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Capital Social

Moveleiros queremuma virada no jogo

Publicado em 06 julho 2018

Por Malu Marcoccia e Walter Venturini

A indústria de móveis do Grande ABC prepara-se para florescer novamente. Setor que já esteve no apogeu e deu fama à região até fins dos anos de 1970, quando começou a sucumbir diante de outros pólos moveleiros do País e do furacão inflacionário que varreu a década de 80, a indústria de móveis está de volta.

Não se trata apenas de tentar retomar a dinâmica econômica há muito desacelerada das estimadas 450 empresas que formam o parque produtivo regional e que empregam perto de seis mil trabalhadores. Trata-se de embarcar em iniciativas históricas que podem alterar o cenário do setor, preocupado em reposicionar-se para enfrentar outros pólos que dispararam na corrida pela qualidade e produtividade dos tempos modernos, casos de Bento Gonçalves (RS), Rio Negrinho (SC), Arapongas (PR), Votuporanga (SP), Ubá (MG) e Linhares (ES).

São áreas reconhecidas como pólos moveleiros pela Abimóvel (Associação Brasileira da Indústria de Móveis) e que golpearam sobretudo São Bernardo, que até há duas décadas notabilizava-se como a Capital do Móvel do País por vender diretamente ao consumidor com lojas de fábricas, enquanto outras regiões só produziam para atacadistas.

A sorte do jogo da indústria moveleira local será definida por uma reestruturação que tem como madrinha a Câmara Regional do Grande ABC. Grupo de trabalho do setor moveleiro foi criado no início do ano dentro da Câmara, instância que reúne o governo do Estado, as sete Prefeituras da região, entidades de classe empresariais, sociais e trabalhistas em busca de retomar o desenvolvimento do Grande ABC.

“Somos uma das vocações econômicas da região e queremos mostrar que mudamos de cara, mas não morremos” – afirma o presidente do Sindicato da Indústria de Marcenaria de São Bernardo, Hermes Soncini, no comando de um programa de modernização centrado na renovação dos equipamentos, qualificação da mão-de-obra, capacitação tecnológica e melhoria da gestão dos negócios.

De um ano para cá, há mobilização sem precedentes no setor. Em parceria com o Sebrae (Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa), foram treinados 500 vendedores e pelo menos 60 empresários estão participando de cursos de capacitação, algo impensável até passado recente.

Não há dados precisos sobre o que era e como está a indústria moveleira do Grande ABC. Mas há pistas. A base do Sindicato dos Trabalhadores de São Bernardo e Diadema, por exemplo, chegou a somar oito mil empregos diretos nos anos de 1983/84. Hoje não passa de 3,5 mil, informa o vice-presidente Waldemar Pires de Oliveira.

As discussões informais anteriores ao grupo temático da Câmara regional do Grande ABC expuseram uma convergência entre as entidades mobilizadas a respeito da principal causa da agonia moveleira: as fábricas deixaram de se preocupar em produzir para enfatizar a comercialização. Isto é, de parque industrial. São Bernardo em particular virou grande centro comercial, o maior do País em metragem de lojas.

Segundo a Associação dos Comerciantes de Móveis e Artigos de Decoração de São Bernardo, a Rua Jurubatuba e adjacências possuem mais de 100 lojas com área média de 25 metros quadrados, o que significa 25 mil metros quadrados de exposição permanente. Metade do espaço é ocupado por revenda de marcas de outros pólos moveleiros.

“Com os ganhos financeiros da década de 1980, não valia a pena imobilizar recursos na linha de produção. A receita com vendas no varejo, aplicada em bancos, era a forma de garantir a sobrevivência das fábricas, que passaram a comercializar outras marcas de fora em seus espaços e a abrir pontos nos shoppings de móveis” – cita Hermes Soncini.

Estudo do Sindicato dos Moveleiros indica que o valor médio do investimento necessário em máquinas e equipamentos tecnologicamente atualizados somaria R$ 300 mil para empresas grandes e médias. Exatamente o que custa uma loja em shoppings como Interlar, Lar Center, D&D e Casa & Móvel, na Capital. E pelo menos 80% dos fabricantes de São Bernardo abriram lojas nesses centros de compras, calcula Hermes Soncini.

O primeiro medidor da crise do setor apareceu há quatro anos com a estabilidade monetária do real, que deu visibilidade à emboscada em que as indústrias caíram ao acomodar-se na ciranda financeira. Outros pólos, só produtores, investiram em máquinas, treinamento da mão-de-obra e desenvolvimento de design.

A gaúcha Bento Gonçalves inovou com o primeiro e até agora único Centro tecnológico do setor moveleiro do País, o famoso Cetemo, uma fonte de modernidade onde já beberam empresários de Votuporanga, na região Noroeste Paulista.

Votuporanga descobriu há seis anos que a prova da sobrevivência num mercado competitivo está na eficiência e correu atrás do prejuízo. Fez o que só agora o Grande ABC começou a realizar: chamou um consultor para diagnosticar o setor e traçar soluções, massificou treinamentos com Sebrae e Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), está trazendo apoio do Cetemo gaúcho e promoveu série de visitas a feiras internacionais (Veja matéria a seguir).

Não que o Grande ABC seja um fóssil produtor, mas a maioria das fábricas — 60% pequenas, com até 50 funcionários — seria reprovada no vestibular da competitividade. O quadro é problemático porque, além de dinastias tradicionais como Alencar, Pelosini, Miele e Rocco terem desaparecido do mapa, muitas empresas estão gravemente feridas.

