Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Monotonia alimentar

Publicado em 31 outubro 2005

Frutas, tubérculos e hortaliças silvestres desconhecidos são alvo de pesquisa brasileira


É o caso, por exemplo, da jeijoa. Nativa da parte sul do continente americano, ela só teve o potencial devidamente explorado quando chegou à Nova Zelândia e ao sul da França. Lá, são usadas em diversos produtos, desde cosméticos até champanha, servindo ainda para fabricação de doces, sorvetes e geléias.
Kinupp se dedica a resgatar esse conhecimento, que além de alimentar muita gente, pode ser uma alternativa de emprego e renda para várias regiões do mundo, principalmente para pequenos produtores.
Entretanto, poucas são as comunidades que realmente conhecem o potencial alimentício das plantas silvestres. "As pessoas e até alguns botânicos não conhecem. Se estiverem perdidas numa mata, passarão dificuldade", avaliou o especialista.

Imperialismo
Hoje, segundo Kinupp, a alimentação humana se restringe a cerca de cem espécies vegetais em um universo de 17 mil. Para o especialista, isso se deve a um longo processo que mistura modismo, comodismo, desconhecimento e interesses econômicos.
Trigo, milho, batata e arroz, por exemplo, representam nada menos do que 60% das calorias ingeridas pelos mais de 6 bilhões de habitantes do Planeta.
Entre as principais espécies vegetais consumidas no mundo, 52% vieram da Europa e Ásia. Da região da América Latina, apenas 18%.
Kinupp classifica essa situação como um 'imperialismo gastronômico-alimentar'. "O ser humano vem optando pela especialização ao invés da diversificação alimentar", disse o biólogo.

Além de uma 'monotonia à mesa', essa realidade é perigosa. No século 18, por exemplo, a batata era base da alimentação de muitos países, como a Irlanda. Um fungo e uma desastrosa seca causou a morte de milhões pela fome, provocando um êxodo da população.
"Diversificar a alimentação significa soberania. Falamos tanto da biodiversidade brasileira, mas comemos a biodiversidade dos outros", disse Kinupp, cujo trabalho de doutorado, orientado pela professora Ingrid Barros, dará origem a um livro com receitas culinárias.
Mas existe ainda um outro impacto negativo nesse processo. Muitas das plantas alimentícias pesquisadas por Kinupp são, por desconhecimento, consideradas ervas daninhas. "Muitos se desgastam roçando e eliminando esses vegetais, não raramente com o uso de produtos químicos".

Por outro lado, essas plantas estão presentes em vários ecossistemas ameaçados, como a Mata Atlântica e o Cerrado. Desvendar o potencial que se esconde nessas áreas pode permitir o manejo sustentável e a preservação da biodiversidade nativa do País, gerando oportunidades onde muitos só vêem 'mato'.

Do próprio veneno
Uma nova classe de defensivo agrícola acaba de ser desenvolvida no Brasil. Ela é feita a partir de uma proteína encontrada nas próprias plantas, que possui atividade inseticida.
Carunchos, pulgões e percevejos, entre outros, morrem ao ingerir a toxina criada em laboratório por engenharia genética. Célia Carlini, coordenadora das pesquisas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, disse à Agência Fapesp que a grande vantagem do novo pesticida é que a proteína da qual é feito "está presente em alimentos que são consumidos diariamente pela população, como feijão, melão, melancia, abóbora e pepino, uma sinalização de que ela não faz mal ao nosso organismo".
A nova toxina vegetal está restrita a testes de laboratório. Em 2006 devem começar as análises no campo.

Que tal experimentar o seguinte café da manhã: pão de bertalha, geléias de araçá e de jaracatiá, bolo de capuchinha, suco de banana do mato e, para finalizar, um chazinho de erva-mate.
Estranhou o cardápio? Bom, dependendo da região do País, essas e outras frutas, tubérculos e hortaliças silvestres estão à disposição na natureza. Muitas são típicas do Brasil, outras de diferentes países ou continentes.
Apesar disso, raramente aparecerão no cotidiano dos brasileiros. Elas fazem parte do que o biólogo Valdely Kinupp, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, chama de "recursos alimentares subexplorados".