Notícia

Diário do Comércio (SP)

Movida pela paixão

Publicado em 06 março 2009

O céu não é o limite para a geneticista Juliana Ferreira. O seu trabalho é pioneiro no País: o uso da ciência no combate ao tráfico ilegal de pássaros. Apaixonada pela natureza, a brasileira de 28 anos pode ser considerada um exemplo de mulher contemporânea: engajada, eclética e global. Juliana tem planos de criar no Brasil um laboratório de ciência forense para crimes envolvendo vida selvagem. Campeã pan-americana de natação, ela ainda encontra tempo para praticar snowboarding, ioga e fotografia. O que move Juliana? O desejo de salvar o mundo dela e nosso.

Qual é o seu trabalho?

Meu projeto de doutorado envolve desenvolver marcadores moleculares para quatro espécies de pássaros ameaçadas pelo comércio ilegal: Azulão (Cyanoloxia brissonii), Galo-de-campina (Paroaria do-mincana), Picharro (Saltator similis) e Pixoxó (Sporophila frontalis). Faço viagens a campo para coletar o maior número possível de amostras de sangue e medidas. Paralelamente, coleto amostras do maior número possível de indivíduos dessas espécies apreendidos pela polícia de São Paulo no comércio ilegal. A idéia é ver o quanto as populações dentro de cada espécie são diferentes entre si geneticamente e inferir as mais prováveis origens dos indivíduos.

Qual é a aplicação prática disto?

Aumentaremos o conhecimento sobre nossa biodiversidade. Espero conseguir desenhar um mapa das regiões mais exploradas e fornecer informações ao Ibama e à polícia. As inferências de origem serão mais uma fonte de informação para reintegrar pássaros reabilitados à natureza.

O que despertou seu interesse por este assunto?

Simples, eu quero salvar o mundo! Desde criança, e graças à incrível criação que meus pais me deram, eu sempre tive um senso de justiça e um amor à natureza enorme. Eu sempre soube que queria trabalhar com a natureza e animais. Apesar de amar fazer pesquisa básica, eu sempre quis mais, sempre quis fazer algo que tivesse impacto a curto prazo. Por volta de 2004, eu achei por acaso o site do National Fish and Wildlife Forensics Laboratory (NFWFL) e descobri a "Ciência Forense para a Vida Selvagem", o uso da ciência em um contexto legal em crimes envolvendo a natureza. Na mesma época, conheci o trabalho incrível da ONG SOS Fauna e aprendi mais sobre o tráfico de fauna, principalmente de aves no Brasil. Soube no mesmo instante que era com isso que eu queria trabalhar. Comecei a trabalhar com a SOS Fauna, e pedi um estágio no NFWFL, coisa que normalmente eles não oferecem. Por algum motivo eles acharam que eu estava falando sério quando disse que tinha como objetivo montar um laboratório assim no Brasil e que valeria a pena investir nessa colaboração. Faz quatro anos que trabalhamos juntos.

Como são as condições de trabalho para o pesquisador no Brasil?

São extremamente complicadas, e acho incrível que os pesquisadores brasileiros conseguem realizar pesquisas de qualidade e competitivas internacionalmente. Como competir com o exterior se, além de fazer ciência, temos que gastar mais de 60% do tempo procurando verbas, lidando com prestações de contas, e esperando reagentes e equipamentos chegarem? Além disso, nossos pesquisadores ainda são primariamente julgados com base em números de publicações e não necessariamente pela qualidade delas, o que ao meu ver é um erro crasso que pode alterar os rumos da qualidade da pesquisa no Brasil.

Onde você conseguiu apoio econômico para seu projeto?

Sou extremamente grata às agências financiadoras. Ao iniciar o doutorado, tive bolsa do CNPq e depois troquei para uma da FAPESP. No momento, tenho uma bolsa "sanduíche" da CAPES. Além disso, meu laboratório acabou de ter um projeto aprovado pela FAPESP.

Quais são as dificuldades encontradas para realizar pesquisa de campo no Brasil?

São inúmeras. A falta de financiamento é o principal problema. Muitas vezes a verba não é suficiente nem para as passagens. Além disso, a infraestrutura não é adequada em muitos parques e reservas. Outro obstáculo é que ainda existe no Brasil a ideia de que é normal "tirarmos dinheiro do próprio bolso", isto é, existe a noção de que biólogos vivem de idealismo, e não precisam pagar contas no fim do mês.

O Brasil está no caminho certo na luta em defesa do meio ambiente?

Tenho visto com orgulho o crescimento da conscientização em relação à defesa do meio ambiente, mas muito ainda precisa ser feito. O Brasil tem uma legislação ambiental decente, mas longe do ideal. Por exemplo, a Lei de Crimes Ambientais de 1998 pode ser considerada um retrocesso no tocante ao comércio e à posse ilegal de fauna. O problema não é o que está escrito no papel, mas a capacidade do Estado de aplicar essas leis.

O que precisa ser feito?

É preciso investir em ações de longo prazo, como educação, mas também em ações de curto e médio prazos, como prevenção e repressão. Outro ponto importante é a escolha entre um modelo de exploração de recursos naturais que é claramente insustentável, mas economicamente interessante em curto prazo, e um modelo de exploração sustentável a longo prazo, mas que atualmente não pareça o mais viável em termos econômicos, nem o mais popular para ser adotado próximo de eleições. O que já deveríamos ter aprendido é que, em termos ambientais, "correr atrás do prejuízo" invariavelmente sai mais caro do que a adoção de políticas de prevenção e conservação. Sabendo explorar, os lucros tendem a ser maiores do que os modelos de exploração adotados atualmente. Acredito que a conservação ambiental anda de braços dados com a ciência e com políticas sociais. Se um desses pés do tripé cair, os outros dois não se sustentam.

O seu sonho é criar um laboratório forense para crimes envolvendo vida selvagem no Brasil. Como concretizá-lo?

Minha ideia é montar um laboratório independente, sem fins lucrativos, que colabore e preste serviços a custo zero ao governo. O NFWFL, o único do mundo inteiramente voltado ao uso da ciência nos crimes contra a vida selvagem, está disposto a abrir a sua base de dados e conhecimento, e treinar os profissionais. Além disso, é preciso unificar o discurso entre pesquisadores, polícia e Justiça. Ainda necessitamos de investimentos para montar a infraestrutura inicial e para a manutenção do laboratório.