Pesquisa feita há exatamente um ano com 20 fabricantes mostra que 50% deixaram de ser só produtores e atuam também no comércio, 60% estão na linha de mercadorias necessitando de atualização, 70% têm maquinário convencional com mais de 10 anos, 90% da mão-de-obra da produção é considerada com qualificação insuficiente para fazer frente a atualizações tecnológicas e 75% têm como público as classes média e alta.

“O Grande ABC se acomodou num mercado consumidor próspero. Está na terceira região de maior potencial de consumo do País, colado à primeira, a Capital paulista. Outros pólos superaram essa diferença com redução de custos e ganhos de produtividade” – define Armando Laganá, da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e representante do governo do Estado de São Paulo na Câmara regional.

Ele diz que a região cochilou na fama que em anos passados oxigenou o setor moveleiro, quando não havia tanta concorrência nem competitividade acentuada que incomodasse a indústria local. A estrutura familiar conferida às empresas por imigrantes italianos fundadores do pólo e a descontinuidade de muitos negócios pelos herdeiros contribuíram, segundo Laganá, para acender a luz amarela no setor.

Agora Laganá acha que a indústria moveleira corre contra o tempo e deve transformar em carro-chefe exemplos bem sucedidos de outras regiões. Cita o espírito de associativismo desenvolvido em Votuporanga com a criação de uma central de compras, o centro tecnológico erguido em Bento Gonçalves e as câmaras de negócios difundidas em boa parte dos demais pólos, por meio das quais fabricantes de varias linhas — cozinha, sala, dormitório etc — se unem em cadeia de produção para ofensiva conjunta no mercado, inclusive visando a exportação.

O professor Armando Laganá é objetivo no diagnóstico: o núcleo da competitividade de qualquer atividade está no tripé renovação do parque fabril, mão-de-obra qualificada e apoio e difusão tecnológica. Ele enfatiza sobretudo o último pilar, para que um centro de apoio e difusão prepare melhor os moveleiros e crie competência tecnológica no setor.

Também representante do governo do Estado em outro grupo de trabalho da Câmara Regional, o do Parque Tecnológico do Grande ABC, Armando Laganá acha viável trazer um braço do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para a região, com professores do Senai e do Ceetesp (Centro Estadual de Ensino Técnico Paula Souza) tendo a responsabilidade de gerar cursos e dar suporte às empresas nas necessidades de modernização.

Para isso acontecer, já foram planejados alguns instrumentos financeiros possíveis: o pólo moveleiro prepara projeto para se habilitar a linha de R$ 1 milhão do PADCT (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico), que integra os projetos cooperativos setoriais existentes no Ministério da Ciência e Tecnologia. São recursos oferecidos pelo BID (Banco Internacional de Desenvolvimento) na proporção de R$ 750 mil do PADCT e R$ 250 mil dos interessados. Neste caso, a contrapartida reunirá moveleiros, Sebrae e Prefeitura. O projeto deve da entrada até 20 de maio para pleitear sua inclusão no orçamento de 1999.

“É uma verba interessante para começar a criar competência tecnológica e infra-estrutura na região. Numa etapa posterior, pode ser criado um Centro de Design para trabalhar tanto inovações nos modelos, ou seja, a estética, quanto nos ganhos de escala. Isso quer dizer linhas mais arrojadas, mas que proporcionem volumes de produção que barateiem os produtos” – diz o representante do governo paulista. Outras fontes de recursos focadas são o fundo de aval do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) para qualificação profissional e da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo.

Faz exatamente um ano a indústria moveleira do Grande ABC marcou encontro com o passado para decidir o que fazer: enterrar sua força econômica ainda respeitável ou acertar contas com a modernidade. A primeira providencia foi diagnosticar o setor por meio de pesquisa com 20 empresas. Depois, atacar no treinamento tanto de funcionários como dos próprios empresários. “A capacitação deixava a desejar de todos os lados” – comenta Hermes Soncini, presidente do Sindicato da Indústria de Marcenaria de São Bernardo.

Neste maio de 1998, o setor já colhe alguns frutos saborosos. Além de número nunca visto de cursos, que se iniciaram com vendedores das feiras de Móveis e neste mês atingem os próprios donos dos negócios, a parceria com o Sebrae permitiu que a agência de São Bernardo se transformasse na sede dos encontros que o grupo de trabalho da Câmara do Grande ABC promove toda terça-feira.

Mas há mais. A partir deste mês está implantado o SPCM (Serviço de Proteção ao Consumidor de Móveis), uma linha 0800 que funciona como espécie de atestado de idoneidade do fabricante e do lojista em se tratando de qualidade do produto e prazo de entrega. O Sindicato dos Moveleiros se propõe a intermediar eventuais conflitos, ampliando experiência iniciada em 1996 com a criação de inédito Certificado de Garantia de Entrega das compras realizadas em feiras de Móveis.

Convênio com seguradora permite que o Sindicato promova o ressarcimento ao consumidor em caso de desrespeito ao contrato, o que ocorreu em apenas quatro ocasiões nas últimas cinco feiras. Cada feira faz, em média, cinco mil negócios. “O SPCM é grande reviravolta depois do selo de seguro de entrega” – enfatiza Hermes Soncini. Os lojistas idôneos são identificados pelo Serviço de Proteção ao Consumidor de Móveis por meio de uma flâmula do Sindicato.

No final do mês passado o consultor Pedro Nunes começou a visitar o chão de fábrica de uma dezena das empresas mais representativas do setor. Pedro Nunes trabalhou no pólo moveleiro de Votuporanga e sua missão no Grande ABC é realizar raio-x profundo sobre o que soa, como fazem e em que estágio se encontram as marcenarias em termos de produção, equipamentos, produtividade, matérias-primas e qualificação da mão-de-obra.

