Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Modelo de construção sustentável

Publicado em 14 fevereiro 2005

Por Elizabeth Oliveira
Uma experiência-piloto desenvolvida no Assentamento Fazenda Pirituba, em Itapeva, interior de São Paulo, poderá transformar-se em modelo de construção sustentável para reduzir o déficit de moradias em áreas rurais brasileiras, estimado em mais de 1 milhão de unidades - segundo a Fundação João Pinheiro com base no Censo Demográfico de 2000. Nessa comunidade, 49 famílias beneficiadas pelo projeto InovaRural, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), estão construindo suas futuras casas em regime de mutirão e utilizando materiais renováveis, como tijolos de terra crua misturada com fibras de madeira. A técnica simples dispensa o uso de forno e é garantida por especialistas da Universidade Federal de São Carlos e outros pesquisadores parceiros.
- Esse projeto incorpora a visão da sustentabilidade na construção, estimula a participação local em todo o processo construtivo e capacita profissionais como os que estão passando pela oficina de marcenaria. Nela os futuros moradores aprendem a usar material alternativo e a construir portas, janelas, painéis de vedação, móveis e outros objetos. Quando as casas estiverem prontas, a oficina servirá como fonte de renda para a comunidade - ressalta Ana Maria Nogueira de Souza, coordenadora do Programa Habitare, da Finep, no qual o Projeto InovaRural está inserido.

Fixação no campo
A construção de baixo custo e o estímulo à fixação do homem no campo são outras características do InovaRural. O projeto recebeu liberação de R$ 220,5 mil da Caixa Econômica Federal, o que corresponde a R$ 4,5 mil por cada unidade beneficiada pelo Programa de Subsídio Habitacional Rural (PSH). O Ministério do Desenvolvolvimento Agrário-Incra também está injetando R$ 147 mil nessa iniciativa - R$ 3 mil por casa. Outro parceiro é o Ministério das Cidades.
O projeto dos imóveis inclui varanda, sala, banheiro, cozinha, despensa e lavanderia, podendo ter dois e três quartos. O espaço de cada casa varia de 66,16 metros quadrados a 75,88 metros quadrados.
- Trata-se de um projeto que integra as dimensões da sustentabilidade na cadeia de produção de habitação, com foco no desenvolvimento local e regional. É dada prioridade à utilização de recursos que abrangem a integridade ecológica, a manutenção social, viabilizando maior equidade de riquezas e oportunidades - afirma a superintendente de Negócios do Escritório de Negócios de Sorocaba, Bernadete Coury. A executiva também elogiou o incentivo à participação da comunidade na tomada de decisões.
A coordenadora do Programa Habitare disse que a iniciativa desenvolveu mais de 100 pesquisas no Brasil, mas que o projeto de Itapeva é a primeira experiência de tecnologia para a construção no meio rural. Ela está confiante de que esse trabalho servirá de modelo para novas iniciativas no País.
A Finep repassou R$ 150 mil para a Escola de Engenharia de São Carlos da USP. Os recursos não-reembolsáveis são oriundos do Fundo Verde-Amarelo e de convênio com a Caixa Econômica Federal. A escolha do trabalho foi feita via chamada pública no final de 2003. No início do ano passado o projeto começou no Assentamento Fazenda Pirituba e a previsão é de que até o final deste ano as obras sejam concluídas.

Integração
Ana Maria destacou que o Fundo Verde-Amarelo estimula a integração de órgãos públicos, instituições de ensino e pesquisa, Organizações Não-Governamentais (Ongs) e empresas.
- Nossa preocupação é dar apoio a novas tecnologias que tenham possibilidade de ser transferidas e o nosso grande sonho é a criação de um fundo de financiamento próprio para a área social - observa a coordenadora do Programa Habitare.
No Brasil, cerca de 400 mil famílias vivem em assentamentos rurais e uma grande preocupação dos pesquisadores é com a criação de políticas públicas que garantam melhores condições de moradia e produção para essa população.
O incentivo à geração de emprego e renda é outra preocupação dos pesquisadores, tanto que nesse projeto, a coordenação do InovaRural conseguiu montar a marcenaria coletiva dentro do assentamento rural e firmar parcerias com reflorestadoras e serrarias locais.
Os trabalhos de iniciação científica que estão dando suporte a esse projeto vêm em maioria do Grupo de Pesquisa em Habitação e Sustentabilidade (Habis) da Escola de Engenharia de São Carlos da USP e da Universidade Federal de São Carlos.
Outros parceiros envolvidos no Projeto InovaRural são a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, Incubadora Regional de Cooperativas Populares (INCoop), ligada à UFSCar, além da Faculdade de Engenharia de Bauru, vinculada à Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Também integram a rede de parceiros do InovaRural a Fundação Intituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado (Usina), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e a Coordenação Regional de Itapeva, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).