Notícia

Jornal da Unicamp

Molécula 'criada' em laboratório tenta frear disfunção que causa mal de Alzheimer

Publicado em 21 setembro 2003

Por ANTONIO ROBERTO FAVA
Pesquisadores do Laboratório de Síntese de Substância Orgânicas Bioativas (Lassob) do Instituto de Química (IQ) acabam de concluir estudos científicos preliminares que buscam o desenvolvimento de um medicamento com potencial de aplicação futura no tratamento do mal de Alzheimer, doença que afeta 1% da população mundial com mais de 65 anos. De acordo com Ricardo de Lima Barreto, autor da pesquisa, a idéia é desenvolver uma substância que possa atuar como fármaco, embora a pesquisa esteja numa fase embrionária. "Estamos 'criando' em laboratório uma nova molécula que seja capaz de 'frear' a atividade da enzima acetilcolinesterase, cuja disfunção é uma das causas da doença", diz o pesquisador. Para se tornar efetivamente um medicamento, essa molécula deve passar, depois, por uma série de testes pré-clínicos e clínicos, o que demanda muita pesquisa e pesados investimentos. "Daí a necessidade de políticas de investimento público nesse sentido", observa o professor Carlos Duarte Correia, que está orientando a pesquisa de Ricardo Barreto. O Brasil não produz medicamento que atenue os efeitos da doença. A pesquisa começa pela busca de um novo protótipo, que é uma pequena molécula, que tem afinidade por um determinado alvo biológico, que pode ser um receptor ou uma enzima. Em seguida, passa-se para uma nova fase, em que se procura um aumento da afinidade e seletividade dessa molécula pelo receptor biológico, avaliando-se também as suas propriedades farmacocinéticas. "Tais propriedades envolvem a absorção do fármaco, sua distribuição e metabolismo no corpo, além de sua excreção e toxidade", diz Ricardo, autor da tese "Design e síntese de novos análogos estruturais da acetilcolina conformacionalmente restringidos", apresentada recentemente ao Departamento de Química Orgânica do Instituto de Química (IQ), sob orientação do professor Carlos Roque Duarte Correia. Nesse sentido, especificamente nas fases de busca por um novo protótipo e sua otimização, a química orgânica sintética medicinal tem um importante papel, sendo responsável pelo design molecular e preparação de novas substâncias bioativas, o que exige constante intercâmbio informativo com a farmacologia. A transmissão de um impulso nervoso é feita a partir do neurônio - unidade fundamental, morfológica e funcional do cérebro - que lança, sobre outra célula nervosa, substâncias chamadas neurotransmissores. "A recepção dessas substâncias leva a uma resposta, que pode ser, por exemplo, a contração do músculo ou seu relaxamento", diz o pesquisador. Resultados - As novas substâncias obtidas por Lima Barreto nas pesquisas financiadas pela Fapesp e pelo CNPq, foram enviadas ao Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde terão suas propriedades farmacológicas avaliadas. Por enquanto, a eficácia não está comprovada. "Se os resultados forem promissores, passaremos para a segunda etapa de otimização das propriedades farmacológicas, por meio de uma série de modificações estruturais, quando dermos continuidade aos estudos", explica o professor Carlos Roque Duarte Correia, orientador das pesquisas de Ricardo. Alterações - A doença, descrita pela primeira vez em 1907 por Alois Alzheimer, é uma desordem neurodegenerativa crônica e progressiva, caracterizada por uma profunda disfunção mnemônica. Seus sintomas estão associados a alterações ocorridas em certas regiões do cérebro envolvidas nos processos cognitivos. Entre as diversas manifestações cognitivas e neuropsiquiátricas promovidas pela doença, podem-se citar os distúrbios de memória, linguagem, performance visual, funções motoras, apatia, ansiedade, irritabilidade e alucinações, entre outras. Tais manifestações podem resultar numa progressiva invalidez, caso não sejam empregadas drogas que aliviem os sintomas e impeçam o seu desenvolvimento. Só nos Estados Unidos, de acordo com Ricardo, a doença afeta 4 milhões de pessoas, e é considerada um problema de saúde pública. Os gastos diretos e indiretos envolvidos no tratamento de pacientes com a doença chegam a aproximadamente 100 bilhões de dólares por ano. "E a tendência é aumentar, porque a doença afeta, na grande maioria, pessoas com mais de 65 anos, sendo que a população de idosos, em boa parte do mundo, inclusive no Brasil, só tende a crescer", explica. Apesar do empenho da ciência, os tratamentos disponíveis para o mal permitem apenas suavizar os efeitos da doença, o que faz com que médicos e familiares assistam, impotentes, à degeneração gradativa do indivíduo.