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Caderno Digital online

Modernização da Gestão Pública

Publicado em 31 março 2005

Se todas as compras (de dispensa e convite) dos governos estaduais, municipais e federais fossem feitas de forma eletrônica, o Brasil teria economizado, em 2004, R$ 23 bilhões de reais, somando as economias processuais e as de preços. Essa quantia representa praticamente o valor de pagamentos dos juros da dívida externa para o mesmo ano, que foi de R$ 20 bilhões.
Para falar de desenvolvimento econômico e de inserção adequada de nossa economia no novo cenário Econômico Mundial devemos, certamente, ter que falar de processos de Modernização da Gestão Pública e de Governo Eletrônico. Já não restam dúvidas que boa parte da melhora de nosso "Custo Brasil" reside nestes dois últimos processos e que o Estado é responsável por utilizar melhor os seus recursos e tentar reduzir a carga tributária. Anualmente as empresas fornecedoras do Estado de São Paulo podem redirecionar uma quantia de R$ 62 milhões para atividades que geram maior valor (esta quantia é o total economizado por estas empresas por venderem ao estado pelo meio eletrônico em lugar do tradicional). Mais informações no site: www.relogiodaeconomia.sp.gov.br  elaborado com a colaboração de nossa consultoria.
Em minha coluna mensal na revista B2B Magazine venho resumindo frequentemente este tema: os benefícios econômicos do e-Gov. Mas por que não avançamos mais rápido? Se como já demonstramos inúmeras vezes os investimentos em TICs são insignificantes frente ao retorno, por que não aceleramos e implementamos de vez mais e melhores programas de e-Gov?
Acredito que dois principais processos nos ajudam a explicar o que acontece: inércia e resistência a mudança, e a arma para combatê-las é a mesma: vontade política.
Sobre a primeira, a inércia: todo relacionamento humano e todo conjunto de relações sociais tendem a gerar inércia, isso vale desde relacionamentos inter-pessoais, como para estruturas administrativas, econômicas e até mesmo sociais. Qualquer aglomerado humano tende a estabelecer rotinas no seu relacionamento para assegurar a continuidade do mesmo. As rotinas somente não existem quando os relacionamentos são fortuitos e aleatórios. Desta forma, uma empresa precisa construir rotinas para realizar seus procedimentos, e o mesmo acontece com o Estado. Em qualquer estrutura inter-pessoal sadia, estas rotinas precisam ser revistas com freqüência, para localizar processos que possam ser melhorados. Isto já vem sendo feito pelas empresas, e começa a ser feito também pelo Estado. A tendência e a inércia, mas a vontade política pode mais que ela. 
O outro problema quando falamos não só de e-Gov senão de qualquer implementação de tecnologia, é a dificuldade de toda grande estrutura em se readequar frente às mudanças históricas, neste caso particular, a emergência de um novo padrão tecnológico. A incorporação de tecnologia aos processos vem acontecendo de forma gradual e sistemática, entrando fortemente nos processos administrativos somente duas décadas atrás, e no governo somente a partir da última quinzena de anos. A maioria dos problemas que surgem quando se trata de implementação de tecnologia vem de resistências ou conflitos com as pessoas envolvidas.
Todos nós somos resultantes de um determinado conjunto de relações sociais interconectadas, e a reestruturação delas gera medos. A "dor de passagem" do conhecido ao desconhecido, está mais relacionada ao fato de termos de refazer rotinas e relações existentes, do que ao receio do novo ser ruim. Se isso acontece em todos os âmbitos da vida, não seria diferente no âmbito profissional.
O que fazer? Em primeiro lugar reconhecer que o problema existe e enfrentá-lo. Tenho uma grande tentação de entrar no terreno da psicologia e começar a divagar sobre as teorias que nos ajudariam a vencer as próprias inércias e os nossos medos as mudança e aplicar estes conhecimentos ao âmbito estatal, mas não é este o foco da coluna.
Quando há vontade política verificamos que os avanços são consideráveis. Não é a primeira vez que mencionamos o caso de São Paulo no qual à enorme vontade política do primeiro escalão do Governo se soma a clareza de colocar à gestão de TICs dentro do coração da máquina pública, na Casa Civil, e junto ao processo de modernização do Estado, reunidos no CQGP- Comitê de Qualidade da Gestão Pública , conduzido por Roberto Agune.
Escolher governantes com vontade política de avançar é responsabilidade de todos nós, mas, o que pode ser feito para ajudar a consolidar e alavancar a possibilidade desta vontade política? Um dos caminhos é o de construir argumentos que ajudem esta vontade política a avançar mais rápido e a de demonstrar o já dito: a inevitabilidade do avanço do processo de reestruturação da máquina pública e da incorporação de TICs. Esta é a grande meta à que estou dedicada. Mas por outro lado, a sociedade civil em seu conjunto deve pressionar para que esta seja a linha a ser seguida e quando fizer suas escolhas identifique esta vontade de transformar com a coragem que será necessária. 

Florencia Ferrer
Diretora - Presidente de Florencia Ferrer Pesquisa & Consultoria
Coordenadora do Núcleo de Estudos e Desenvolvimento em e-Gov da FUNDAP-FAPESP.