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Mudanças climáticas: relatório nacional pede descarbonização

Publicado em 19 abril 2013

Por Sucena Shkrada Resk

O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) apresentou, nesta semana, o resumo preliminar do 1º Relatório Nacional sobre Mudanças Climáticas do país, que teve a participação de 356 cientistas. A versão final será divulgada em 9 de setembro de 2013. Em novembro, o relatório deve ser apresentado pelo governo brasileiro na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 19), que será realizada a em Varsóvia, na Polônia.

O documento está dividido em três volumes: de base científica; de Impactos, Vulnerabilidade e Adaptação; e de Mitigação (redução de danos) e traz como novidade a divisão por biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal). A avaliação sinaliza a necessidade empenho do Brasil para a adoção de matrizes energéticas mais limpas, eficiência energética e mudança do uso do solo, como também ações efetivas de adaptação e mitigação. O documento também alerta para ações mais efetivas na Caatinga e nos manguezais. Esses últimos são considerados a primeira linha de defesa nos sistemas costeiros litorâneos.

Com a exploração do Pré-Sal, há o indicativo do aumento de emissões de gases de efeito estufa. A recomendação dos cientistas é que esse aspecto seja avaliado, tendo em vista que o nível de desmatamento na Amazônia vem reduzindo gradativamente. Na área de transportes, o levantamento aponta o grande impacto do modal rodoviário. "Há a necessidade da mudança do modal de transportes e maior utilização dos biocombustíveis", disse Mercedes Bustamante, da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência e Tecnologia e uma das coordenadoras do relatório na área de Mitigação. Ela alertou que em grande parte do Brasil há ainda o consumo de lenha no setor residencial e queima de resíduos na agricultura, o que precisa ser reduzido.

Para baixar as emissões brasileiras, devem ocorrer ações em diferentes setores da economia, sugere o relatório. Na agricultura, por exemplo, recomenda-se a adoção correta de fertilizantes minerais nitrogenados e, de uma maneira geral, o incentivo contínuo ao consumo sustentável.

A orientação dos especialistas é que nas contas nacionais sejam contabilizados os passivos ambientais e que seja mais bem utilizado o potencial do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), criado a partir do Protocolo de Kyoto. O dispositivo permite que os países desenvolvidos (e mais poluidores) possam financiar projetos em países em desenvolvimento que contribuam para a diminuição das emissões.

"Não se observa a descarbonização no Brasil e no restante do planeta", alertou Mercedes Bustamante. "No segundo rascunho do processo de revisão do 5º relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), avalia-se que é praticamente impossível que o aumento esperado na temperatura global seja de apenas 2 graus na média com relação ao nível pré-industrial", devendo ser maior que isso. O documento deverá ser divulgado até o início de 2014.

Segundo o engenheiro agrícola Eduardo Assad, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e um dos responsáveis pelo painel Impactos, Vulneralidade e Adaptação, não é possível manter a predominância somente de fontes hídricas e fósseis: "O etanol não compete com os alimentos e não está sendo prestigiado como solução de grande escala", disse o pesquisador no evento de lançamento do Painel, realizado dia 18 de abril no auditório da Fapesp, em São Paulo.

Assad avalia ainda que o Brasil tem o desafio de superar a vulnerabilidade na infraestrutura urbana, tendo em vista que nos próximos anos os indicadores apontam que haverá o aumento da migração para as cidades, o que exige melhor planejamento. Mais um alerta feito pelo pesquisador é quanto ao comprometimento dos biomas. "Discute-se muito a situação da Amazônia e do Cerrado e, comparativamente, pouco do Nordeste, que será a região mais atingida". O pesquisador acrescentou que há necessidade de se estudar mais os aquíferos (reservatórios de águas subterrâneas) Guarani e o de Alter-do-Chão.

Os dados mais recentes sobre a mudança e uso da terra dos biomas registram que 47% da área original do Cerrado está convertida para pastos e agricultura e/ou desmatadas, ou seja, não tem mais os aspectos originais. No caso da Caatinga, esse percentual é 44%; do Pantanal (15%); do Pampa (59%) e da Mata Atlântica (88%). Esse cenário, segundo ele, dificulta a recuperação.

O pesquisador afirma que atualmente a Embrapa e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estudam algumas plantas do Cerrado que são resilientes às mudanças climáticas. Entre elas, o pau-terra de folha miúda e de folha grande, a sucupira-preta e o pacari.

No aspecto científico, o professor Titular do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), Tércio Ambrizzi, que coordena a base científica do relatório, explicou que o documento agrega em suas informações dados paleoclimáticos (desde a pré-história). "Dessa forma, é possível entender melhor as variabilidades", explicou.

Mais informações sobre os três volumes são encontradas em arquivos no site do PBMC.