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Moradores de rua ganham voz em pesquisa antropológica

Publicado em 05 setembro 2016

(DINO - 05 set, 2016) - Conhecidos como mendigos, andarilhos, mundrungos, trecheiros, pardais, noias, sans-abri, homeless ou vagabundos, a figura do morador de rua configura-se como um problema público, cuja visibilidade está muito associada ao uso de drogas e à violência urbana. Nesse cenário global, antropólogos do Centro de Estudos da Metrópole lançam novo olhar à vida nas ruas, abordando tanto sua dimensão microssociológica - as formas de viver desses moradores - quanto sua dimensão política, por meio dos programas assistenciais e de controle. O resultado está reunido na coletânea Novas faces da vida nas ruas, organizada por Taniele Rui, Mariana Martinez e Gabriel Feltran, lançamento da EdUFSCar, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

 

O resultado mais relevante é a desnaturalização desse modo usual de pensar a vida nas ruas. Utilizando a pesquisa etnográfica, os autores conviveram por longos períodos com moradores de diferentes cidades, como São Paulo, Paris, São Bernardo do Campo, São Carlos, Curitiba e Rio de Janeiro. Busca-se descobrir sobre a cidade e o conflito urbano contemporâneo a partir de suas falas, movimentos e histórias. O pressuposto analítico é que se pode aprender com eles.

 

As três partes em que o livro está dividido já indicam alguns caminhos: a rua hoje produz políticas - internamente, para sobreviver; externamente, para controlá-la, reprimi-la, vigiá-la, ou mesmo assisti-la, ajudá-la. A rua cria uma miríade de serviços de atendimento - sociais, jurídicos, psicológicos, psiquiátricos, educativos, profissionalizantes, de cuidado em saúde, do higienismo ao sopão, da Cristolândia à cracolândia. A rua alimenta uma série de saberes: da epistemologia à psiquiatria, dos doze passos à redução de danos, do jornalismo à arquitetura e às ciências sociais.

 

O tema é gerador de debates e produtor de uma reflexão específica sobre as drogas, um dispositivo que parece oferecer hoje o guarda-chuva para se pensar qualquer questão vinculada às ruas. "O que as narrativas que compõem essa interlocução fazem é nos permitir apreender algo das cidades em que vivemos, e de nossas relações cotidianas nelas - porque é no cotidiano e nas rotinas que o mundo social se estrutura e se revela", afirmam os organizadores.

 

A obra marca a estreia da Coleção Marginália de Estudos Urbanos, que pretende promover a difusão de pesquisas empíricas sobre temas urbanos contemporâneos.

 

Sobre os organizadores - Taniele Rui é professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), graduada em Ciências Sociais, mestre e doutora em Antropologia Social pela Unicamp.

 

Mariana Martinez é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mestre e doutora em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela UFSCar.

 

Gabriel Feltran, professor do Departamento de Sociologia da UFSCar, coordenador de Pesquisa CEM e pesquisador do Núcleo de Etnografias Urbanas do Cebrap, é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, com estágio doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).