Sebrae e Sindicato patrocinam a pesquisa, com a expectativa de encontrar ali a bússola capaz de indicar o melhor caminho para a travessia das dificuldades. Antes de Nunes já estava em campo o consultor Pietro Laganá, da Result Informática de resultados, incumbido pelo Sindicato de mapear a atividade e preparar propostas de ações revitalizadoras, inclusive a formação de um banco de dados. Foram enviadas malas-diretas para pelo menos 350 empresas.

“Sem perder a perspectiva comercial, é preciso enfatizar a vocação industrial da região. Se houve um momento em que era conveniente abrir lojas, a hora agora é de voltar-se à produção. Há tempos o Sebrae detectou que a indústria de móveis do Grande ABC, até por ser uma das mais antigas do País, poderia ser reconstruída e servir, inclusive, como opção econômica para absorver a mão-de-obra desempregada pela automação de outras indústrias” — comenta Silvana Pompermayer, gerente da agência São Bernardo do Sebrae.

O foco do organismo, diz ela, é sobretudo o produto. Resgatar a qualidade e competitividade dos móveis da região significa alavancar atividades complementares, como o próprio comércio, a criação de um Centro de Design e até mesmo a exportação. “Não há alternativa: ou se é competitivo, ou se é excluído” – arremata Silvana. O Sebrae São Bernardo também está à frente de comitiva que prepara visita ao Cetemo de Bento Gonçalves.

Providências prosaicas como treinar vendedores das feiras de Móveis já deram outra visibilidade ao setor, como o baixo número de dinheiro devolvido a partir da implantação do seguro de entrega. “Tínhamos muitos problemas com prazo vencido por causa do preenchimento errado do pedido de compra. O selo de entrega criou mentalidade mais profissional no setor” — acrescenta Hermes Soncini, do Sindicato. Os vendedores participaram de cursos sobre Técnicas de Atendimento e Vendas e Competência e Agressividade Comercial.

Da mesma forma, o Sebrae tem como alvo tirar pó de conceitos ultrapassados e ensinar aos empresários a lidar com novas formas de gerir os negócios. Ciclos de palestras tiveram início no mês passado sobre Planejamento estratégico, Gestão da Produção e Competência Comercial. Também aprenderão sobre técnicas e matérias-primas modernas como o MDF, um aglomerado mais compacto que permite melhor acabamento das peças, comenta Hermes Soncini. Curso para montadores igualmente faz parte da agenda, pois se trata do cartão de visitas das empresas na casa do cliente. “É o montador de móveis que apaga um risco, alinha gavetas e dá explicações sobre como conservar o produto” — ensina Hermes.

Entusiasmado com o que chama de hora da reação, o dirigente acredita que uma central de compras não se viabiliza na região pelo perfil diferenciado de cada produtor e pela pouca integração existente até agora. O Sindicato preferiu introduzir no programa de modernização o Cadastro Geral de Compras. Vai cadastrar fornecedores de todos os itens usados pela indústria moveleira, inclusive prestadores de serviços, para funcionar como central de informações de preços e endereços que podem ser acionados.

Hermes Soncini também pensa na Câmara de Comércio Inter-Associados, por meio da qual os filiados comprarão entre si. “Há 15 anos as famílias se conversavam e complementavam produtos. Hoje, quem faz só mesa compra cadeiras em Leme para vender o conjunto nas lojas. Vamos chamar de novo para essa integração” – confia.

Um Centro de Desenvolvimento de Design tem espaço garantido nos planos de revitalização. A primeira providência já foi tomada: trazer especialistas de São Paulo para o grupo do setor moveleiro da Câmara Regional do Grande ABC, anuncia Fernando Longo, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo. Longo coordena o grupo e está animado com a possibilidade de o Grande ABC, São Bernardo em particular, reconstruir o prestigio da atividade industrial moveleira sob argumento de que já há parque instalado para isso, além de centro comercial forte e renomado. “Nossa capacidade de reação é muito maior e será mais rápida do que a dos demais pólos, que tiveram de partir do nada” — aposta.

Na recente viagem que fez à Itália na comitiva de 11 prefeituras paulistas reunidas pela Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, Fernando Longo agendou reuniões com fabricantes de Bologna e Milão, deixando a porta aberta para joint-ventures. “Precisamos ter visão de mercado mais agressiva, inclusive focando o comércio exterior. Nossas feiras de móveis são importantes para a imagem institucional da região, mas temos de ir além” – comenta.

O secretário acredita que o Grande ABC ainda é endereço predileto da indústria moveleira pela variedade de itens, que atende a diversidade de gostos. Outros pólos, a seu ver, se projetaram pela exclusividade em móveis coloniais, mais rústicos e até country. Para Longo, o calcanhar-de-Aquiles de São Bernardo está mesmo na defasagem tecnológica, fruto não de desinformação mas, conforme definiu, de opção equivocada. “Sentaram no varejo, esqueceram de investir na produção e, quando acordaram para a competição em uma economia estável, viram que tinham ficado para trás” – pontua.

Içar do poço o setor significa resgatar a vocação industrial sem perder o pulso da atividade comercial e apostar, sobretudo, no design e no marketing, elenca o secretário. Exatamente o que fez a Itália, acrescenta.

