Notícia

Jornal da Unesp

Morcegos no limiar do perigo

Publicado em 01 junho 2015

Por Edneia Silva

Embora muitas vezes temidos pelas pessoas, os morcegos são importantes para o ecossistema em que vivem. Eles ajudam no reflorestamento de matas, por meio da disseminação das sementes de frutos que ingerem, do controle de insetos e da polinização de flores. A relação entre esses mamíferos e o ambiente foi o tema da pesquisa realizada pela bióloga Renata de Lara Muylaert durante seu mestrado, defendido em julho de 2014 na Unesp, Câmpus de Rio Claro.

O estudo, intitulado Influências multiescala da paisagem e limiar da fragmentação em morcegos no Cerrado, investigou a influência da perda de vegetação em diferentes áreas no declínio da diversidade desses mamíferos. A pesquisa foi realizada em 15 áreas do Interior de São Paulo, abrangendo as cidades de Itirapina, Brotas, São Carlos, Porto-Ferreira, Analândia, Pirassununga, Santa Rita do Passa-quatro, Luiz Antônio e Batatais.

A bióloga concluiu que, para manter uma biodiversidade alta de morcegos (mais de 10 espécies) em uma área de 2 mil hectares, é necessário ter quase metade desse espaço coberta por floresta. “Paisagens com menos de 47% de vegetação possuem um decréscimo acentuado em número de espécies, o que torna as paisagens com baixa quantidade de floresta bastante empobrecidas em espécies de morcegos”, comenta. Isso quer dizer que a quantidade de espécies em um gradiente de degradação ambiental decresce mais acentuadamente a partir desse ponto crítico.

CONTINUIDADE

A pesquisa teve continuidade para verificar limiares para morcegos em remanescentes ao longo de toda a Mata Atlântica (presente do Rio Grande do Sul ao Piauí). Nesse contexto mais amplo, o trabalho verificou uma melhora nas condições para os morcegos, constatando que o limiar se encontra em pouco mais de 20% de floresta. Renata argumenta que essa diferença de limiares entre as áreas do território paulista e as do conjunto desse bioma ocorre porque, quando a Mata Atlântica é considerada em seu conjunto, há algumas áreas extensas que abrigam muitas espécies – até um máximo estimado em 45 espécies por área.

Os pesquisadores acreditam que as 15 áreas analisadas por Renata em São Paulo já enfrentam um empobrecimento crítico de espécies, e por isso apresentam um limiar mais alto. Por fim, embora a quantidade de floresta seja muito importante para assegurar a biodiversidade, a qualidade desses remanescentes deve ser avaliada, pois existem áreas extensas de vegetação que não são atrativas para a fauna. A pesquisa prosseguirá nessa avaliação a partir de agora.

O estudo foi orientado pelo professor Milton Cezar Ribeiro, chefe do Departamento de Ecologia da Unesp de Rio Claro, e co-orientado pelo professor Richard D. Stevens, da Texas Tech University. A pesquisa teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), IDEA Wild e Ecotone. “O trabalho poderá gerar indicativos de áreas prioritárias para a conservação de morcegos e também áreas-alvo nas quais a restauração pode ser favorecida pela presença de frugívoros dispersores de sementes”, explica Renata.