Litoral capixaba tem mais ondas de frio; São Paulo e Rio Grande do Sul enfrentam mais eventos extremos de calor, revela pesquisa da Unifesp
Todo o litoral brasileiro já sofre algum tipo de impacto das mudanças climáticas em relação às ondas de calor e as regiões Sul e Sudeste são as mais afetadas. A conclusão é de um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado pela revista Scientific Reports, do grupo Nature, nesta terça-feira (25). Ao avaliar as temperaturas na região costeira nos últimos 40 anos, eles observaram que a ocorrência de eventos extremos de temperatura quase triplicou no Espírito Santo, com aumento de 188%, dobrou no Rio Grande do Sul e aumentou 84% em São Paulo.
— Está se tornando mais frequente encontrar temperaturas cada vez mais altas nas costas do Sudeste e Sul brasileira. É urgente que as cidades passem a monitorar os dados climáticos para que possam minimizar os impactos, que vão desde a saúde pública até a economia — afirma Ronaldo Christofoletti, um dos autores do estudo e professor do Instituto do Mar da Unifesp.
A análise foi feita em cinco municípios costeiros que possuem base de dados diária e completa para quatro décadas -- São Luís, Natal, São Mateus (ES), Iguape (SP) e Rio Grande (RS).
Os pesquisadores identificaram o litoral do Espírito Santo como a região mais afetada. Além das ondas de calor, foi a única região onde a frequência de ondas de frio tem sido cada vez maior.
No litoral capixaba, há 40 anos ocorriam sete eventos extremos de temperatura por ano. Agora, são 21 registros anuais, tanto de ondas de calor quanto de frio, e elas são mais comuns na primavera e no outono. Em São Mateus, por exemplo, temperaturas máximas acima de 35º aconteceram oito vezes até 1999, cinco na década seguinte, até 2010, e 19 vezes na última década, sendo 15 delas registradas em cinco anos, de 2015 a 2019.
Aquecimento global
Segundo Christofoletti, a região tem sido mais afetada também por ondas de frio devido ao aquecimento global. Com temperaturas mais altas na Antártica, explica, as massas de ar polar têm sido mais frequentes e chegam mais longe.
— Antes essas massas de ar polar chegavam até São Paulo, no máximo no Rio de Janeiro, mas agora chegam atingem o litoral do Espírito Santo com mais frequência — explica o professor.
No Espírito Santo são considerados eventos extremos de frio temperaturas abaixo de 20ºC no verão e 14ºC no inverno. No verão, eventos de extremo calor elevam os termômetros a mais de 34ºC.
Em São Paulo e no Rio Grande do Sul, as ondas de calor, caracterizadas quando as temperaturas acima da média ocorrem por dois dias seguidos ou mais, têm sido os mais frequentes.
No litoral gaúcho, os eventos extremos não passavam de 14 por ano há 40 anos. Agora, são registrados em média 28, o dobro. Além de ocorrerem com mais frequência, as ondas de calor têm sido também mais intensas, tornando as temperaturas mínimas diárias mais altas. Ou seja, o dia refresca menos e não atinge temperaturas tão baixas quanto antes.
Em Rio Grande, a temperatura máxima típica de inverno variava entre 20ºC e 21ºC. Na última década, os termômetros alcançaram valores em torno de 24°C.
Christofoletti afirma que, na prática, isso significa que está cada vez menos frio no Sul, o que pode impactar o turismo e o agronegócio, por exemplo.
Em Rio Grande, as menores temperaturas anuais acontecem em julho. Ao longo do período de 40 anos, as temperaturas extremas do mês variaram entre -0,5ºC a 4,5ºC. Nos últimos dez anos, no entanto, não se observam valores inferiores a 2ºC desde 2012 e desde julho de 2009 não são registradas temperaturas próximas a zero, como ocorria no passado.
— Em toda a costa avaliada, o Rio Grande do Sul foi o único em que detectamos mudança na intensidade do calor — observa o pesquisador.
O estudo foi feito com base em dados da estação meteorológica do município de Rio Grande, no litoral gaúcho, mas têm chamado atenção de todo o país as ondas de calor em outras regiões do estado, inclusive Porto Alegre, com máximas acima de 40ºC. No último sábado, segundo a empresa de meteorologia Metsul, houve grande amplitude térmica, que é a diferença entre as temperaturas mínimas, que ocorrem no amanhecer, e as máximas, registradas à tarde. Em muitas cidades, essa variação foi superior a 20ºC.
Christofoletti explica que, além do aquecimento global, a costa brasileira tem sido impactada pela urbanização acelerada, que suprime árvores e vegetação, criando "ilhas de calor", assim como ocorre em boa parte das cidades do país. Ou seja, além do aumento da temperatura global, há o impacto local sobre as temperaturas.
No litoral de São Paulo, que segundo o professor pode ser extrapolado também para o do Paraná, enquanto na década de 80 ocorria em média dez ondas de calor por ano, entre 2010 e 2019 foram registradas 19, em média, por ano.
No município de Iguape, são classificadas como ondas de calor temperaturas acima de 36ºC no verão e os termômetros passaram a registrar valores acima de 37ºC mais vezes a partir de 2010. Nas décadas anteriores, era raro os termômetros registrarem temperaturas tão altas.
Em Natal e em São Luís, no Maranhão, não houve aumento de frequência em ondas de calor ou frio no período de 40 anos. Segundo Christofoletti, a região recebe menos frentes frias e é mais afetada pelo aquecimento da água do oceano do que pela variação de temperaturas.
— Natal foi o local onde vimos menos impacto, o que muda são apenas as variações abruptas de temperatura, que ocorrem de um dia para o outro, tanto nas mínimas quanto nas máximas — diz.
Em São Luís, segundo o pesquisador, o que mais chama atenção é a amplitude térmica, que tem sido mais frequente e abrange um maior número de dias consecutivos.
O estudo afirma que os impactos das alterações climáticas são especialmente importantes para as zonas costeiras. O oceano pode absorver e armazenar o calor excesso, regulando o clima e reduzindo a taxa de aquecimento, o que explica que a maioria dos estudos se concentrem na elevação do nível do mar ou erosão costeira, por exemplo. Na costa brasileira, porém, os pesquisadores lembram que mais variáveis devem ser acompanhadas, por ser uma região de risco potencial para extremos climáticos devido à sua grande extensão.
Os pesquisadores lembram ainda que as projeções para a América do Sul tropical indicam que noites extremamente quentes serão mais frequentes, enquanto os eventos noturnos frios provavelmente diminuirão. Algumas projeções sugerem ainda, segundo o estudo, um aumento na quantidade de chuva em alguns locais do país, incluindo a região costeira.