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Correio Popular online

Morte de arqueólogo estanca pesquisa

Publicado em 16 agosto 2005

James Petersen desenvolvia tese inédita repensando a ocupação humana da região Amazônica

O assassinato do arqueólogo americano James Petersen provocou a interrupção dos trabalhos da equipe de cientistas do Projeto Amazônia Central. Segundo a arqueóloga Patrícia Donatti, que faz parte do grupo, formado por 30 arqueólogos e geólogos, o trabalho só será retomado em setembro em respeito ao colega, morto no sábado, após assalto a um restaurante em Iranduba, próximo a Manaus. "Entendemos que continuar o trabalho é nossa maior homenagem a ele, mas precisamos de um tempo para assimilar esse absurdo", afirmou. Dois colegas americanos, presentes no momento da morte do arqueólogo, irão para os Estados Unidos, mas devem retornar ao Brasil no próximo mês.
Jim, como era chamado por amigos, colegas e alunos, era coordenador do projeto, ao lado do brasileiro Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvido há dez anos na confluência dos Rios Negro e Solimões, no Amazonas, com o patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Eles esperavam obter neste ano um financiamento de US$ 400 mil para a pesquisa.
Especialista em civilizações pré-colombianas e professor na Universidade de Vermont (EUA), Petersen era parte de um seleto grupo de pesquisadores que repensa hoje a ocupação humana da região. Ele era também um dos mais experientes e mais preparados do time, o que torna sua substituição improvável em curto prazo.
Sua morte prejudica o trabalho de arqueologia amazônica atual. "Ele vinha ocupando uma posição de destaque, com bom conhecimento da história amazônica. Também tinha uma grande capacidade de organização e de sistematização, características importantes para o trabalho em campo", explica a arqueóloga Maria Dulce Gaspar, do Museu Nacional, no Rio, que o conhecia.
"Jim era muito querido e empolgado com o projeto. Ensaiava algumas palavras em português, já que visitou a área muitas vezes", contou Neves. Segundo ele, Petersen coletava material para escrever um livro, que deveria ser publicado no próximo ano. A obra certamente estremeceria as já abaladas bases da arqueologia amazônia. Ele era um dos principais defensores, ao lado de Neves e do americano Michael Heckenberger, de uma teoria que acredita na formação de sociedades complexas na Amazônia, longe da noção de "bom selvagem", de caçadores-coletores, difundida nos livros escolares de história.
Os sites de grandes jornais americanos noticiaram a morte do arqueólogo. Com base em agências de notícias internacionais, os jornais The New York Times e Los Angeles Times lembram que três acusados foram presos. A universidade onde Petersen trabalhava divulgou uma longa carta na qual lamenta o assassinato. "A comunidade da universidade está abalada com a morte trágica de Jim Petersen, um dos nossos melhores professores", afirmou o reitor, John Bramley. (Da Agência Estado)