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Mudanças climáticas e os impactos mundiais em alerta

Publicado em 03 novembro 2008

Por Erica Guimarães

Pesquisador afirma que o mundo deve assumir um compromisso de reduzir 80% dos gases poluentes.

Vendavais, tempestades, raios, descargas elétricas, ondas de calor, umidade relativa do ar, seca, estiagem e furacões são alguns fenômenos meteorológicos provocados pelas mudanças climáticas. Os impactos causados por gases poluentes do efeito estufa podem afetar o ar, a água, o solo e, conseqüentemente, todo o ecossistema do planeta. "É importante que os países emergentes – e sobretudo o Brasil – assumam uma posição de liderança para se adaptar às mudanças climáticas", destaca Martin Parry, co-presidente do grupo de trabalho do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e responsável pelo relatório "Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade". Porry esteve na última quinta-feira (30), na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Programa de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais, que tem como objetivo estimular a pesquisa sobre o tema.           

O tema mudanças climáticas ganhou visibilidade através deste relatório que trouxe a discussão dos impactos ambientais e o valor das mudanças climáticas, mas, de acordo com Parry, a dimensão dos impactos é empírica, e não poética. "Quando comecei a pesquisar o tema, acreditava que o impacto do clima iria afetar meus netos, mas os efeitos são visíveis em todos os continentes e já começam a aparecer." No relatório do IPCC, concluído em 2007, contatou-se que aproximadamente 30% das espécies de árvores serão extintas do mundo e o descongelamento das geleiras colocam em risco aproximadamente 3 milhões de pessoas por ano. O potencial de produção dos alimentos também pode sofrer grandes riscos com a seca. A pesquisa mostrou ainda que, na saúde, doenças cardiorrespiratórias, desnutrição, infecções, diarréias serão comuns se não houver atitudes para adaptação.

E até nas mudanças climáticas a desigualdade social fala mais alto: o principal grupo de risco é composto por pessoas com menor renda, marginalizadas, social e politicamente. "Estima-se que existam aproximadamente 15 bilhões de pessoas com risco de morte por enchentes", diz Parry. E as mudanças climáticas poderão aumentar ainda mais as desigualdades.

Parry acredita que as decisões precisam ser rápidas e de forma coletiva, pois os países desenvolvidos deverão cortar mais os gases poluentes enquanto os menos desenvolvidos cortam menos. "O ideal seria 80% de redução para evitar conseqüências graves no mundo", aponta. A demora, de acordo com ele, pode gerar problemas irreversíveis e de grandes proporções mundiais.

Na América Latina, o potencial de extinção do cerrado brasileiro é de aproximadamente 25% e as espécies das árvores da Amazônia serão extintas em 45%, de acordo com o relatório. Estima-se também que 180 milhões de pessoas na América Latina irão sofrer com a falta de água. "Os impactos mais relevantes virão da água", acrescenta Perry.

A pesquisa já traçou o cenário para os próximos 20 ou 30 anos. "O planeta vai continuar aquecendo numa taxa de 0,2º por década. Com esse ritmo, no Brasil, a temperatura subirá de 0,5º a 1º nesse futuro próximo. Havendo estabilização das emissões, o aumento será de 2º ou 2,5º até o final do século.

Crise econômica e consumo sustentável

Parry acredita que se a atual crise econômica permanecer, a tendência seguirá em direção da diminuição da emissão dos gases poluentes, mas, por outro lado, corre-se o risco de não serem desenvolvidos planos para as mudanças climáticas nem que exista consenso político sobre o tema.

"Quem causou esta bagunça?", indaga Parry, referindo-se ao aquecimento global. Ele enfatiza que não se devem procurar culpados, pois a adaptação deve ser uma ação global a ser realizada o mais rápido possível.

Para Parry, será inevitável a adaptação das empresas. "As empresas terão que desenvolver um consumo sustentável". Ele admite que a "reforma" deve ter base na mudança da idéia de consumo como produto gerador da felicidade.  "As melhores soluções deverão ser almejadas pelo meio mais sustentável. Mais cedo ou mais tarde, essa idéia vai fazer sentido como modelo de negócios", finaliza.

Vicente Barros, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de Buenos Aires e co-presidente do Grupo 2 do IPCC no Quarto Relatório de Avaliação de 2008 e Carlos Nobre, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro do IPCC, estiveram presentes no evento como palestrante e mediador, respectivamente.

Outras informações

Relatórios completos IPCC

Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais