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Muco de escargot pode ser útil na indústria leiteira

Publicado em 09 julho 2010

Por Valéria Dias

O muco produzido por escargots, quando aplicado nos tetos de vacas leiteiras, antes e depois da ordenha, apresenta uma ação antimicrobiana superior a do iodo, substância comumente usada por produtores como antisséptico. A grande vantagem do muco é sua proteção contra bactérias dos gêneros Micrococcus sp Staphylococcus sp, principalmente, e também seu efeito hidratador sobre a pele que reveste os tetos.

Muco foi eficaz para reduzir e prevenir a ocorrência de bactérias locais. A constatação é feita em pesquisa da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP. O trabalho foi realizado no Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP), no campus de Pirassununga, pelo médico veterinário Eugênio Yokoya e resultou na dissertação de mestrado "Controle de infecções intramamárias no gado leiteiro usando as propriedades antibacterianas e cicatrizantes do muco de escargots Achatina spp no pré e pós dipping".

De acordo com a orientadora da pesquisa, a professora Maria de Fátima Martins, cerca de 90% dos produtores usam iodo para higienizar as glândulas mamárias das vacas. O uso constante da substância desidrata a pele dos tetos, deixando-os com fissuras que podem ser vias de entrada de microrganismos causadores de doenças como a mastite, infecção que causa enormes prejuízos para a indústria leiteira.

"As mãos dos ordenhadores também sofrem com a desidratação devido ao contato com o iodo. Mas os ordenhadores dos animais em que usamos o muco relataram que suas mãos estavam hidratadas. A substância é rica em alantoína, um regenerador epitelial muito utilizado em cremes de beleza", destaca a professora.

Biofármaco

A substância viscosa produzida naturalmente pela glândula podal (localizada nos pés) dos escargots já é conhecida na literatura científica mundial como um antimicrobiano. "No exterior, existem até xaropes a base desse muco e já foi comprovada a sua ação contra bactérias do gênero Staphylococcus sp. Uma dos achados inéditos deste nosso trabalho é a comprovação de sua ação contra os Micrococcus sp. Isso pode ajudar no uso da substância como um biofármaco", aponta Maria de Fátima.

Ação contra os "Micrococcus sp": achado inédito

Apesar dos resultados positivos da pesquisa, a professora pondera que, por enquanto, o uso comercial do muco de escargots como antisséptico ainda não é viável comercialmente. Na pesquisa do VNP, o muco foi aplicado em 50 vacas, durante 3 meses, antes e depois das três ordenhas diárias. Mas, para isso, foi necessária a extração manual do muco de 300 moluscos a partir do estímulo na glândula podal (que fica no pé), sem necessidade de sacrificá-los. "Numa escala comercial isso se torna inviável", aponta a professora.

Segundo ela, o tempo necessário para extração do muco depende da prática do profissional e também do escargot. "Nesta pesquisa gastamos em média 10 a 15 minutos por molusco. Pretendemos ter alguma iniciativa no sentido de encontrar alternativas para a extração do muco, porém, sempre levando-se em consideração o bem-estar dos escargots", comenta.

Os pesquisadores aplicaram três tipos de tratamento nas vacas: lavagem dos tetos apenas com água, uso do iodo e aplicação do muco de escargots. O gado leiteiro do estudo era proveniente de propriedades rurais do interior de São Paulo das regiões de Leme, Porto Ferreira e Ribeirão Preto.

Após a extração - sempre levando-se em consideração o bem-estar destes moluscos - o muco foi liofilizado (transformado em pó) e reidratado com solução salina para facilitar a aplicação. Os pesquisadores colheram amostras da superfície dos tetos antes e depois da aplicação do muco. Os resultados indicaram que o muco de escargots apresentou um bom controle da microbiota, sendo eficaz tanto para reduzir como para prevenir a ocorrência de bactérias locais.

Perdas econômicas

Segundo a professora, a iniciativa pode ajudar a reduzir as perdas econômicas causadas pela mastite, doença que mais causa prejuízos no setor leiteiro. Há perda de produtividade do animal e devido ao tratamento medicamentoso ocorre o descarte de leite. "Nas grandes propriedades, as perdas chegam a ser de 4.800 litros ao mês. Para o produtor, o prejuízo é de cerca de U$24,00 ao dia por vaca doente", conta.

A professora informa que os estudos na área continuam. Uma das pesquisas, iniciada recentemente, é da médica veterinária Paula Adriane Piccolo Pieruzzi. Ela vai estudar, em seu mestrado, o uso do muco dos escargots como um possível medicamento para o tratamento intramamário da mastite bovina.

A pesquisa de Eugenio Yokoya teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os escargots utilizados são do heliciário experimental do VNP/FMVZ, localizado no campus de Pirassununga, e cuja coordenação técnica é da professora Maria de Fátima Martins. A pesquisa foi apresentada no último dia 21 de maio. O trabalho contou com a participação da professora Mamie Yomaza, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) da USP, que é a responsável pela avaliação histológica do muco de escargots.

(Envolverde/Agência USP de Notícias)