Nos planos do prefeito Maurício Soares continua de pé a construção de um Centro de Convenções e Exposições de São Bernardo, que sirva sobretudo às duas vocações originais do Município: a automobilística e a moveleira. Com a vera Cruz agora definitivamente em obras para voltar a ser palco da indústria cinematográfica nacional, os galpões da Agesbec (Armazéns Gerais de São Bernardo) servirão provisoriamente como espaço a serviço dos moveleiros. Área de 100 mil metros quadrados na Via Anchieta, ocupada em outros tempos pela Indústria de Embalagens Matarazzo, já foi anunciada pelo prefeito como possível palco do Centro de Convenções e Exposições. A Agesbec está de mudança para nova área em Piraporinha.

Para o Sindicato dos trabalhadores do setor, a defasagem tecnológica foi um complicador, mas o maior inimigo da indústria de móveis do Grande ABC chama-se má administração. “Como é possível um móvel passear de Bento Gonçalves até aqui e ser vendido mais barato? Os empresários da região não souberam gerenciar seus negócios” – acredita o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Marcenaria de São Bernardo e Diadema, Waldemar Pires de Oliveira, interlocutor da categoria no grupo de trabalho da Câmara Regional. Nos dois Municípios, a base chegou a contabilizar quase oito mil funcionários nos anos de 1983/84, número hoje reduzido para 3,5 mil.

O próprio Waldemar faz parte do espólio da falida Minimóvel de Diadema, que fabricava salas e mesas e deixou 100 funcionários na rua ao fechar no início dos nos 1990. Ele diz que o setor foi golpeado de duas formas: famílias que não se profissionalizaram e cujos sucessores descontinuaram os negócios, casos de Móveis Alencar, Miele e Pelosini, e empresas que contrataram executivos, cresceram demais, mas os proprietários não acompanharam as mudanças que o mercado lhes impunha, como ocorreu, a seu ver, com Móveis Objeto e Lafer, que deixaram a região.

De qualquer forma, Waldemar de Oliveira também anima-se com os esforços de reativação. Ele não acredita que novas tecnologias cortem mais vagas do setor, nem que a rentabilidade seja melhorada em cima do ajuste do nível de emprego. “Se quiserem competir e crescer, terão que contratar” – confia, apostando também em um empurrão no piso de R$ 357 da categoria, cujo salário médio é de R$ 450.

O consumidor está mais exigente com qualidade e preços, lota centros de compras aos domingos e, para fugir do rush do trânsito durante a semana, prefere visitar lojas após às 18h. É de olho nesses novos hábitos que os comerciantes de móveis de São Bernardo também decidiram mudar. Desde o último Natal pelo menos 35 das 117 lojas que compõem o mais famoso corredor moveleiro do País, a Rua Jurubatuba e contornos, estão abrindo aos domingos. E desde o mês passado estenderam o horário de funcionamento por mais duas horas, fechando as 20h30. a meta é ir até às 22h, como nos shoppings centers.

Foi a concorrência de shoppings temáticos da Capital, casos de Lar Center, D&D, Casa & Móvel e Interlar, que cutucou mais fundo os lojistas de São Bernardo. Em novembro do ano passado resolveram se organizar em torno de estrutura mais formal e fundaram a Associação dos Comerciantes de Móveis e Artigos de Decoração de São Bernardo. O objetivo foi reunir ações dispersas e isoladas, mostrando que o Município ainda tem forte prestigio no ramo e que está disposto a fazer barulho.

Além de terem acertado verba de publicidade de R$ 67,5 mil mensais em mídias mais populares como rádio e TV, implantaram estacionamento grátis com 150 vagas para visitantes e segurança 24 horas. A essas providencias deve se somar antigo projeto de transformar a Jurubatuba e adjacência em um grande boulevard, com floreiras, arcos, áreas de convivência e praça de alimentação.

No mês passado, o lojista Salomão Jarouche decidiu dar ponta-pé à experiência e inaugurou uma unidade fast-food Speed-Burger, o primeiro espaço para o público fazer refeições na área de abrangência dos moveleiros da Jurubatuba.

O diretor-tesoureiro da Associação dos Comerciantes, Lúcio Borsato, é um entusiasta da região. “Como vitrine, São Bernardo é disparado o maior espaço moveleiro do País. Temos 25 mil metros quadrados só de lojas. O Lar Center possui metade disso e, mesmo assim, somando lojas de acessórios e de móveis” – comenta.

Seu negócio é um termômetro do poder de sedução ainda exercido por São Bernardo: as duas unidades da Móveis Borsato do Município concentram 70% das vendas, contra 30% das duas lojas que mantém no Lar Center e outra no Interlar. Sua explicação: lojas de shopping só são viáveis para fabricantes de cozinhas e armários embutidos, que não demandam grande espaço de exposição porque os artigos podem ser visualizados em mostruários. Showroom, mesmo, com farta exibição de mercadorias que encham os olhos do consumidor, só em espaçosas lojas de rua, sublinha.

Pesa também o custo. “Um ponto na Jurubatuba custa R$ 32,50 o metro quadrado, contra o dobro e até três vezes mais num shopping. Além disso, o mercado da Grande São Paulo saturou para esses centros temáticos. Há muita gente disputando os públicos classes A e B da Região Metropolitana” – comenta Borsato.

Levantamento da Associação dos Comerciantes mostra que há pelo menos 735 lojas na Grande São Paulo com perfil de público nas classes A e B, 100 das quais em São Bernardo. As abastadas classes A e B representariam 25% moradores da Região Metropolitana e se enquadram no perfil-alvo dos móveis de São Bernardo. Seriam 3,75 milhões de pessoas, ou 5102 visitantes por loja, mais ou menos 1,7 mil famílias por loja. “Um exagero, se levarmos em conta que móvel não troca todo dia. No máximo, a cada cinco ano” – comenta.

