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Correio Popular online

Morre César Lattes, o gênio da física brasileira

Publicado em 09 março 2005

Um autêntico gênio brasileiro. Assim era a definição mais comum dada ao físico César Lattes, de 80 anos. Ele faleceu às 15h40 de ontem em virtude de uma parada cardiorrespiratória, no Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A saúde do físico estava debilitada. Ele tinha câncer de bexiga, edema pulmonar e havia deixado o hospital no último final de semana após um enfarte. Nascido em Curitiba (PR) no dia 11 de julho de 1924, ele vivia no distrito de Barão Geraldo há mais de três décadas.
O físico, batizado Cesare Mansueto Giulio Lattes, era viúvo há dois anos de Martha Siqueira Netto Lattes e deixou quatro filhas. O enterro está marcado para as 16h45 de hoje, no Cemitério Parque Flamboyant. Duas homenagens ao cientista estavam previstas, uma este mês pelo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que dará o nome do físico ao prédio que abrigará a área de microscopia eletrônica, e outra em julho, em Fortaleza, na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Lattes marcou seu nome na história da ciência exatamente no dia 24 de maio de 1947, quando a prestigiada revista científica inglesa Nature anunciava que o pesquisador — filho dos imigrantes italianos Giuseppe e Carolina — havia descoberto e comprovado a existência de uma partícula decisiva na exploração do átomo: a subatômica méson-pi.
Aquela que significaria o mínimo pedaço de tudo o que costumamos chamar de vida, que parecia ser algo muito distante e incompreensível para o público em geral, foi considerado como um grande passo pelos cientistas, que avançaram no estudo da matéria. Por sua descoberta, Lattes poderia ter recebido o Prêmio Nobel aos 24 anos de idade, o que não se concretizou.
Seus estudos primários foram sendo completados em diversos pontos do Brasil e do mundo, como Curitiba, Porto Alegre, Turim (Itália) e São Paulo. Na Capital, ele optou por fazer o curso de Física na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, o embrião da futura Universidade de São Paulo (USP), onde foi um precoce professor aos 19 anos. A amizade de Lattes com cientistas como Marcelo Souza Campos reforçou o seu interesse pela radiação cósmica.
O caminho para a descoberta da revolucionária méson-pi estava sendo criado. Depois de passar pela USP, Lattes fundamentou seus estudos na Universidade de Bristol, na Inglaterra. Sua viagem para a Europa aconteceu no primeiro cargueiro que saiu do Brasil rumo ao velho continente depois da 2ª Guerra Mundial. Foram 40 dias de uma viagem torturante, onde o físico precisava dormir no porão, apenas sobre uma tábua no chão.
Em Bristol, a imagem do desespero, tudo havia sido bombardeado, apenas o laboratório se mantinha de pé. Todo o trabalho era coordenado pelo inglês Cecil Frank Powell, ganhador de um Nobel em 1950. Um dos companheiros de estudos de Lattes era o também físico Giuseppe Occhialini, de origem italiana. As pesquisas em busca do méson-pi se aprofundaram depois que chapas fotográficas levadas para os montes Pirineus, na Itália, acenaram que a busca pelas partículas sub-atômicas estava no caminho certo.
Obstinado, Lattes levou o material para a Bolívia, onde se deslocou para montanhas com até 5,6 mil metros de altura para conseguir resultados ainda mais esclarecedores. Acompanhado por uma equipe, Lattes espalhou placas fotográficas especiais de chumbo em locais como Cochabamba, Oruro e La Paz, além da superfície do Lago Titicaca. Tudo com a ajuda fundamental de índios bolivianos, conhecedores dos atalhos de suas matas.
Os resultados foram os esperados, a méson-pi era definitivamente uma realidade no mundo científico. O fato, aguardado há tempos, ganhou repercussão internacional. Esta descoberta já havia sido "prevista" pelo japonês Hideki Yukawa na década de 30, que ganhou um Nobel em 1949, mas sem conseguir comprovar na prática suas conclusões. Isto coube ao brasileiro morador de Campinas.
Em 1948, já conhecido como o descobridor da méson-pi, Lattes deixa Bristol e parte rumo à Universidade de Berkeley, nos EUA, onde trabalhou com o físico norte-americano Eugene Gardner. Com o final de sua bolsa, o brasileiro foi convidado para se unir aos cientistas da prestigiada Harvard, também dos EUA, mas recusou o convite. "Naquele tempo, ninguém ia para lá com a idéia de fazer carreira. A gente pensava em melhorar o Brasil", contou o físico em entrevista à revista Ciência Hoje, do Rio de Janeiro.
Celebridade no mundo da ciência, Lattes é levado para uma série de conferências por Neils Bohr, um dos pais da energia nuclear, ao redor do mundo. Sobre este personagem, existe um fato curioso e misterioso que só o tempo poderá revelar. Diz a lenda que no Museu Neils Bohr, em Copenhague, na Dinamarca, existe uma carta cujo envelope está escrito: "Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel. Abrir depois de 50 anos da minha morte". Como Bohr morreu em 1962, o mistério só será desvendado em 2012.
Apesar de não ter trazido aquele que seria o primeiro Nobel brasileiro, Lattes foi homenageado muitas vezes pela comunidade científica internacional. Entre outras condecorações que enalteceram a sua capacidade como cientista estão os prêmios da Organização dos Estados da América (OEA) e da Academia de Ciências do Terceiro Mundo.
Questionado pela reportagem da revista Superinteressante em maio de 1997 sobre o que ele mudaria em sua carreira, o físico foi direto. "Não mudaria nada, fui empurrado pela história e fiz o possível", resumiu o gênio verde-amarelo chamado César Lattes.

