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Mudança de postura tira China da lista de vilões do fracasso de Doha

Publicado em 30 julho 2008

Chineses tentam concessões para salvar acordo da OMC, sem sucesso

 

Genebra - A atuação da China nas dramáticas negociações da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, acabou evidenciando a emergência do país como um ator importante no tabuleiro do comércio internacional.

A delegação chinesa, liderada pelo ministro do Comércio, Chen Deming - um negociador formado no melhor estilo capitalista de Harvard -, chegou à mesa de negociações com a firme disposição de proteger seu mercado agrícola, postura considerada como um dos principais obstáculos para o sucesso de Doha.  Porém, nas horas finais das negociações, o país mudou de postura, mostrando flexibilidade para tentar salvar a rodada, deixando a imagem de intransigência com Índia e EUA.

Em virtude da crise econômica mundial, forte inflação e riscos financeiros iminentes, o fracasso terá um grande impacto no frágil sistema multilateral de comércio, disse Chen.

A China entrou para a OMC em 2001, negociando discretamente, sem fazer grandes estardalhaços sobre seus interesses.

Hoje, esse país de 1,3 bilhão de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) que representa cerca de 5% da economia global faz os outros sentirem sua presença.

Mandelson vê 'grande peso' no país emergente O próprio comissário de Comércio da União Européia (UE), Peter Mandelson, admitiu que os chineses foram fortes e mais flexíveis, em nome de um interesse maior: o acordo.

Para muitos, é a evidência da emergência de um novo pólo de poder.

“A China, indiscutivelmente, vai ter um grande peso.  Não tenho a menor dúvida.  Ela começou a agir com desenvoltura. Isso é bem-vindo”, afirmou Mandelson.

Para alguns, o fato de a China estar jogando o seu peso nas negociações não só da OMC, mas de outros palcos da economia internacional, é sinal de temor.  O desempenho ultracompetitivo das exportações chinesas explicam por que muitos países emergentes, como Brasil e Índia, estão relutantes a abrir mais seus mercados.  Mas, para o chanceler brasileiro, Celso Amorim, é o contrário: - É bom para o sistema.  O que defendemos sempre aí fora?  Não é multipolaridade?  Tem que ser multipolaridade aqui dentro (da OMC) também.

Segundo o chanceler, a China, nesses nove dias de negociação na OMC, mostrou vontade de negociar e capacidade de reagir.

 

A OMC está de pé e continuará de pé

Bruno Rosa

Na avaliação do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer, o fracasso da Rodada de Doha não esvazia a Organização Mundial do Comércio (OMC).  Para ele, a falta de um acordo não vai prejudicar o Brasil a curto prazo, mas sim a médio prazo, pois os países mais ricos têm maior capacidade de conceder subsídios.

O GLOBO: A existência da OMC pode ser afetada com a falta de acordo na Rodada de Doha?

CELSO LAFER: Houve um fracasso nessa dramática rodada.  Mas, pela importância, serviços que presta e por sua abrangência, a OMC está de pé e continuará de pé.

Esse insucesso é um debilitamento e mostra como é difícil conciliar interesses políticos e internacionais.  A OMC é reflexo do multilateralismo, do qual o Brasil tem se valido nos últimos anos.

Como o Brasil pode ser afetado?

RICUPERO: A alta nos preços dos alimentos e a demanda ajudam as exportações na agricultura.  A preocupação não é a curto prazo.  A médio prazo, a falta de regras vai distorcer o comércio e favorecer países mais competitivos como EUA e Europa, onde há mais recursos para subsídios.  Por isso, Doha é importante.

O caminho é acordo bilateral?

RICUPERO: Há o caminho para acordos bilaterais; porém, só se consegue lidar com nichos de oportunidades, como cotas tarifárias.  A questão é que os subsídios são sistêmicos.  EUA e Europa só vão conter o volume de seus subsídios se houver negociação multilateral.

O Globo