Atuando nas duas vertentes, como produtor e lojista, Borsato elogia o esforço do parque industrial em busca de modernização, mas já tem opinião formada sobre as saídas para cada área: aos fabricantes, a especialização; aos varejistas, a exclusividade com parceiros e, principalmente, variedade de itens. O próprio Borsato não é fiel a sua marca própria, de dormitórios. Também representa a Ma Masion de Curitiba (PR), concorrendo com seus dormitórios, a Masotti de Gramado (RS), com linha country, além de 150 fornecedores de acessórios em peças de decoração e sofás.

A necessidade de oferecer variedade faz com que a grande maioria dos lojistas de São Bernardo trabalhe com peças de outros pólos produtores. Na verdade, só 30% dos lojistas filiados à Associação dos Comerciantes também são fabricantes, geralmente de linhas únicas, como só dormitórios (o forte do Município), só salas, só cozinhas.

A transformação da Jurubatuba e vizinhança numa ampla vitrine multimarcas, que emprega cerca de 600 funcionários, começou a ocorrer com a chegada de libaneses, conhecidos pela agressividade como comerciantes. “Foram tomando espaço dos antigos fabricantes italianos que tinham lojas próprias, mas não dispunham de diversidade” – lembra Borsato, que vê nesse movimento não uma descaracterização, mas um reforço á fama da cidade de Capital do Móvel, capaz de atrair grifes famosas como Florence, Ma Maison e Masotti, cita.

De qualquer forma, Borsato também avalia que a indústria moveleira local não acompanhou o passo exigido pelas transformações tecnológicas em termos de maquinário, estamparias e novos modelos. “É como a indústria da moda. Tem que mudar a cada estação. Isso exige muita dedicação e investimentos” – sentencia.

Jogando na faixa médio-popular, a Fábrica de Móveis Bartira vai comendo mercado pelas bordas, ou melhor, pela periferia. Atende ao público C/D, exatamente a grande clientela de sua proprietária, a Casas Bahia, que a adquiriu em 1981 e à qual abastece com exclusividade. Diferente dos móveis mais personalizados que compõem o pólo de São Bernardo, a Bartira se dedica à chamada linha de painéis, ou seja, móveis desmontados e produzidos em grande série, o que permite preços até 50% menores.

Com duas fábricas no Grande ABC, em Ribeirão Pires e Santo André, a fábrica de móveis da Casas Bahia é a maior da região, com 750 funcionários, e das poucas que investiu pesado em equipamentos computadorizados e painéis eletrônicos. Isso lhe permite contabilizar, ao final do mês, cerca de 12 mil guarda-roupas, oito mil cozinhas e duas mil estantes, entre outros.

Foi esse passo modernizador que faltou aos antigos proprietários, 12 ao todo, entre os quais tradicionais famílias da região, como os Rocco, Gerbeli e Bastistini . “Eram muitos donos e muitas brigas. Os descendentes não quiseram prosseguir os negócios. E, como aconteceu com boa parte das fábricas de São Bernardo, a especulação imobiliária falou mais alto e muitas se desfizeram das antigas instalações” — lembra Joseph Gelfchyn, gerente da Bartira, que está na empresa desde antes da absorção pelas Casas Bahia. Ele não está otimista com o esforço de revitalização do pólo moveleiro. “Seria como trazer de volta a Brastemp a São Bernardo. Os tempos são outros” – diz.

Como Lúcio Borsato, Joseph Gelfchyn cita o exemplo da Itália como referencia para o Grande ABC: incentivo a micro e pequenos produtores na forma de cooperativa, com cada um fabricando uma parte – portas, dobradiças, montagem, acabamento etc –, recebendo incentivos de Poderes Públicos inclusive para exportar.

A 530 quilômetros de São Paulo e com 80 mil habitantes, Votuporanga detectou seis anos atrás que estava perdendo o bonde da modernização como centro industrial moveleiro. Na região Noroeste Paulista, que se estende por cerca de 30 Municípios potencialmente produtores de Catanduva a Rubinéia e da qual Votuporanga é o centro geográfico, são cerca de 550 fabricantes. Só em Votuporanga o ramo moveleiro participa 42% do PIB.

Com essa responsabilidade, era impossível fugir da lição de casa: treinamento de mão-de-obra, investimento em novas tecnologias, reengenharia administrativa e equipamentos mais avançados formaram o coquetel de modernidade que está fazendo a diferença entre Votuporanga nomear-se hoje como segundo pólo moveleiro mais importante do País, atrás apenas da gaúcha Bento Gonçalves, em vez de ter ido à lona se não decidisse ter reagido.

“As empresas saíram do zero em termos de estrutura. Conceitos de gestão antigos e processos de produção ultrapassados nos fizeram começar com consultorias individuais e especificas, para depois agirmos de forma conjunta” – comenta Valéria Prado Scott, coordenadora da área de Negócios e Ações Coletivas da agência local do Sebrae, que desde 1992 vem dando mão forte a 25 empresas que integraram a experiência local de revitalização do pólo moveleiro.

Junto com a Airvo (Associação Industrial de Votuporanga), o Sebrae criou o Pólo de Desenvolvimento do Setor Moveleiro. De cursos básicos sobre Qualidade Total à roda de negócios na Ecomóveis’97 em Buenos Aires, na Alemanha, o esforço modernizador foi intenso. Treze empresas foram pioneiras e, por isso, obtiveram maior concentração dos programas do Sebrae. Outras 12 ingressaram numa segunda etapa, em janeiro de 1995, igualmente passando por mudanças de layout, reestruturação de pessoal e na área financeira e tudo o mais que signifique mudanças de processos e de gestão. As 13 primeiras já estão sendo preparadas inclusive para o mercado externo — comenta Valéria.

