidades para viver no topo. Essa seria uma maneira de se ter novas espécies no topo da montanha: elas fariam adaptações. Isso certamente ocorre. Mas, com freqüência, o que acontece é que os organismos já estão adaptados a viver em um clima semelhante, mas desenvolveram essas adaptações em algum outro lugar. E aí eles simplesmente se mudam e tomam posse da nova montanha, antes que os organismos tenham chance de ir para cima. Os estudos mostram que é mais fácil mudar para uma área que desenvolver adaptações.

- Por que esses organismos mudam de ambiente?

Algumas das mudanças são apenas por acaso, são circunstanciais. Mas na maior parte das vezes trata-se de mudança climática. Os climas estão mudando e há novos ambientes ficando disponíveis. Quando há a origem de uma nova montanha, também temos um novo ambiente. E se os organismos tiverem um corredor disponível, alguma passagem para alcançar esse novo ambiente, eles se mudam para lá e assumem o local. A questão então é: qual é o balanço, o equilíbrio entre as mudanças e as adaptações dos organismos? Isso é muito crítico também para se fazer previsões sobre o futuro. Quando o clima muda, há uma evolução rápida para se adaptar ao novo clima, ou há simplesmente um remanejamento de organismos para outras áreas? O que sugiro é que não acontece uma evolução rápida. Em vez disso, os organismos se mudam. Mas para isso é preciso que haja um corredor. E agora os humanos estão tornando isso difícil porque estamos fragmentando a paisagem natural.

(Agência Fapesp, 13/11)