Notícia

Secretaria de Ensino Superior (SP)

Modelo de produção agrícola perpetua contaminação com agrotóxicos

Publicado em 06 abril 2009

Consciência do risco

Uma pesquisa feita com plantadores de tomate indicou que 72,9% dos entrevistados têm consciência do risco a que estão expostos quando manipulam agrotóxicos, mas essa percepção não é suficiente para, segundo o estudo, "desencadear o processo de mudança de atitude".

O trabalho, feito em seis municípios de Goiás, foi publicado na revista Ciência e Agrotecnologia e identificou também que muitos trabalhadores começaram na lavoura ainda na infância - com cerca de 10 anos de idade - e a grande maioria tem apenas o ensino fundamental incompleto.

Problemas no manuseio dos agrotóxicos

De acordo com Sueli Martins de Freitas Alves, professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e uma das autoras do artigo, o estudo identificou em várias lavouras problemas no manuseio dos agrotóxicos. Os problemas, segundo ela, se iniciam no local em que são colocados os produtos que estão em uso, que é o mesmo onde estão os alimentos dos trabalhadores.

"Verificamos também que durante o preparo da calda de aplicação, em algumas lavouras os trabalhadores responsáveis pela tarefa não usavam os equipamentos de proteção individual indicados para o manuseio. Eles também não levavam em conta o horário de aplicação nem a direção do vento, além de não usar os equipamentos de proteção individual e observar o intervalo de reentrada na lavoura", disse à Agência FAPESP.

Nível educacional

A pesquisadora aponta que os problemas identificados são consequências não só do uso inadequado dos agrotóxicos, mas decorrentes de diversos outros fatores que interferem diretamente nas condições e no ambiente de trabalho.

"Ressaltamos, contudo, que esses problemas podem ocorrer em maior ou menor intensidade, dependendo da assistência técnica e do preparo que os trabalhadores têm para manusear esses produtos", destaca Sueli.

Segundo o estudo, diversos determinantes socioeconômicos estão relacionados com a amplificação ou a redução do impacto da contaminação humana por agrotóxicos, com destaque para o nível educacional, habilidade de leitura e escrita e renda familiar.

Os dados da pesquisa foram colhidos a partir das visitas de campo realizadas de dezembro de 2004 a outubro de 2005, em seis municípios de Goiás, estado que, em 2005, foi o maior produtor de tomate do Brasil. Foram entrevistados 96 trabalhadores.

Tecnologias alternativas

De acordo com a pesquisa, os problemas no uso de agrotóxicos são decorrentes do modelo de produção agrícola adotado e da estratégia de introdução e difusão dessa tecnologia.

"Esperar que, em curto prazo, os tomaticultores utilizem tecnologias alternativas não é uma previsão realista, pois essas tecnologias necessitam ainda de maior apoio técnico para poder alcançar os níveis desejados de produção agrícola e viabilidade comercial", afirmou Sueli.

O estudo avaliou diversas etapas do processo de manuseio dos agrotóxicos, como a preparação da calda, horário e intervalo de aplicação de agrotóxicos, equipamentos para aplicação e equipamentos de proteção individual e a percepção de riscos.

Vento a favor

Cerca de um terço dos entrevistados afirmou não ter horário definido para as pulverizações. Outro ponto importante foi perceber que a velocidade do vento e o horário de aplicação dos agrotóxicos são fatores para os quais os trabalhadores não têm muita preocupação, com exceção de quando está ventando muito.

"Observar a direção e a velocidade do vento é importante para evitar que o vento traga a névoa tanto para o rosto e o corpo do trabalhador como para as barracas que são utilizadas para descanso e alimentação", explicou a pesquisadora.

Equipamentos de proteção individual

Quanto aos equipamentos de proteção individual, o estudo identificou que em apenas 30% das lavouras foram encontrados equipamentos de proteção individual fornecidos pelos proprietários das lavouras.

Em relação à percepção de risco, os trabalhadores foram divididos em duas categorias, os que percebem o risco, porém continuam usando os agrotóxicos, e aqueles que não percebem o risco ou não acreditam nele.

Na primeira categoria ficaram 72,9% dos entrevistados. Desses, 51,4% não usavam equipamentos de proteção individual, 25,7% usavam e 22,9% usavam outro tipo de proteção. Na segunda categoria, apenas 7,7% usavam equipamentos adequados.

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi que 58,4% dos entrevistados trabalhavam com agrotóxicos há mais de 15 anos.