Notícia

Jornal da Unesp

Modelito de verão

Publicado em 01 fevereiro 2000

Envergar chapéu, luvas, óculos, máscara, macacão, avental e botas no meio de uma plantação de tomates, milho ou café, em pleno verão, pode não ser programa dos mais agradáveis. Exatamente por isso, embora sejam equipamentos de proteção individual recomendados pelas Normas Regulamentadoras Rurais, do Ministério do Trabalho, para o trabalhador rural durante a aplicação de defensivos agrícolas, poucos os usam. "A vestimenta é incômoda, deixa o usuário com dificuldade de locomoção e é muito quente", descreve o engenheiro agrônomo Joaquim Gonçalves Machado Neto, do Departamento de Fitosanidade da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, câmpus de Jaboticabal. "Por isso, resolvi criar uma roupa tão eficiente e protetora quanto as existentes no mercado, mas muito mais cômoda e confortável." A roupa para aplicação de agrotóxicos desenvolvida por Machado Neto - e patenteada pela UNESP - é semelhante a um macacão. É confeccionada com plástico impermeável e totalmente aberta atrás, protegendo toda a região frontal do corpo, incluindo braços e pernas. Dependendo da exposição, deve ser complementada por máscaras descartáveis, botas de borracha branca e luvas. "É ideal para aplicações em culturas de até dois metros, como a de tomate estaqueado, por exemplo", explica o pesquisador. "Nestas plantações, as partes do corpo mais expostas são os pés, as coxas e a região frontal das pernas." ONDE MORA O PERIGO Durante suas pesquisas para desenvolver a roupa. Machado Neto chegou também à conclusão de que a intoxicação por agrotóxicos não depende apenas do tipo de veneno que se usa, mas, sobretudo, do grau de exposição durante a aplicação. "Notamos que o tempo de exposição tem a mesma importância que o grau de toxicidade dos produtos na determinação do risco de intoxicação dos manipuladores de agrotóxico", explica o pesquisador. É justamente aí que mora o perigo. Por causa do rigor da legislação, vários dos agrotóxicos mais perigosos já são aplicados por trabalhadores devidamente protegidos. "Mas o mesmo não acontece com os agrotóxicos de menor toxicidade, como a maioria dos herbicidas e fungicidas", alerta Machado Neto. "Tidos, erroneamente, como 'menos perigosos', continuam ameaçando a saúde na zona agrícola, pela forma como o aplicador se expõe." Daí a importância de tornar o equipamento de proteção mais confortável. "Assim, o trabalhador rural, pessoa geralmente com baixo grau de instrução, não vai oferecer resistência quando houver necessidade de usá-lo." Na prática, o trabalho do engenheiro agrônomo contribui para diminuir os casos de intoxicação, porque propõe a utilização de roupas mais adequadas e que atendem à indicação das Normas Regulamentadoras Rurais - NRRs. "As NRRs não especificam os modelos dos equipamentos e, por isso, dificultam o seu uso", diz Machado Neto. "A máscara de proteção convencional, com filtro de carvão ativado, por exemplo, é muito grande e impede o trabalhador de enxergar o local onde pisa." Com o equipamento que desenvolveu, o pesquisador está contribuindo para diminuir os casos de intoxicação por venenos em geral e pelos com baixo grau de toxicidade em particular, com os quais os aplicadores têm menores cuidados, embora fiquem longo tempo expostos a eles.