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Morre Marcelo Damy, pioneiro no ensino da física experimental no Brasil

Publicado em 02 dezembro 2009

O Brasil perdeu esta semana um dos expoentes no campo do ensino da física. Internado a cerca de um ano no Hospital Albert Einstein, em conseqüência de um acidente vascular cerebral, o físico Marcelo Damy de Souza Santos morreu no domingo passado (29/11), aos 95 anos. Seu corpo foi enterrado nesta segunda-feira (30/11) no cemitério Getsêmani, no bairro do Morumbi, em São Paulo.

Considerado um dos pilares do ensino e pesquisa de física no Brasil, ao lado de César Lattes, José Leite Lopes e Mário Schenberg, Damy nasceu em Campinas (SP), em 1914. Em 1933, ingressou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo para cursar engenharia elétrica. Acabou migrando para a física a convite do então professor da universidade, Gleb Wataghin, cujas aulas gostava de assistir como aluno ouvinte. Graduou-se na primeira turma do curso de física na USP.

Na graduação se interessou pelos fenômenos radioativos descobertos no início do século pelo casal Pierre e Marie Curie. Após a 2ª Guerra Mundial, o conhecimento da energia dos átomos consolidou-se em um novo ramo de estudo no qual Damy se destacaria, a física nuclear.

Também foi pioneiro no ensino de física experimental no Brasil. "Naquele tempo o professor estudava na véspera para no dia seguinte passar para os alunos", disse em entrevista revista Pesquisa Fapesp, criticando o ensino puramente teórico.

Outra de suas marcas era a engenhosidade. Um aparelho que desenvolveu na pós-graduação na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, obteve medidas de radiação cósmica em intervalos de tempo da ordem de 1 centésimo de 1 milionésimo de segundo, 10 mil vezes mais sensível que os disponíveis até então. O aparelho proporcionou no Brasil a descoberta dos chuveiros penetrantes, um fenômeno dos raios cósmicos.

Damy foi professor do Instituto de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), tendo auxiliado na instalação, em 1950, do Betatron, o primeiro acelerador de partículas a funcionar na América Latina. Desenvolveu também o primeiro reator nuclear brasileiro.

Foi um dos fundadores do Instituto de Energia Atômica, atual Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen/MCT), e seu primeiro superintendente, de 1956 a 1961. Também foi presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen/MCT) de 1961 a 1964.

Aposentado como professor emérito da USP, em 1968, auxiliou a consolidação da recém-criada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) assumindo o cargo de diretor do Instituto de Física, o qual receberia o nome de seu ex-professor, Gleb Wataghin.

Trabalhou depois como professor titular de física nuclear da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e, a partir de 1988, passou a colaborar com trabalhos feitos no Ipen. Foi colega de graduação de Schenberg, com o qual dividia a apertada sala de Wataghin, e professor de Lattes, o qual se notabilizaria mais tarde ao descobrir a partícula atômica méson pi.

Damy considerava o ensino de ciência uma atividade intimamente ligada à pesquisa. "Um bom professor é um pesquisador que gosta de contar as coisas que faz e que viu outros fazerem. Eu não conheço nenhum bom professor que não tenha sido, ou não seja ainda, um pesquisador," disse.

Da Alemanhã, onde se encontra em viagem como intregrante da comitiva do Presidente Lula, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, lamentou a perda de Damy. Para Rezende, as contribuições do professor e pesquisador foram extremamente importante para que o País atingisse o atual estágio de desenvolvimento no ensino da física.

Com informações da Agência Fapesp