Um dos pontos altos da reestruturação de Votuporanga foi a parceria com o famoso Cetemo (Centro Tecnológico Moveleiro), que projetou Bento Gonçalves (RS) como um dos expoentes nacionais, ao qualificar empresas e recursos humanos com especialização especifica. O Cetemo está oferecendo assistência técnica aos empresários para instalação de unidade semelhante a do Rio Grande do Sul em Votuporanga, que deverá ser a segunda do País. Com isso, complementará apoio tecnológico que já desenvolveu em parceria com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) por meio de curós e consultorias envolvendo temas como melhora de processo na fabricação de estofados, assistência tecnológica em afiação de ferramentas de corte para madeiras e derivados.

Os recursos vieram do Patme (Programa de Apoio Tecnológico às Micro e Pequenas Empresas), parceria do Sebrae com a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), um organismo do governo federal. Além disso, a Associação Industrial do Município trouxe de Caxias do Sul o curso de Tecnólogo em Produção Moveleira, com status de terceiro grau, que será introduzido no Centro Universitário de Votuporanga.

O coordenador do projeto moveleiros da Airvo, João Araújo Pinto Neto, diz que nada escapou à cruzada pela reestruturação do setor, que tem seu forte em estofados e dormitórios, de linhas mais populares até as mais sofisticadas. “Tudo era empírico. Não havia controle de estoque, o fluxo de caixa não tinha organograma e o planejamento era ausente. Ninguém sabia, enfim, calcular custo. Mexemos na produção, na administração e no marketing e fomos buscar tecnologias com visitas a outras localidades e participação em feiras” – ensina.

Outra alavancagem fundamental ocorreu com o espírito de associativismo, que culminou com a formação de uma central de compras e, obviamente, melhor poder de negociação com fornecedores. Os resultados não tardaram. Conforme balanço do Sebrae de Votuporanga, o primeiro grupo de 13 empresas saiu de uma ociosidade de até 70% em 1992 para exibir hoje aumento médio de 35% na produtividade e redução de 42% nos custos de produção. Foram duas mil horas só de consultoria.

“A maioria das empresas, com média de 20 funcionários e cesta básica, o que não existia até então” – comenta Valéria Scott. As 25 empresas do pólo empregam 1470 pessoas e o piso da categoria em abril era de R$ 280.

O salto qualitativo dado pelo pólo de Votuporanga já colocou inúmeras empresas na ante-sala da ISO 9000, privilegio no País apenas da gaúcha Dellano Cozinhas, dentro de um universo de 13,7 mil indústrias catalogadas na atividade pela Abimóvel (Associação Brasileira da Indústria de Móveis). Para se preparar para a certificação, as marcenarias de Votuporanga conseguiram linha de US$ 94 mil do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifica e Tecnológico). Todas também desenvolvem fortes programas de valorização de recursos humanos.

Outro grande diferencial está no fato de ser o único pólo a dispor de banco de dados — orgulha-se João Araújo Pinto Neto, da Associação Industrial. É essa usina de informações sobre o setor no Brasil e nas regiões que faz Votuporanga trabalhar estratégias com agilidade, diz ele. “Descobrimos que no mundo dos negócios, hoje, não é o grande que come o pequeno, mas o mais ágil que engole o mais lento” – ensina.

Fora da região, as empresas desenvolveram recheada agenda de visitas, destacando-se a caravana à Fima 95 (Feira Industrial de Córdoba), na Argentina, além de visita por conta própria, de 10 empresários do pólo, à Ligna de Hannover (Feira de Acessórios e Matérias-Primas para Móveis), na Alemanha.

Votuporanga ensina a lição e fortalece mercado moveleiro

MALU MARCOCCIA

A 530 quilômetros de São Paulo e com 80 mil habitantes, Votuporanga detectou seis anos atrás que estava perdendo o bonde da modernização como centro industrial moveleiro. Na região Noroeste Paulista, que se estende por cerca de 30 Municípios pontecialmente produtores de Catanduva a Rubinéia e da qual Votuporanga é o centro geográfico, são cerca de 550 fabricantes. Só em Votuporanga o ramo moveleiro participa 42% do PIB. Com essa responsabilidade, era impossível fugir da lição de casa: treinamento de mão-de-obra, investimento em novas tecnologias, reengenharia administrativa e equipamentos mais avançados formaram o coquetel de modernidade que está fazendo a diferença entre Votuporanga nomear-se hoje como segundo pólo moveleiro mais importante do País, atrás apenas da gaúcha Bento Gonçalves, em vez de ter ido à lona se não decidisse ter reagido.

“As empresas saíram do zero em termos de estrutura. Conceitos de gestão antigos e processos de produção ultrapassados nos fizeram começar com consultorias individuais e especificas, para depois agirmos de forma conjunta” – comenta Valéria Prado Scott, coordenadora da área de Negócios e Ações Coletivas da agência local do Sebrae, que desde 1992 vem dando mão forte a 25 empresas que integraram a experiência local de revitalização do pólo moveleiro.

Junto com a Airvo (Associação industrial de Votuporanga), o Sebrae criou o Pólo de Desenvolvimento do Setor Moveleiro. De cursos básicos sobre Qualidade Total à roda de negócios na Ecomóveis’97 em Buenos Aires, na Alemanha, o esforço modernizador foi intenso. Treze empresas foram pioneiras e, por isso, obtiveram maior concentração dos programas do Sebrae. Outras 12 ingressaram numa segunda etapa, em janeiro de 1995, igualmente passando por mudanças de layout, reestruturação de pessoal e na área financeira e tudo o mais que signifique mudanças de processos e de gestão. As 13 primeiras já estão sendo preparadas inclusive para o mercado externo – comenta Valéria.

