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Correio Popular online

MP apura beneficiamento entre docentes da Unicamp

Publicado em 16 agosto 2016

Por Inaê Miranda

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou um procedimento para investigar a conduta de, ao menos, dois professores da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em composição de bancas examinadoras de pós-graduação. Os docentes também teriam indicado um colega para preencher o cargo de professor doutor na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). À época da indicação, os três eram sócios da empresa Hidrasoft Engenharia e Informática. A denúncia foi feita por outros três professores da Unicamp, que apontam conflitos de interesses e a prática de improbidade administrativa. A Unicamp abriu sindicância para apurar o caso.

Conforme a denúncia feita ao Ministério Público, em concurso realizado em 2008 no Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Poli-USP, dos cinco candidatos, dois foram habilitados, mas apenas o professor Renato Carlos Zambon foi aprovado.

Os professores Paulo Sérgio Franco Barbosa e Alberto Luís Francato, sócios da Hidrasoft, participaram da comissão examinadora que indicou Zambon para preencher o cargo de professor doutor. O documento também aponta que o orientador de doutorado de Zambon, o professor da Poli-USP Mário Thadeu Leme de Barros, também era sócio na empresa Hidrasoft, e sua aprovação no doutorado também tinha os outros sócios na comissão examinadora.

Os docentes que levaram o caso à promotoria — Vinícius Fernando Arcaro, Antônio Carlos Zuffo e André Munhoz de Argollo Ferrão — também reuniram vários casos de alunos orientandos dos professores citados acima aprovados por comissões examinadoras compostas exclusivamente por sócios da empresa Hidrasoft. São pelo menos nove casos. Os professores denunciados foram procurados pela reportagem via telefone e e-mail, mas até o fechamento desta edição não houve retorno.

O caso está sendo investigado pela Promotoria de Patrimônio Público e pela própria Unicamp, que abriu sindicância administrativa. Na denúncia, os professores indicaram uma série ilegalidades conforme as leis e regulamentos ligados ao código de boas práticas científicas da Fapesp, às deliberações do Conselho Universitário (Consu) e ao Estatuto do Servidor da Unicamp, que tratam do conflito de interesses em fazer avançar a ciência e interesses de outra natureza, do princípio da impessoalidade e da ética na relação com o aluno, seu orientador e outros membros da comissão, além de faltas que ferem o decoro.

Denúncias

O advogado do professor Vinícius Arcaro, José Antonio Cremasco, que é também assessor jurídico do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), disse que seu cliente não está fazendo a denúncia contra A ou B, mas contra a situação de irregularidade e “inclusive de favorecimento financeiro, de introduzir a empresa lá dentro (das universidades)”. “A Unicamp é muito rigorosa com relação aos trabalhadores de cargos mais baixos. Têm um rigor excessivo. Mas com relação a esse pessoal de alto nível — docentes — não é tão rigorosa”, comentou.