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Diário do Comércio (SP)

Morre, aos 80 anos, o físico César Lattes

Publicado em 09 março 2005

Um dos mais reconhecidos cientistas brasileiros, o físico César Lattes, morreu ontem à tarde, aos 80 anos, no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) após uma parada cardíaca. Ainda jovem, participou dos estudos que levaram ao descobrimento do méson pi, partícula que mantém o núcleo do átomo coeso. A descoberta, um dos pilares da Física Moderna, colocou o brasileiro entre os mais influentes pesquisadores no Brasil e do mundo.
César Lattes nasceu Cesare Mansueto Giulio Lattes, em Curitiba (PR), no dia 11 de julho de 1924. Ele graduou-se em Física e Matemática pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em 1943. Por sua descoberta e sua contribuição ao conhecimento científico, Lattes foi incluído como verbete na Enciclopédia Britânica e em outros livros sobre a história da ciência.
Com 23 anos, ele foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio, instituição da qual também foi diretor. Fez diversas pesquisas no Brasil, além de incentivar parcerias acadêmicas — a mais profícua delas com o Japão. Foi professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Unicamp, onde se aposentou em 1986.
"Sem dúvida, ele foi um nome muito importante para a ciência brasileira. O reconhecimento internacional que conseguiu trouxe notoriedade e investimento para o País", disse o físico Adriano Natale, da USP.
Precoce - A história de Lattes foi marcada por conquistas que obteve ainda na juventude. Apenas três anos depois de se formar na USP, Lattes partiu para os Andes bolivianos, onde instalou um laboratório a 5.600 metros de altitude, perto da capital, La Paz, com o apoio da Universidade de Bristol, da Grã-Bretanha. A ele se uniram os físicos Giuseppe Occhialini e Cecil Frank Powell, que liderava a observação da ação de raios em chapas fotográficas com bórax, um composto do elemento químico boro.
A experiência forneceu evidências dos mésons pi - partículas previstas pelo japonês Hideki Yukawa, em 1935, por meio de cálculos - e deu início oficialmente à era da física de partículas elementares.
O méson pi é uma partícula fundamental. Até sua descoberta, a estrutura do átomo era conhecida apenas por meio de suas três partículas elementares: próton, nêutrons e elétrons. "Essa era a natureza da matéria", diz o pesquisador. O méson pi é uma partícula subatômica que se forma a partir de reações nucleares quando duas partículas de grande energia colidem. "É uma partícula de vida efêmera. Ela surge e é destruída logo em seguida, mas ainda assim é fundamental para entender a natureza das partículas elementares", explica astrofísico João Steiner, diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP. "Quando os raios cósmicos colidem com a alta atmosfera muitas partículas são formadas. Entre elas o méson pi."
O brasileiro publicou um artigo histórico sobre a descoberta no periódico científico "Nature", um dos mais prestigiosos do mundo, defendendo o méson pi. Prova da importância do trabalho é o fato de que seu orientador na descoberta do méson pi, Powell, recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1950. "E eles reconheceram, Powell e Occhialini, que foi o talento de Lattes que permitiu a descoberta de fato", diz Steiner.
Logo depois, já conhecido por seu trabalho nos Andes, ele deixou a Universidade de Bristol e cruzou o Oceano Atlântico para tentar produzir mésons pi artificialmente. O brasileiro buscou refúgio na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, onde trabalhou com o físico americano Eugene Gardner - que na época utilizava o mesmo acelerador de partículas que fora usado para fazer a bomba atômica lançada sobre a cidade de Hiroshima.
Outro feito do físico curitibano foi, em 1969, à frente de uma equipe de físicos brasileiros e japoneses, conseguir determinar a massa das chamadas bolas de fogo, fenômeno induzido pelo choque intenso de partículas dotadas de grande energia e que se supunha constituírem nuvens de mésons.
Steiner destaca que as descobertas de Lattes não apenas foram históricas para a Física internacional, mas foram feitas em uma época ainda prematura de desenvolvimento da ciência brasileira. "É claro que já havia cientistas de destaque individual, mas a ciência ainda não estava institucionalizada no Brasil", lembra. "Não havia órgãos de fomento como Fapesp, CNPq, Capes ou Finep. Foi uma fase heróica da ciência brasileira e César Lattes teve um papel pioneiro e inspirador dentro desse processo para toda uma geração."
No ano passado, ele recebeu do reitor da Unicamp, Carlos Henrique de Brito Cruz, em sua casa, os títulos de professor emérito e de doutor honoris causa, que lhe haviam sido conferidos no ano de sua aposentadoria, em 1986. Segundo a universidade, os títulos só foram entregues em 2004 porque Lattes, avesso a homenagens públicas, passou incólume por quatro reitores sem jamais conciliar uma data para a realização da cerimônia".
O cientista passou seus últimos anos entre Campinas e o Rio, onde ainda acompanhava as atividades da CBPF. Viúvo, será sepultado em Campinas, ao lado do túmulo de sua mulher.