Notícia

Inovação Tecnológica

Mudanças climáticas no Brasil são discutidas em novo livro

Publicado em 05 dezembro 2008

Por Fábio de Castro

Como se dão as alterações climáticas atualmente em curso no planeta? Como a vida responderá a elas? Quais serão, especificamente, seus efeitos nas plantas, animais e ecossistemas brasileiros?

Biólogos, climatologistas, agrônomos, jornalistas e um compositor foram convidados a discutir criticamente essas questões sob múltiplas dimensões do conhecimento humano. O resultado é o livro Biologia & Mudanças Climáticas no Brasil, lançado ontem em São Paulo.

Conceito de Gaia

Organizado por Marcos Silveira Buckeridge, professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP), o livro, impresso em papel reciclável, está dividido em blocos correspondentes às dimensões atmosférica, botânica, zoológica, ecológica e humana.

Segundo Buckeridge, cada uma das cinco dimensões apresenta o assunto de um ponto de vista distinto, mas todas se articulam e se contextualizam no conceito de Gaia - hipótese apresentada pelo britânico James Lovelock segundo a qual a Terra é um sistema complexo e integrado, semelhante a um imenso ser vivo.

Importância dos processos biológicos

"Os autores - todos eles nomes de peso em suas áreas - traçaram uma série de cenários sobre a importância dos processos biológicos para as mudanças climáticas. Procurei integrar as diferentes dimensões utilizando a abordagem de redes e a biologia de sistemas. A teoria de redes é uma das melhores formas de avaliar como estamos afetando o sistema Gaia", disse Buckeridge à Agência FAPESP.

O professor, que é um dos criadores da seção de Biomassa do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN) e um dos coordenadores da área de biologia da Fundação, explica que a edição teve um cuidado especial com a linguagem, atendendo ao rigor científico, mas com a preocupação também em atingir o grande público.

"A intenção era fazer um livro que não apenas descrevesse os problemas, mas que apontasse soluções de forma crítica, de modo a atingir o público leigo e os tomadores de decisões. Para isso, usamos a linguagem intermediária da divulgação científica", disse.

Dimensão humana

A obra deu importância central à questão da relação entre conhecimento científico e comunicação. "Na seção sobre a dimensão humana nos preocupamos muito com a interação entre cientistas e jornalistas, que é crucial. A mudança climática passa por um problema de qualidade da informação, já que ela é o elo entre o conhecimento e os processos decisórios. É um elo fundamental dessa rede ecológica de interações", afirmou.

Segundo Buckeridge, a obra se inicia com uma abordagem macro, com a dimensão atmosférica. "Essa seção explica primeiro as bases científicas que levam a crer que as mudanças climáticas estão ocorrendo, depois mostra como os ciclos biogeoquímicos conectam o clima e a vida do planeta, formando Gaia", disse.

Em seguida, a obra entra em níveis de organização biológica mais reduzidos: botânica, ecológica e zoológica. Depois disso, vem a dimensão humana que, além da divulgação científica, aborda os efeitos da mudança climática sobre a saúde humana e a agricultura.

Música e meio ambiente

"Para fechar o livro, o compositor erudito brasileiro Harry Crowl discute as relações da música com o meio ambiente, de modo a ressaltar que a linguagem artística também é uma forma de comunicação e faz parte da dimensão humana do conhecimento", disse Buckeridge.

Segundo ele, Crowl, que compôs a obra Tropicus interemptus exclusivamente para o tema do livro, analisa de forma criativa as relações entre o meio ambiente e a música erudita, desde a famosa obra Quatro Estações, de Antonio Vivaldi, até os dias de hoje.

Volume dois

Fundador e diretor do Laboratório de Fisiologia Ecológica de Plantas (Laifeco), no IB-USP, Buckeridge é pioneiro em experimentos sobre a resposta das plantas às mudanças climáticas e às emissões de dióxido de carbono.

Segundo ele, o livro começou a nascer a partir das importantes descobertas desencadeadas naquela época. "O livro foi feito com apoio do Biota-FAPESP no início e, posteriormente, do Ministério da Ciência e Tecnologia. Quando o coordenador de Mudanças Climáticas do ministério, José Miguez, conheceu nosso laboratório, propôs um projeto. Incluímos na proposta a idéia de montar o livro."

Buckeridge explica que 50% da renda gerada pela venda do livro será utilizada para a edição de um segundo volume, que já está sendo produzido por autores convidados.

Opiniões críticas

"As questões relativas ao aquecimento global ganham importância em escala exponencial e há cada vez mais mobilização da comunidade científica para estudar esse tema essencialmente multidisciplinar. Portanto, sabíamos que havia potencial para uma série. Mesmo porque as opiniões expostas no livro são críticas e os capítulos, às vezes, não concordam necessariamente uns com os outros. A obra está longe de ser exaustiva", destacou.

Entre os mais de 40 autores presentes no livro, há nomes como Paulo Saldiva, do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, André Trigueiro, âncora da GloboNews e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Carlos Fioravanti, editor especial da revista Pesquisa FAPESP, Carlos Afonso Nobre, José Marengo e Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Phillip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Luiz Antonio Martinelli, do Centro de Energia Nuclear da USP, e Célio Haddad, do Departamento de Zoologia da Universidade Estadual Paulista.