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Jornal do Brasil online

Mito: A volta da garota do It

Publicado em 18 setembro 2005

Quando se ouve falar em Carmen Miranda logo se pensa em bananas e balangandãs, não é? Mas a artista de múltiplos talentos, cuja morte completa 50 anos em 2005, deve ser lembrada além dos estereótipos. Para homenagear, celebrar e refletir, o Rio vai ganhar um musical com Marília Pêra, uma biografia assinada por Ruy Castro e um espetáculo-cabeça de Antunes Filho, além do lançamento de outro livro O it verde e amarelo de Carmen Miranda (1930-1946), (ed. Anablumme/Fapesp) - adaptação da tese de doutorado da professora de História Contemporânea da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Tânia da Costa Garcia.
A atriz Marília Pêra, que estréia dia 24, no Teatro João Caetano, Marília Pêra canta Carmen Miranda, com direção de Maurício Sherman, já encarnou outras vezes o papel de Carmen Miranda ao longo de sua carreira. Na nova montagem, Marília será acompanhada pelo dançarino Carlinhos de Jesus, duas coristas, e uma réplica do conjunto Bando da Lua, composto por cinco atores-cantores, e uma orquestra de nove músicos. A atriz revela que fazê-la novamente, depois de 33 anos, traz a mesma emoção, mas agora tem mais subsídios para montar a personagem.
- Em 1972, quando fiz o musical com Sherman, quase não havia memória sobre a vida da Carmen. Era época da ditadura militar e vigorava a idéia que ela tinha se americanizado. O pessoal da esquerda achava a figura dela alienante. Havia fotos, mas pouca possibilidade de vê-la em movimento. Ela foi trabalhar nos Estados Unidos porque tinha um talento inigualável. Mas foi vaiada aqui e ficou muito magoada. Para mim, Carmen sofreu um assassinato cultural - opina a atriz, que sempre interpretou mulheres fortes, como Maria Callas, Dalva de Oliveira, Coco Chanel e se prepara para fazer Sarah Kubitschek, em minissérie da TV Globo.
- Essas figuras tinham um fogo, uma chama tão grande que acabaram se consumindo. Também sofreram assassinato cultural. Em certo aspecto, eram frágeis, mas infinitamente maravilhosas - diz Marília.
Com o objetivo de discutir o imaginário popular a respeito de Carmen e estimular a reflexão sobre fetichismo, estereótipos e arquétipos, sem entrar nas questões políticas que estiveram próximas à artista, o diretor teatral Antunes Filho, montou Foi Carmen Miranda, que estará no Rio nos dias 22 e 29 de setembro, no Teatro Sesc Ginástico. De acordo com Antunes, não será um espetáculo alegre como o de Marília. Ao contrário, a peça tem uma certa melancolia.
- O tempo do espetáculo é outro, mais lento. É o tempo do zen, mais oriental. Minha intenção é falar sobre a idéia de que ''foi'' Carmen Miranda, não é mais, ''foi'' o Rio, ''foi'' a saudade de amigos que morreram. Longe de fazer uma festa, quero que as pessoas reflitam. Dramatizo os estereótipos - afirma Antunes, que na peça mistura samba e butô (dança japonesa criada nos anos 50).
Nas prateleiras, além do livro de Ruy Castro que será lançado em novembro, a professora Tânia da Costa Garcia acaba de publicar livro que defende a tese de que Carmen Miranda mostra a dificuldade do povo brasileiro de assumir sua identidade. A professora trabalhou com notícias publicadas sobre a artista pelas revistas O Cruzeiro e Cena Muda entre 1930 e 1946, desde os primeiros filmes feitos no Brasil, a ida para os Estados Unidos, o show no Cassino da Urca, até o rompimento do contrato com a 20th Century Fox, em 1946, época que marcou o fim da figura caricata da baiana, tão explorada por Hollywood.
- O fato de representar o país com a figura da baiana gerou muita polêmica aqui. Carmen foi muito rejeitada também porque divulgou o samba como parte da cultura brasileira. As pessoas não gostavam da imagem carnavalizada que ela passava. Em algumas revistas apareciam afirmações como ''Carmen Mirandice hedionda, que canta sambas negróides'' - cita Tânia, que acha Carmen extremamente importante para o país por ter aparecido exatamente quando o samba carioca se transformou em canção popular brasileira, divulgada, sobretudo, a partir do crescimento dos meios de comunicação como o rádio.
- A classe média, formadora de opinião pública, não gostava do estilo dela, mas o povo adorava, só lamentava o fato de ela não fazer papéis glamourosos como as americanas, e estar sempre ligada a personagens cômicos - ressalta.
Ela lembra que foi Carmen que criou a figura da baiana baseada na cultura brasileira. Na opinião de Tânia, foi essa mistura, já pronta para ser consumida pela indústria cultural, que chamou a atenção.
- A cantora foi chamada por O Cruzeiro de o ''it verde-amarelo'' antes mesmo de ir para os Estados Unidos. Acho que se dependesse do Brasil ela seria esquecida como foi Aracy de Almeida - afirma a acadêmica.
Ela acredita que Carmen também abriu passagem para os movimentos de afirmação cultural como a Tropicália e a Bossa Nova. No primeiro caso, numa tentativa de buscar na figura da cantora a idéia da cultura primitiva com vontade de ser moderna, e que também mandava um recado: vamos falar do que a gente é, olhar para a nossa cara. Já no caso da Bossa Nova, Carmen foi responsável por fazer a ponte para diversos músicos na América, como Laurindo de Almeida e Ary Barroso.
- O livro fala do Brasil que não assume sua identidade. Felizmente, agora estamos discutindo isso. Na tentativa de se preservar a cultura, se resgatam os mitos - conclui.