Repercussão
Recebi com enorme pesar a notícia do falecimento do físico César Lattes. Sua contribuição para a pesquisa científica ficará marcada na história do Brasil e do Estado de São Paulo, em especial por seu envolvimento na fundação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Como um dos responsáveis pelo reconhecimento internacional da qualidade de nossos pesquisadores, Lattes será sempre lembrado por seu talento e dedicação ao desenvolvimento da ciência no País. Geraldo Alckmin (PSDB), governador do Estado de São Paulo.

O Brasil perde um dos seus maiores cientistas. César Lattes foi essencial para a institucionalização do sistema de apoio à ciência e tecnologia no Brasil. Recebemos a notícia de seu falecimento com muito pesar. Perdemos um mito. Eduardo Campos, ministro da Ciência e Tecnologia

O CBPF publicou há poucas semanas uma tese de Lattes que nunca chegou a ser apresentada. A obra Observações Sobre a Componente Eletromagnética de Alta Energia da Radiação Cósmica foi revisada e editada pelos professores Ricardo Galvão e Alfredo Marques. Foi uma homenagem que fizemos. César foi um dos pioneiros no estudo de raios cósmicos.Ricardo Galvão, diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF)

César Lattes foi um dos maiores cientistas que o Brasil já teve. Reconhecido internacionalmente, sua contribuição foi fundamental para o desenvolvimento da física das partículas elementares. Dominou uma técnica experimental de identificação de partículas subatômicas como nenhum outro cientista soube fazer e, com isso, sua presença foi decisiva nos experimentos que identificaram pela primeira vez o méson-pi. Modelo para toda uma geração de físicos, sua contribuição para o desenvolvimento da física no Brasil foi importantíssima, tendo sido um dos criadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e do Instituto de Física da Unicamp. A Unicamp sentirá muito sua falta. Carlos Henrique de Brito Cruz, reitor da Unicamp e diretor científico nomeado da Fapesp.

A história de César Lattes se confunde com a história da ciência brasileira. Ele estruturou o sistema de ciência e tecnologia que desfrutamos hoje e se tornou um padrão de referência na física mundial. A lamentar, além de sua perda, a injustiça de não ter recebido o Nobel — ele foi o único brasileiro seriamente considerado para o prêmio. Seus estudos sobre o comportamento das forças nucleares e sobre a matéria, cujas estruturas internas desvendou, inscreveram seu nome, para sempre, na vanguarda da ciência universal.
João Carlos Meirelles, secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado de São Paulo

César Lattes é um dos grandes nomes da física e o prestígio que conseguiu pelo seu trabalho pioneiro no campo da física de partículas foi colocado à serviço de causas que ajudaram a impulsionar a ciência no Brasil, como a criação do então denominado Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), em 1951. Todas as homenagens que a ele se fizeram em vida e tantas que ainda virão, serão absolutamente justas e merecidas.
José Antônio Brum, diretor geral do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS)

César Lattes teve uma importância fundamental, não apenas pela grande importância da descoberta dele, que certamente mereceria o Nobel. O que aconteceu, aconteceu em um momento muito oportuno. Não havia a institucionalização do apoio à ciência no Brasil. Graças à descoberta do méson-pi foi criado o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que, juntos com a USP, foram essenciais para o início da ciência no Brasil. É claro que já existiam avanços na área da medicina, mas a ciência fundamental começou mais tarde. Foi um cientista que teve uma importância que nenhum outro teve para o Brasil. Certamente, o méson-pi foi uma grande, talvez a maior descoberta da década de 50.
Rogério Cézar de Cerqueira Leite, físico e professor emérito da Unicamp