Um dos pontos altos da reestruturação de Votuporanga foi a parceria com o famoso Cetemo (Centro Tecnológico Moveleiro), que projetou Bento Gonçalves (RS) como um dos expoentes nacionais, ao qualificar empresas e recursos humanos com especialização especifica. O Cetemo está oferecendo assistência técnica aos empresários para instalação de unidade semelhante a do Rio Grande do Sul em Votuporanga, que deverá ser a segunda do País. Com isso, complementará apoio tecnológico que já desenvolveu em parceria com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) por meio de curós e consultorias envolvendo temas como melhora de processo na fabricação de estofados, assistência tecnológica em afiação de ferramentas de corte para madeiras e derivados. Os recursos vieram do Patme (Programa de Apoio tecnológico às Micro e Pequenas Empresas), parceria do Sebrae com a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), um organismo do governo federal. Além disso, a Associação Industrial do Município trouxe de Caxias do Sul o curso de Tecnólogo em Produção Moveleira, com status de terceiro grau, que será introduzido no Centro Universitário de Votuporanga.

Central de compras – O coordenador do projeto moveleiros da Airvo, João Araújo Pinto Neto, diz que nada escapou à cruzada pela reestruturação do setor, que tem seu forte em estofados e dormitórios, de linhas mais populares até as mais sofisticadas. “Tudo era empírico. Não havia controle de estoque, o fluxo de caixa não tinha organograma e o planejamento era ausente. Ninguém sabia, enfim, calcular custo. Mexemos na produção, na administração e no marketing e fomos buscar tecnologias com visitas a outras localidades e participação em feiras” – ensina.

Outra alavancagem fundamental ocorreu com o espírito de associativismo, que culminou com a formação de uma central de compras e, obviamente, melhor poder de negociação com fornecedores. Os resultados não tardaram. Conforme balanço do Sebrae de Votuporanga, o primeiro grupo de 13 empresas saiu de uma ociosidade de até 70% em 1992 para exibir hoje aumento médio de 35% na produtividade e redução de 42% nos custos de produção. Foram duas mil horas só de consultoria. “A maioria das empresas, com média de 20 funcionários e cesta básica, o que não existia até então” – comenta Valéria Scott. As 25 empresas do pólo empregam 1470 pessoas e o piso da categoria em abril era de R$ 280.

O salto qualitativo dado pelo pólo de Votuporanga já colocou inúmeras empresas na ante-sala da ISO 9000, privilegio no País apenas da gaúcha Dellano Cozinhas, dentro de um universo de 13,7 mil indústrias catalogadas na atividade pela Abimóvel (Associação Brasileira da Indústria de Móveis). Para se preparar para a certificação, as marcenarias de Votuporanga conseguiram linha de US$ 94 mil do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifica e Tecnológico). Todas também desenvolvem fortes programas de valorização de recursos humanos. Outro grande diferencial está no fato de ser o único pólo a dispor de banco de dados – orgulha-se João Araújo Pinto Neto, da Associação Industrial. É essa usina de informações sobre o setor no Brasil e nas regiões que faz Votuporanga trabalhar estratégias com agilidade, diz ele. “Descobrimos que no mundo dos negócios, hoje, não é o grande que come o pequeno, mas o mais ágil que engole o mais lento” – ensina.

Fora da região, as empresas desenvolveram recheada agenda de visitas, destacando-se a caravana à Fima 95 (Feira Industrial de Córdoba), na Argentina, além de visita por conta própria, de 10 empresários do pólo, à Ligna de Hannover (Feira de Acessórios e Matérias-Primas para Móveis), na Alemanha.

Rua Jurubatuba fecha às 20h30 e abre aos domingos

WALTER VENTURINI

O consumidor está mais exigente com qualidade e preços, lota centros de compras aos domingos e, para fugir do rush do trânsito durante a semana, prefere visitar lojas após às 18h. É de olho nesses novos hábitos que os comerciantes de móveis de São Bernardo também decidiram mudar. Desde o último Natal pelo menos 35 das 117 lojas que compõem o mais famoso corredor moveleiro do País, a Rua Jurubatuba e contornos, estão abrindo aos domingos. E desde o mês passado estenderam o horário de funcionamento por mais duas horas, fechando as 20h30. a meta é ir até às 22h, como nos shoppings centers.

Foi a concorrência de shoppings temáticos da Capital, casos de Lar Center, D&D, Casa & Móvel e Interlar, que cutucou mais fundo os lojistas de São Bernardo. Em novembro do ano passado resolveram se organizar em torno de estrutura mais formal e fundaram a Associação dos Comerciantes de Móveis e Artigos de Decoração de São Bernardo. O objetivo foi reunir ações dispersas e isoladas, mostrando que o Município ainda tem forte prestigio no ramo e que está disposto a fazer barulho.

Além de terem acertado verba de publicidade de R$ 67,5 mil mensais em mídias mais populares como rádio e TV, implantaram estacionamento grátis com 150 vagas para visitantes e segurança 24 horas. A essas providencias deve se somar antigo projeto de transformar a Jurubatuba e adjacência em um grande boulevard, com floreiras, arcos, áreas de convivência e praça de alimentação.

No mês passado, o lojista Salomão Jarouche decidiu dar ponta-pé à experiência e inaugurou uma unidade fast-food Speed-Burger, o primeiro espaço para o público fazer refeições na área de abrangência dos moveleiros da Jurubatuba.

