Notícia

Jornal da USP

Morador de rua: drama comum nas metrópoles do mundo

Publicado em 30 agosto 1999

Por LEILA KIYOMURA MORENO
A pesquisadora e professora da FAU Maria Cecília Loschiavo dos Santos acompanhou o dia-a-dia dos que vivem pelas calçadas dessas grandes metrópoles. Sem endereço, documento e nome, os moradores de rua aumentam a cada dia. São pessoas que perambulam na marginalidade, sobrevivendo das sobras da cidade. Esse drama, no entanto, não se limita às metrópoles do Terceiro Mundo. A professora Maria Cecília Loschiavo dos Santos, do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, pesquisou o cotidiano dessa população em São Paulo, Los Angeles e Tóquio. Ouviu suas histórias, sonhos, desalentos. E percebeu que, apesar das diferenças de cultura, eles carregam as mesmas dificuldades e enfrentam os mesmos problemas. "A população que hoje está presente nas ruas, praças, terrenos, improvisando casas embaixo de pontes, viadutos e logradouros públicos, faz parte de um conjunto de cidadãos brasileiros que, muito longe do exercício pleno de sua cidadania, acham-se desatendidos em um de seus direitos sociais básicos: a moradia", observa Maria Cecília. "Ainda que lhes seja impossível usufruir dos bens, serviços e da hospitalidade que tornam a vida mais digna dentro da casa, o direito ao espaço público não lhes foi confiscado e é nesses espaços que eles constroem, de forma absolutamente precária e transitória, a capacidade de acolher a vida e de refletir seu sentido." Nos últimos cinco anos, Maria Cecília vem acompanhando de perto o drama dessas pessoas. Sua pesquisa, no entanto, traz um foco inusitado. A professora, especialista em filosofia na área de estética e também em design, tem estudado a cultura material dos moradores de rua no contexto urbano das grandes cidades. Registra a forma como instalam suas casas e conseguem aproveitar o que a cidade desperdiça, construindo mobílias e reinventando objetos e artefatos. "Esta organização da sobrevivência, a partir de uma reorganização, reconfiguração e refuncionalização dos restos, dos dejetos, acaba por produzir efeitos de reestruturação do espaço público", diz a professora. "Nesse ritmo, criam um impacto estético na cidade, deixando suas marcas no ambiente urbano construído." Exposição em Los Angeles A pesquisa de Maria Cecília tem resultado em artigos que publica em livros e revistas de diversos países. Conseguiu reunir também cerca de 5 mil fotos. Algumas dessas imagens irão integrar, a partir do próximo dia 4, uma exposição no UCLA Fowler Museu de História da Cultura, em Los Angeles. Até o dia 2 de janeiro de 2000, vai estar apresentando as cenas do cotidiano dos moradores de rua de Tóquio, Los Angeles e Estados Unidos. Todas as fotos serão acompanhadas por legendas e depoimentos. "O morador de rua é um desafio para a sociedade", afirma a professora. "Costumo dizer que ele é o transiente excluído de uma sociedade em transição. Para solucionar esse fenômeno mundial, será preciso uma reflexão e ação democrática e multidisciplinar, pois este não é um mero problema social, político e econômico." Maria Cecília chegou até o morador de rua no viés de uma outra pesquisa. Há quase 20 anos, dedica-se ao estudo do design e, especialmente, do mobiliário da casa burguesa. "Comecei a ficar impressionada com a forma como as pessoas jogavam os móveis fora. É muito comum encontrar cadeiras e sofás descartados nas calçadas", conta. "Fui seguindo a rota desses objetos abandonados e me deparei com muitos dos chamados clássicos do design entre cobertores, colchões e sobras de outros produtos industriais nas casas dos moradores de rua, que eles próprios definem como mocós." Nas andanças sob as pontes, viadutos, a pesquisadora identificou pernas, assentos e encostos de móveis famosos. "Vi muitos pedaços de poltronas Charles Eames, de cadeiras de aglomerado laqueado de Geraldo de Barros, identifiquei restos das cópias da Poltrona Mole, assinada por Sérgio Rodrigues, da poltrona Sacco criada por Gatti, Paolini e Teodoro, entre tantos outros dispersos a esmo pela cidade, compondo criativamente um outro espaço, desenhando uma nova paisagem urbana." Nesse contexto, Maria Cecília viu os clássicos passarem por um processo de demistificação. "O fetiche que envolvia esses objetos que denotavam a ascensão social tinha se dissipado. Comecei a perceber um anti-design entre os moradores de rua, que também não deixa de ser uma cultura criativa nascida da luta pela sobrevivência." A vida sob os viadutos Na identificação da cultura do homem de rua, Maria Cecília mergulhou em um mundo marginalizado. "Mas com um respeito muito grande porque é um mundo onde a dignidade está presente", deixa claro. "Eu sentava nas calçadas para conversar com eles, entrava em suas casas e ouvia suas histórias. São pessoas solitárias. Quando sentem confiança, gostam muito de conversar. Fiquei surpresa ao ver a forma engenhosa como muitos constroem suas casas e transformam os viadutos como teto de suas moradias." Maria Cecília passou a ser uma figura conhecida. "Eles me acolhiam com carinho. Quando eu chegava, tinha sempre um café quentinho em uma xícara improvisada", lembra. "O morador de rua, em seu hábitat informal, rompe com o meio mais importante de consumo em nossa sociedade: a posse de uma casa ou domicílio e todos os compromissos daí decorrentes como taxas, impostos, luz, água. Exposto às várias formas de pressão, do mercado, da família, da sociedade, abdica de todos os vínculos. É na rua que ele expõe sua condição de extrema pobreza, demarcando o seu lugar social que é estigmatizado pela sociedade." Impressionada com o fenômeno, Maria Cecília foi ouvir outras histórias em outras metrópoles. Mesmo sem falar japonês, saiu pelas ruas de Tóquio. Apresentava-se como sensei (professora) e se fazia entender com a ajuda de três alunos do curso de português da Universidade Católica de Tóquio. "Fiquei três meses percorrendo as ruas. Lá, também encontrei muitos artistas anônimos. Pessoas que gostam de pintar e fazem adornos curiosos com o papel e objetos que recolhem nas ruas. Elas me recepcionavam com carinho e missoshiro, uma sopa de soja que preparavam na hora." Maria Cecília também desenvolveu uma pesquisa cuidadosa em Los Angeles. "Concluí que os moradores de rua do Japão, Brasil e Estados Unidos, apesar das diferenças culturais, têm muitas semelhanças. Eles carregam o estigma da marginalidade. Moram em casas de plástico e papel. Têm sempre à mão um carrinho para carregar as sobras da sociedade. Vivem da venda de papel, de latas de cerveja e refrigerante, modificando a função original dos produtos e dos materiais para satisfazer suas necessidades de abrigo. Apesar dos problemas, eles criaram uma nova maneira de viver e sentir a cidade. E posso garantir que esse convívio me ensinou a valorizar a vida na sua essência, na sua simplicidade."