O diretor-tesoureiro da Associação dos Comerciantes, Lúcio Borsato, é um entusiasta da região. “Como vitrine, São Bernardo é disparado o maior espaço moveleiro do País. Temos 25 mil metros quadrados só de lojas. O Lar Center possui metade disso e, mesmo assim, somando lojas de acessórios e de móveis” – comenta.

Seu negócio é um termômetro do poder de sedução ainda exercido por São Bernardo: as duas unidades da Móveis Borsato do Município concentram 70% das vendas, contra 30% das duas lojas que mantém no Lar Center e outra no Interlar. Sua explicação: lojas de shopping só são viáveis para fabricantes de cozinhas e armários embutidos, que não demandam grande espaço de exposição porque os artigos podem ser visualizados em mostruários. Showroom, mesmo, com farta exibição de mercadorias que encham os olhos do consumidor, só em espaçosas lojas de rua, sublinha.

Pesa também o custo. “Um ponto na Jurubatuba custa R$ 32,50 o metro quadrado, contra o dobro e até três vezes mais num shopping. Além disso, o mercado da Grande São Paulo saturou para esses centros temáticos. Há muita gente disputando os públicos classes A e B da Região Metropolitana” – comenta Borsato.

Levantamento da Associação dos Comerciantes mostra que há pelo menos 735 lojas na Grande São Paulo com perfil de público nas classes A e B, 100 das quais em São Bernardo. As abastadas classes A e B representariam 25% moradores da Região Metropolitana e se enquadram no perfil-alvo dos móveis de São Bernardo. Seriam 3,75 milhões de pessoas, ou 5102 visitantes por loja, mais ou menos 1,7 mil famílias por loja. “Um exagero, se levarmos em conta que móvel não troca todo dia. No máximo, a cada cinco ano” – comenta.

Atuando nas duas vertentes, como produtor e lojista, Borsato elogia o esforço do parque industrial em busca de modernização, mas já tem opinião formada sobre as saídas para cada área: aos fabricantes, a especialização; aos varejistas, a exclusividade com parceiros e, principalmente, variedade de itens. O próprio Borsato não é fiel a sua marca própria, de dormitórios. Também representa a Ma Masion de Curitiba (PR), concorrendo com seus dormitórios, a Masotti de Gramado (RS), com linha country, além de 150 fornecedores de acessórios em peças de decoração e sofás.

A necessidade de oferecer variedade faz com que a grande maioria dos lojistas de São Bernardo trabalhe com peças de outros pólos produtores. Na verdade, só 30% dos lojistas filiados à Associação dos Comerciantes também são fabricantes, geralmente de linhas únicas, como só dormitórios (o forte do Município), só salas, só cozinhas.

A transformação da Jurubatuba e vizinhança numa ampla vitrine multimarcas, que emprega cerca de 600 funcionários, começou a ocorrer com a chegada de libaneses, conhecidos pela agressividade como comerciantes. “Foram tomando espaço dos antigos fabricantes italianos que tinham lojas próprias, mas não dispunham de diversidade” – lembra Borsato, que vê nesse movimento não uma descaracterização, mas um reforço á fama da cidade de Capital do Móvel, capaz de atrair grifes famosas como Florence, Ma Maison e Masotti, cita.

De qualquer forma, Borsato também avalia que a indústria moveleira local não acompanhou o passo exigido pelas transformações tecnológicas em termos de maquinário, estamparias e novos modelos. “É como a indústria da moda. Tem que mudar a cada estação. Isso exige muita dedicação e investimentos” – sentencia.

Jogando na faixa médio-popular, a Fábrica de Móveis Bartira vai comendo mercado pelas bordas, ou melhor, pela periferia. Atende ao público C/D, exatamente a grande clientela de sua proprietária, a Casas Bahia, que a adquiriu em 1981 e à qual abastece com exclusividade. Diferente dos móveis mais personalizados que compõem o pólo de São Bernardo, a Bartira se dedica à chamada linha de painéis, ou seja, móveis desmontados e produzidos em grande série, o que permite preços até 50% menores.

Com duas fábricas no Grande ABC, em Ribeirão Pires e Santo André, a fábrica de móveis da Casas Bahia é a maior da região, com 750 funcionários, e das poucas que investiu pesado em equipamentos computadorizados e painéis eletrônicos. Isso lhe permite contabilizar, ao final do mês, cerca de 12 mil guarda-roupas, oito mil cozinhas e duas mil estantes, entre outros.

Foi esse passo modernizador que faltou aos antigos proprietários, 12 ao todo, entre os quais tradicionais famílias da região, como os Rocco, Gerbeli e Bastistini. “Eram muitos donos e muitas brigas. Os descendentes não quiseram prosseguir os negócios. E, como aconteceu com boa parte das fábricas de São Bernardo, a especulação imobiliária falou mais alto e muitas se desfizeram das antigas instalações” — lembra Joseph Gelfchyn, gerente da Bartira, que está na empresa desde antes da absorção pelas Casas Bahia. Ele não está otimista com o esforço de revitalização do pólo moveleiro. “Seria como trazer de volta a Brastemp a São Bernardo. Os tempos são outros” – diz.

Como Lúcio Borsato, Joseph Gelfchyn cita o exemplo da Itália como referencia para o Grande ABC: incentivo a micro e pequenos produtores na forma de cooperativa, com cada um fabricando uma parte – portas, dobradiças, montagem, acabamento etc –, recebendo incentivos de Poderes Públicos inclusive para exportar.